quinta-feira, 12 de julho de 2018

Qual Quer.



Não quero ir, minha BeBê.

Olhos, seus olhos, castanhos, amendoados, melados, devidamente adornados emoldurados em cílios perfeitos. Melo-me.

Sou a busca por sua risada, sua compreensão, afeito afeto, desperto, eu qualquer. Um seu, um pedido, um perdido, uma súplica. Me ame mais, filha, porque preciso. Por favor.

Você me faz acreditar na vida, me faz acreditar no mundo, me faz acreditar no ser humano, no Bom, no Bem, no Belo. Você, tão você, tão ubiquamente nada eu, melhorado, melhorada, em perfeita sincronia com o que tem que ser. Seja.

Cereja.

Já não zarpo, já não parto, partido há sete anos e meio, não mais me completo sem sua cabeleira ou sua delicada forma de ver e ser meu mundo. Sou um turista perdido dentro de mim mesmo.

Sou alguém que quer ser melhor por sua causa. Sou quem quer salvar o mundo por sua causa sem ser herói. Seu cheiro, seu humor. Sua risada menina. Seu encanto é minha rede. Talvez até de proteção.

Me salve, minha filha.

Sou o erro mais obtuso que deu certo, porque, sorte de principiante, lhe fiz. Assim assim.
Meu espelho não me revela mais quem sou, mas quem preciso ser para ser seu pai.
Pôr um triz no nome demuda as certezas que eu tinha. Você me interroga, filha, e me obriga a responder. Sou texto inacabado, palavras, tentativas de frases procurando imagens de nem sei.

Pele morena, claro. Serelepice. Spice. No tempero da vida, você me ensinou as receitas que tento aprender pra viver em saciedade.

Eu, pai, pouco, saudade, pequeno.
Você, filha, abraço, encontro, chamego.

Em sete anos e meio a guarda compartilhada que conheci foi meu coração. É o quem vejo guardado na primeira gaveta do seu armário, solitário, a espera de você.

Não, quero ir, minha BeBê. Preciso. Você me encontre. Por favor.





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Medo



Heuje, caminhando para o mercado central, chorei duas vezes. 

Não há medida para saudades.

Minha incompetência aposta corrida com o desejo de mudança e vence a disputa. Sou um juiz forjado no tempo. Minha ganância moldada pela cultura católica, minha ira sufocada pela doçura de minha mãe, minha revolta domada por toda leitura. 

A mansidão amainou a tempestade. Gelei-me.

Não penso mais em zarpar, não mais em saltar, minha espada, embainhada, enferruja com o pranto dos momentos de solidão profundos.

Colhi as velas no mar aberto. Me sentei no calado do barco, no calado da vida, nu, calado Davi.

A soma dos pesos não permite balanças.

Quando distar-me terei ido.

Findo, derrotado e re-partido.

As chagas do berço dóem cicatrizes húmidas.

Os queijos caros e premiados que comprei no mercado central tem fungos invisíveis.



terça-feira, 3 de abril de 2018

Como com viver sem.





não canso de me querer escrever

iletrado, tenho colecionado silêncios

em mim, de finições e recomeços, ex-cutas

zelo substantivo, zelo verbo: 
a etimo-elegia do ciúme

pedra fito, zentimento, 
o eusquecer universamente

o cheiro da minha filha 
é mesmo
o tsunami do Cosmos. 



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Travessias do Tradizível: João Guimarães Rosa e Juraci Dórea


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Para o Mestre dos Mestres.



Vai ser difícil reunir tanta gente interessante assim numa foto. Mas só quero falar do que está de óculos e camisa branca. Sim, à sua direita.

Se você não conheceu esse cara, e não sabe de quem estou falando, sinto muito. Sinto muito mesmo. Paulinho - Paulo Cesar Coelho Ferreira é uma lenda. E como lenda, não morre, encanta.

Esse filho-da-puta-muito-grande me deixou aqui com essa página em branco. 

Aliás, é o que ele mais fazia. Nelsinho, na outra ponta da mesa, pode comprovar. Não tinha uma reunião ou encontro sequer que ele não me deixasse com uma página em branco. Ele queria que eu me escrevesse, a todo custo. 

