quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Casam, hoje, Biba e Dedé.

*

Para ler esse texto, aperte o play da música abaixo:


Quando Amor, a gente empresta a música que é só nossa.
Porque falar de amor para a irmã da gente tem um sabor todo especial.

A vida me deu a Biba. Ato falho contínuo, me refiro a Beatriz, minha filha, como Gabriela, volta e meia.

É assim: eu tentando aprender a ser irmão de verdade, o que sempre quis ser e não consegui.

Amo minha irmã acima das nuvens. Quando pequeno, eu fazia ludoterapia para tentar entender meu desentendimento do mundo. Nunca consegui abrir a braguilha da barriga da boneca grávida que tinha no consultório. Eu tinha medo do que viria pela frente. Eu tinha razão.

Mesmo não tendo aberto, minha irmã saiu, não da braguilha da boneca, mas da barriga da minha mãe.

Lembro-me como se fosse hoje: eu, no meio da sala da casa da minha avó, os tios e a primaiada em volta, e um trenzinho do mickey rodando meio sem graça na minha frente, que me deram de prêmio de consolação pela chegada da minha irmã e o consequente destituir do trono, que veio inexoravelmente.

Não foi minha irmã, mas por causa desse episódio, meu primeiro trauma: a traição daquele que mente ficou clara, translúcida para mim. Não foi ela que havia trazido o presente. Eu não era tão estúpido quanto pensavam. Até hoje isso tem consequências na minha vida e na relação que tento construir com as pessoas.

Minha irmã sempre foi pra mim a colombina de sapatilha de ballet e coração desenhado na bochecha. Ela é a própria caixa de música. Sua presença no mundo derruba vasos e cospe suco quando faço piada, gargalha sem medida no cinema a ponto das pessoas quererem descobrir quem ri assim depois que a luz acende. Ela acende uma luz em mim.

Eu queria ser igual a ela.

Minha irmã tem uma garra infinita, uma força inexplicável, indômita criatura que não cabe dentro dela. Ela é genial. Fica deprê com as agruras do mundo e é impaciente com a pseudo burrice alheia. Um defeito de fabricação que só passa batido porque seu coração é maior do que ela pode suportar. Minha irmã não sabe, mas é ela o termômetro da nossa família. Ela é quem tem a chave do coração do nosso pai. Ela que era a preferida da nossa avó. Ela que é a sobrinha mais querida da Tia Yara, a única matriarca que conheço que não teve filhos... Minha irmã brinca de gangorra alegremente com nossa mãe no parquinho da vida, enquanto eu observo ao sol, meu sorvete derretendo e melando a minha mão.

A Minha irmã.

A esposa do Dedé. Não conheço esse cabra direito, mas ele é um sujeito de sorte. E, pra minha sorte, ele a faz rir até dar vontade nela de fazer xixi na calça. Esse cara realmente é o Mestre dos Magos. E tem meu respeito, meu carinho e todo o meu apoio.

Mas esse texto é pra ela. Para quem nasceu assim, cresceu assim, e é mesmo assim: Gabriela.

Biba, pra mim. A que queria me fazer uma pergunta quando pequenos e entrava no meu quarto no meio da frase, sem bater na porta, invadindo meu espaço, bagunçando minha gaveta, me deixando puto e irritado. Aprendi a importância do limite com ela. De um modo às avessas, devo dizer. Mas com ela. Minha irmã me ensinou muito mais do que ela pensa.

A primeira estrofe dessa música tem tudo a ver conosco. Só que é ela quem canta pra mim. Eu calo quieto. Ela mete o pé na porta e faz acontecer. A vida inteira foi assim.

Por isso, empresto essa minha música pra ela no dia de hoje, quando meu desejo de felicidade extrapola o peito, transborda frases e palavreia versos sem rima. Empresto.

A ela, todo o meu Esquecimento.

Quero essa música pra ela e pro Dedé. Que eles possam ir, juntos, de charrete, de caminhão ou a pé, como eu, buscar a felicidade que não está na próxima esquina nem ao final do Caminho. Está no dia-a-dia, a cada passo, bem dentro de cada um de nós.

Agradeço por me fazer tão feliz, Bibinha.

(*Na foto, lá em cima, minha irmã, morando já no abraço do sortudo do Dedé.)








terça-feira, 15 de agosto de 2017

Oponente


Sou um difícil oponente. Cruel, sem medida. Luto comigo mesmo e perco ganho, intempéries. Aos nove anos comecei a fazer Karate, sem saber que de mãos vazias é possível dominar o mundo. O cumprimento, a saudação, o grito de guerra, o pedido de desculpas, o agradecimento, tudo se resume ao "OSS". Há quem diga que a fonética comandaria a grafia em português, que deveria ser escrito assim: "OSU". Eu, "Berunarudo", me encontro sempre na linha do dojo, no limite do tatame, sentado em seiza, em estado de contemplação. A guerra comigo mesmo já é sinal de derrota. Do outro lado, eu, também sentado, fito-me, em silêncio interno. Meu coração já não bate sincopado com meu outro eu.
Fico-me.
Quando caminhei comigo, pedi perdão tantas vezes, chorei, arguí, respondi, calei. Parti pra briga, me machucamos. As cicatrizes talvez tenham sido mais profundas do que eu pensávamos. Meu eu dicotômico não é dicotômico.
Eule não sou mau.
Eleu não sou bom.
Sou, só, e ponto. Na linha contínua da vida, o ponto é deveras insignificante. Tento, a todo custo, me fazer significado apenas para ela, para minha filha, para que sinta por mim o orgulho que nunca senti. Talvez ao final da batalha silenciosa que grita ao bushi-do, quem sabe, finalmente eu sinta uma pontada do orgulho que só está nos sonhos que sonhei um dia.
Ganesha, quem eu encontrei em sonho quando ia ser atropelado por uma manada de elefantes, me recolheu pelo dorso e me colocou em suas costas. Com sua tromba, me entregou uma espada preta que luzia. Adornado, fitei seus olhos, e me vi subindo em direção a eles, que subiam junto, rumo a uma constelação que não sei o nome. Lá, no alto, em meio às estrelas, fui um só, apenas.
Foi a primeira vez que senti o que é estar em meu abraço.



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

De passageiros a condutores de suas próprias vidas


O Trem das 7 segue cadência, por entre as tantas montanhas de Minas. Projeto rico, idealizado e posto pra rodar com a lenha dos maquinistas Tio Flávio, Érica Machado e Tânia Campos, encontrou sua estação no Albergue Municipal Tia Branca, da região centro-sul da capital mineira. Lá, pessoas em situação de rua tentam se refugiar das tantas perdas da vida, para se refazerem e continuarem a caminhar.

São muitos os motivos que levam as pessoa a encontrarem essa situação em suas vidas. Um deles, o orgulho. É muito difícil aceitar que a engrenagem do mundo não tem como eixo o antropocentrismo umbilical. Outro, o medo. Será que vou ser julgado? Será que vou ser ouvido? Será que vou ser ferido? A droga do crack, a droga da bebida, a droga do fumo são só o segundo passo de quem já deu o primeiro na beirada do precipício. Muitas vezes, não há tempo de olhar para trás em busca de uma mão que nos segure, que não nos deixe cair.

A batuta da Alcione conduz com maestria, pulso firme e carinho, o ritmo da música orquestrada que soa nos vagões do Trem das 7. Pequena, altiva, sabe bem seu tamanho no mundo. Oferece sua mão para quem volta os olhos do precipício e sabe bem como ter pulso forte para segurar quem cai.

Nem toda palmada deveria ser banida. O mundo nos dá palmadas para as quais deveríamos estar preparados. A crise social, a falta de esperança, a ênfase desenfreada no consumo como única forma possível de redenção (ou reconhecimento de sucesso) são ingredientes amargos na panela do nosso almoço diário. 