Pra você que chegou agora, vou tentar resumir: esse cara é um gênio que tinha um rim que não funcionava. Daí teve câncer no rim. No bom. Então, o rim que não funcionava passou lentamente a funcionar só pra salvar o cara, porque ele tinha muito o que fazer aqui. Muito a ensinar, muito a apreender. Pastor contemporâneo, arrebanhava ideias, pessoas, projetos, sonhos. Profeta hodierno, era ele mesmo o hoje: o lótus zen budista do lodo existencial. A prova de que o espírito vence a carne. Em vida.

A cada frase que escrevo, fica mais difícil viver em palavras a ins-piração do que era o ser muito humano Paulinho.

Sorriso.

Paulinho agredia a gente. Ele tinha vindo para abalar. Buraco negro cósmico. Quebra do espaço-tempo. Furo nas leis da física. Só a física quântica poderia explicar o Paulinho. Ele produzia distúrbio, onde quer que chegasse. Inexplicavelmente, de um modo amoroso, carinhoso, afetivo. Nossos afetos iam além dos beijos nos ombros que trocávamos a cada encontro e despedida. Em três, minto, dois, ou melhor, um minuto de conversa, Paulinho se tornava seu melhor amigo de infância. Ele era uma criança.

Velho sábio, tinha respostas prontas para não lhe dar: exigia de seus discípulos ao máximo enquanto nos fazia rir e brindar a existência simples. Há uma infinidade de páginas que tenho que preencher agora sem a não-ajuda dele. E não sei o que faço. 

Penso nele e choro, sem saber como o mundo vai aguentar. Penso nele e dou risada, porque o vejo olhando pra nós e pensando... agora, sim, eles estão fodidos.

Bom, eu estou. Vou tentar lançar meu livro que só faltavam oito páginas para ele revisar. Oito. Nem sete, nem nove: oito. Vou tentar não decepcioná-lo mais do que de costume. Paulinho era uma espécie de cajado em meu Caminho.

Todos temos uma obrigação moral, a partir de sua partida. Sermos urgentemente felizes.



Na foto, dois mestres. 

Um, Senhor de si e do Tempo. Amigo do Sempre. Que já cumpriu sua missão e pode rir, feliz, em paz. Mesmo tendo dado um trabalhão pros anjos que vieram buscá-lo. O outro, discípulo do Um, que tem muito trabalho pela frente. Um deles, olhar por mim, na ausência (física) do primeiro.

Não, esse post não tem música. Precisamos ouvir o silêncio do peito:

Haikai do Paulinho -  
É oco o eco da saudade.











quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Casam, hoje, Biba e Dedé.

*

Para ler esse texto, aperte o play da música abaixo:


Quando Amor, a gente empresta a música que é só nossa.
Porque falar de amor para a irmã da gente tem um sabor todo especial.

A vida me deu a Biba. Ato falho contínuo, me refiro a Beatriz, minha filha, como Gabriela, volta e meia.

É assim: eu tentando aprender a ser irmão de verdade, o que sempre quis ser e não consegui.

Amo minha irmã acima das nuvens. Quando pequeno, eu fazia ludoterapia para tentar entender meu desentendimento do mundo. Nunca consegui abrir a braguilha da barriga da boneca grávida que tinha no consultório. Eu tinha medo do que viria pela frente. Eu tinha razão.

Mesmo não tendo aberto, minha irmã saiu, não da braguilha da boneca, mas da barriga da minha mãe.

Lembro-me como se fosse hoje: eu, no meio da sala da casa da minha avó, os tios e a primaiada em volta, e um trenzinho do mickey rodando meio sem graça na minha frente, que me deram de prêmio de consolação pela chegada da minha irmã e o consequente destituir do trono, que veio inexoravelmente.

Não foi minha irmã, mas por causa desse episódio, meu primeiro trauma: a traição daquele que mente ficou clara, translúcida para mim. Não foi ela que havia trazido o presente. Eu não era tão estúpido quanto pensavam. Até hoje isso tem consequências na minha vida e na relação que tento construir com as pessoas.

Minha irmã sempre foi pra mim a colombina de sapatilha de ballet e coração desenhado na bochecha. Ela é a própria caixa de música. Sua presença no mundo derruba vasos e cospe suco quando faço piada, gargalha sem medida no cinema a ponto das pessoas quererem descobrir quem ri assim depois que a luz acende. Ela acende uma luz em mim.

Eu queria ser igual a ela.