De passageiros a condutores de suas próprias vidas. São três vagões: o do coaching pessoal - que os faz refletir, o do empreendedorismo - que os faz voltar acreditar na linha da vida, e o do simbólico - do grupo Corredores DA Rua, que os faz compreender a importância do rito na vida de qualquer ser humano. É preciso simbolizar o Caminho, o ir em busca, o voltar a se mover, o acreditar que posso conseguir, o superar-se a cada dia. É nesse vagão que sou apenas um bilheteiro. Com o apoio de voluntários amorosos abraçamos quem chega, marcamos o bilhete de quem vai, e abanamos as mãos, carinhosamente. Às vezes, são mais voluntários do que albergados, de tanta vontade de ajudar. Às vezes, porque os que caiam conseguiram terra firme, e voltam a caminhar com seus próprios passos, novo rumo.

Na foto, abaixo, o voluntário Marco Túlio passa debaixo do viaduto com o Wander, passos firmes, compassados, rumo a um dia de céu azul. São muitas tempestades. E o abrigo que nunca pode faltar é o coração do próximo: a verdadeira estação que buscamos.






quinta-feira, 13 de julho de 2017

O rosto da saudade



Depois de trinta anos, olho finalmente para esta foto.

Fragmento do sempre, átimo da existência, encontro da sutileza e da porrada da vida: outro dia eu tinha 10 anos. Mal inspirei, se passaram três décadas. Mal expirei, perdi o contato com a infância e a ingenuidade que tanto quis engaiolar...

Olhando, vejo a primeira paixão, vejo a primeira ilusão. Vejo quem me virou o rosto sorrindo pra mim. Me apaixono por quem nem sequer sabe o meu nome. Há corações partidos e abertos, há pedidos de desculpas, há gargalhadas que esperaram pra sair e lágrimas que tardaram a secar. Há encontros e desencontros. Há muito mais encontros que desencontros.

Vejo as mãos, abertas, vejo as mãos dadas de que nos falou Drummond. Vejo o brilho nos olhos dos que venceram, a esperança nos olhos dos que acreditam, rostos que tombam sinal de carinho, a alegria boquiaberta. Fito os mais inteligentes, os ditos incompreendidos, os mitos da minha geração.

Sinto que nada foi em vão.

Correspondi menos sonhos que quis, não fui dormir com ninguém da foto, não amanheci com ninguém daí de cima, sequer telefonei para grande parte dos que marcaram minha vida para sempre e estão aí de novo, olhando pra mim. A vida é feita de grandes silêncios inexplicáveis. De grandes sonhos intermináveis. De despedidas sem nenhum motivo.

Queria abraçá-los agora, dizer o que cada um representou pra mim. Queria voltar no tempo pra dizer no exato momento da história em que cada um me marcou, o motivo, a causa, o quanto. Pecinhas de lego coloridas no tabuleiro verde da vida.

Olho novamente a foto. E reparo que estamos todos dando tchau para o passado, abanando as mãos para nós mesmos, para as crianças que fomos. Estamos dando adeus para os desejos que tivemos, nos despedindo dos sonhos, tantos, tantos. De algum modo paradoxal, abanamos as mãos cumprimentando o futuro que chega, o eu que enfim reconhecemos: o que perdoou, sonhou, amou, conquistou, perdeu, ganhou e que pode agora voltar aos colegas de infância de um modo diferente. Somos diferentemente iguais.

Somos maravilhosamente únicos.

E, por isso mesmo, cada um é absolutamente indispensável no bonito Caminho que escolhi percorrer daqui pra frente.





sexta-feira, 30 de junho de 2017

Que tal um curso gostoso no sábado, dia 8?

Belo Horizonte recebe oficina para que as pessoas aprendam a fazer os próprios produtos de limpeza com ingredientes naturais.

Detalhe: crianças podem participar e até aprender a fazer os produtos.





"Os produtos mais perigosos são os que matam fungos e bactérias", alerta o médico Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Foi preocupada com isso que a minha amiga Ana Pessoa, jornalista (Ex-Veja, TV Globo), Yogini, recém-chegada da Índia, decidiu buscar parceiros especiais em BH e montar um curso para limpar a barra de quem quer ser mais natureba, saudável, feliz e não sabia como.






A coluna Atitude Positiva da Band foi uma das parceiras. É de uma outra amiga minha, também linda e competente, a Fernandinha Mann. Ah, ouça o áudio CLICANDO AQUI. Outra parceria bacana foi a da Tônus Fisioterapia e Reabilitação, um espaço de saúde de outra lindeza, a Lara Guimarães, que tem compromisso com o bem estar holístico de seus clientes e colaboradores.

Talvez você não saiba ou nem tenha parado pra pensar nisso, mas muitos desses desinfetantes são produzidos com produtos químicos que são muito mais perigosos do que os germes que você está tentando matar... É isso que a Ana Pessoa vai mostrar no dia do curso, além de receitas sensacionais e cheirosas pra você mesmo cuidar com carinho da sua casa e de quem você mais ama.

Olha, o curso tem duração de cerca de 3 horas. Nele, os alunos aprenderão a fazer detergente em pasta, desinfetante, e limpador multi-uso. Vão conversar sobre o tema e receber importantes informações. Além disso, quem fizer o curso recebe os produtos feitos em aula e uma apostila com as fórmulas.


Ah, e o quê que eu ganho com isso? Te ver mais feliz e saudável. Tá bom ou quer mais? Adoro ajudar quem merece.



Para mais informações, ligue pra Tônus - 31- 3292 7501, me passe um email no besantanna@gmail.com, ou entre no facebook da Fernanda Mann, ou no Instagram da Natural por Dentro.






Serviço:
Local: Tônus Fisioterapia Preventiva e Reabilitação
Data: Dia 08 de Julho, sábado
Horário: de 8:30 às 12:00h
contato@tonusfisioterapia.com.br
besantanna@gmail.com
Endereço: Rua Cristina 1160, São Pedro 31- 3292 7501
VALOR: 150,00 reais (professores têm desconto)


Número de participantes: 15

Quem sabe uma turma na parte da tarde? ...Corre! São poucas vagas!!!!



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ligações





Meu celular tocou depois de muito tempo em silêncio.

Faaaaaala, amoreco!, atendi num sorriso, brincando carinhosamente com a minha amiga, a Psicóloga, Coach e Apresentadora Érica Machado.

– Bê, preciso da sua ajuda.

– A resposta é sim. Não sei o que é, mas vindo de você... (disse a ela, na sequência.)

– Se lembra de uma amiga sua, a blogueira do Ócio do Ofício, a Laura Barreto? Você acha que ela topa se juntar com você para vocês serem madrinha e padrinho de um grupo de corredores de pessoas que estão em situação de rua?


– A Laura? Ela é doida igual a gente, bora ligar pra ela! Claro que vai topar. Mas, espera, me fala mais sobre isso... você diz... tipo "mendigo"? É isso mesmo que eu estou entendendo?!?

Foi assim. Há alguns dias, fui surpreendido com outra passagem em minha vida da tsunami conhecida como Érica Machado. Ela, por sua vez, foi pega pelo furacão que as pessoas chamam de Tio Flávio Cultural. Quando esse tipo de avalanche passa em nossa vida, tudo vira de cabeça pro alto. No meu caso, os dois volta e meia me chacoalham e me viram do avesso.

Tio Flávio, pra quem não sabe, tem cerca de 20 projetos diversos e todos beneficentes, por todo lado. O cara é uma Madre Tereza de Beagá que usa como terço as redes sociais, e como armas os amigos e sua capacidade imensa de amar o próximo.

100% de seus projetos sem fins lucrativos, nada de ONG ou doações em dinheiro, tudo em troca de abraço, sorriso, carinho, lágrima, beijo e sacolas e sacolas de esperança em um mundo melhor.