Minha irmã tem uma garra infinita, uma força inexplicável, indômita criatura que não cabe dentro dela. Ela é genial. Fica deprê com as agruras do mundo e é impaciente com a pseudo burrice alheia. Um defeito de fabricação que só passa batido porque seu coração é maior do que ela pode suportar. Minha irmã não sabe, mas é ela o termômetro da nossa família. Ela é quem tem a chave do coração do nosso pai. Ela que era a preferida da nossa avó. Ela que é a sobrinha mais querida da Tia Yara, a única matriarca que conheço que não teve filhos... Minha irmã brinca de gangorra alegremente com nossa mãe no parquinho da vida, enquanto eu observo ao sol, meu sorvete derretendo e melando a minha mão.

A Minha irmã.

A esposa do Dedé. Não conheço esse cabra direito, mas ele é um sujeito de sorte. E, pra minha sorte, ele a faz rir até dar vontade nela de fazer xixi na calça. Esse cara realmente é o Mestre dos Magos. E tem meu respeito, meu carinho e todo o meu apoio.

Mas esse texto é pra ela. Para quem nasceu assim, cresceu assim, e é mesmo assim: Gabriela.

Biba, pra mim. A que queria me fazer uma pergunta quando pequenos e entrava no meu quarto no meio da frase, sem bater na porta, invadindo meu espaço, bagunçando minha gaveta, me deixando puto e irritado. Aprendi a importância do limite com ela. De um modo às avessas, devo dizer. Mas com ela. Minha irmã me ensinou muito mais do que ela pensa.

A primeira estrofe dessa música tem tudo a ver conosco. Só que é ela quem canta pra mim. Eu calo quieto. Ela mete o pé na porta e faz acontecer. A vida inteira foi assim.

Por isso, empresto essa minha música pra ela no dia de hoje, quando meu desejo de felicidade extrapola o peito, transborda frases e palavreia versos sem rima. Empresto.

A ela, todo o meu Esquecimento.

Quero essa música pra ela e pro Dedé. Que eles possam ir, juntos, de charrete, de caminhão ou a pé, como eu, buscar a felicidade que não está na próxima esquina nem ao final do Caminho. Está no dia-a-dia, a cada passo, bem dentro de cada um de nós.

Agradeço por me fazer tão feliz, Bibinha.

(*Na foto, lá em cima, minha irmã, morando já no abraço do sortudo do Dedé.)








terça-feira, 15 de agosto de 2017

Oponente


Sou um difícil oponente. Cruel, sem medida. Luto comigo mesmo e perco ganho, intempéries. Aos nove anos comecei a fazer Karate, sem saber que de mãos vazias é possível dominar o mundo. O cumprimento, a saudação, o grito de guerra, o pedido de desculpas, o agradecimento, tudo se resume ao "OSS". Há quem diga que a fonética comandaria a grafia em português, que deveria ser escrito assim: "OSU". Eu, "Berunarudo", me encontro sempre na linha do dojo, no limite do tatame, sentado em seiza, em estado de contemplação. A guerra comigo mesmo já é sinal de derrota. Do outro lado, eu, também sentado, fito-me, em silêncio interno. Meu coração já não bate sincopado com meu outro eu.
Fico-me.
Quando caminhei comigo, pedi perdão tantas vezes, chorei, arguí, respondi, calei. Parti pra briga, me machucamos. As cicatrizes talvez tenham sido mais profundas do que eu pensávamos. Meu eu dicotômico não é dicotômico.
Eule não sou mau.
Eleu não sou bom.
Sou, só, e ponto. Na linha contínua da vida, o ponto é deveras insignificante. Tento, a todo custo, me fazer significado apenas para ela, para minha filha, para que sinta por mim o orgulho que nunca senti. Talvez ao final da batalha silenciosa que grita ao bushi-do, quem sabe, finalmente eu sinta uma pontada do orgulho que só está nos sonhos que sonhei um dia.
Ganesha, quem eu encontrei em sonho quando ia ser atropelado por uma manada de elefantes, me recolheu pelo dorso e me colocou em suas costas. Com sua tromba, me entregou uma espada preta que luzia. Adornado, fitei seus olhos, e me vi subindo em direção a eles, que subiam junto, rumo a uma constelação que não sei o nome. Lá, no alto, em meio às estrelas, fui um só, apenas.
Foi a primeira vez que senti o que é estar em meu abraço.