Evito falar, pra não parecer auto-promoção de um pateta, mas foi ele quem me chamou pra passar um natal contando da minha peregrinação para os detentos de APAC de Santa Luzia, ou dar o meu testemunho para os detentos da APAC de Nova Lima. No do natal, fui até com a Érica, essa moça linda que nos chamou para participar do projeto TREM DAS 7.


Sabe, tem cerca de 400 homens que dormem em um abrigo da prefeitura de BH e que, quando o dia amanhece, devem pensar: o que vou fazer hoje da minha vida?

Eu tenho vivido assim. Sou como eles. Um dia de cada vez. Mas eu, apesar da crise, tenho tido ajuda para pagar as contas que não param de chegar, mesmo sem trabalho suficiente. Às vezes, me pego com vontade de beber para esquecer as dores. Esses peregrinos das ruas, que tem dormido no abrigo da prefeitura (ou debaixo do viaduto da Francisco Sales), às vezes, se pegam não só com vontade de beber, como no caso do nosso novo amigo Rafael, quem ama ler e já foi até livreiro, mas de fazer ainda pior com seu templo individual...

Na foto, Érica, Rafael, Raimundo e Fernando, em uma palestra na Defensoria Pública sobre o Projeto Trem das Sete.


O "Projeto Trem das Sete - de passageiros a condutores da própria vida", tem um nome que já explica tudo. Quando Érica nos chamou, queria que Laura contasse sobre a história de como ela superou sua primeira maratona e como decidiu fazer as 10 maratonas mais difíceis do mundo. Queria que eu contasse como superei o que até hoje me parece impossível: percorrer os 2.500km que separam o Vaticano de Santiago de Compostela passando pelo Caminho de São Francisco de Assis e de Santiago de Compostela. Ela queria dar mais do que esperança para quem, de uma forma ou de outra, perdeu tudo o que tinha: em alguns casos a dignidade, a esperança, o sonho.

Quem herda não furta. Meu avô, em Teófilo Otoni, era constantemente chamado para "acalmar os doidos de rua". Quando alguém em situação de rua estava agressivo ou bêbado, meu avô paterno fazia as vezes desse abraço social, no lugar de um padre ou de um policial, como um conselheiro mais velho... Meu avô materno, delegado da lagoinha na época em que existia só "ladrão de galinha", constantemente passava um sabão e chamava à responsabilidade àquele que tinha se exaltado e perdido a compostura, o bom senso, tinha sido agressivo ou estava "na sarjeta". Quando "conduta" era uma palavra que ainda fazia sentido, independentemente do seu status social...

Recentemente, minha namorada me fez essa mesma pergunta: Qual é o seu sonho?

Eu não soube respondê-la... De alguma forma, tenho tentado aprender com os encontros que a vida me oferece, as ligações que às vezes vem sem que estejamos esperando e que nos conectam ou reconectam com essências buscadas ou perdidas.

No Albergue Municipal Tia Branca, Érica Machado e a também Psicóloga Tânia Campos, deram as mãos ao Tio Flávio e resolveram mudar a realidade dos que ali estavam, alguns já prontos para iniciar a volta por cima.

Foi dessa maneira que surgiu o CORREDORES DE RUA - o grupo dos que decidiram voltar a sonhar e simbolizar isso através de atitude desportiva. Sob a tutela sempre atenta e o carinho da assistente social voluntária Alcione Mesquita, temos nos encontrado com os "meninos", como diz a Érica, às 6:30h da manhã, na hora da abertura do Albergue, às segundas e quartas. E outras ligações começam a ser feitas...:

A Lara Guimarães da Tônus Fisioterapia resolveu dar a avaliação fisioterápica necessária a todo o grupo, bem como a consultoria aos alongamentos e aquecimentos;

O Dr. Carlos Eduardo, cardiologista amigo da Laura, resolveu avaliar a condição física dessa galera, fazendo eletrocardiograma, inclusive, começando dos mais velhos para que todos possam participar com segurança;

O Volnei Prado de uma das melhores equipes de treinamento de corrida do Brasil, a HF Treinamento Esportivo já nos estendeu sua mão e vai ficar responsável pelas planilhas de treinamento da turma.

A linda da Adriana do Mocca Coffee and Meals, do seis pistas, deu não só café da manhã pra essa turma, mas vai disponibilizar o lanche pra eles nos treinos especiais.

Além disso, já fizemos um primeiro treino beneficente (com o café gostoso do Mocca), quando os atletas da HF e amigos de todos nós se juntaram para dar os 16 pares de tênis, acompanhados de toda a vestimenta necessária aos corredores.

Pelo visto, essas ligações não vão ter fim.

Se você leu até essa linha, talvez possa se juntar a nós, e descobrir como você vai se tornar mais um passo rumo à linha de chegada dessa turma, que pode também ser a sua. Se ainda não estiver preparado, torça por nós. E se passar por um monte de maluco correndo pela rua enquanto sorri parecendo estar sonhando acordado, não se assuste. Apenas buzine, abane sua mão, jogue um beijo, ou nos deseje sorte.

Todos precisamos.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Caminhando com a Ana



No primeiro passo, descendo do avião ainda na conexão em Madri, começou a nossa divertida viagem com a pergunta da funcionária da Iberia, parceira da Latam, para a senhora que levava seus pais já idosos para a Europa:
Se quedan en Madrid?
E ela:
– Mãe, ela tá perguntando se você vai querer a cadeira de rodas.

Foi nossa primeira gargalhada. Da Ana e minha. Fomos juntos para Lisboa, para de lá pegarmos um ônibus até Fátima, prestarmos nossas graças no ano jubilar, e iniciarmos nossa jornada até Santiago de Compostela, a pé, perfazendo 500 quilômetros (505km em um dos GPSs, 527 no outro).

Foi uma viagem maravilhosa e foi uma viagem maravilhosa... Por mais que as previsões dissessem do frio rigoroso que castigaria Portugal no mês de março de 2017, e que andaríamos debaixo de chuva durante os 20 dias de jornada, não foi exatamente isso que aconteceu. Era pegar o Caminho e a chuva dava trégua, quando não abria um sol das regiões temperadas, iluminando o rosto da Ana, secando minhas poças e nos trazendo o calor necessário à crença. Claro, tivemos dias até de chuva de granizo diretamente no rosto, momentos de 4º de frio e ventos desafiantes, mas nada que fizesse o medo suplantar o desejo, a esperança, a vontade, o encanto. Nas florestas úmidas da Galícia demos as mãos, ao escalar as pedras de um e de outro, superar o lodo que cobria as frestas das minhas cicatrizes, até chegarmos na clareira do pacto mútuo, onde o céu se abre para a compreensão da natureza nossa.


Ana Guimarães puxou o famoso avô materno, Soares da Cunha: ela é trova desafiante, verso acabado que rima, rica. Ela puxou o avô paterno: sabe como ninguém reunir os pares brindando em seu nome, mesmo quando já não está. Tem a doçura da avó que não conheci e a sensibilidade da avó artista plástica que canta e encanta. Ela definitivamente não cabe em si. Tanto que grita para sair, porque foi feita mignon, por natureza. Guerreira, forte sem medida, Ana desafia a desistência. Palíndromo de si mesma, é coerente na simplicidade complexa de existir e insistir. Virou madrinha do futuro casal de jovens alemães que trouxemos em nossos corações pra casa, o Martin e a Giorgina.

Cansamos. Subimos muitas montanhas juntos, descemos muitas montanhas juntos. Ela me empurrou montanha acima e me ajudou montanha abaixo. Venho tentando tomar conta da pequenice dela, hábito ligado ao macho que habita em mim, e dar conta das suas sutilezas, rito ligado à fêmea que cultivo cevando em mim.

Paiciências.

Entre muitas risadas, cuidamo-nus: não há disfarce que permaneça luzindo intacto depois de tantos quilômetros de mãos dadas. Entrelaces. Nossos silêncios discursaram perguntas. Nossas buscas amanheceram, ninamos nossos desejos, brindamos o afeto de caminharmos por tantas pessoas que precisam. Na bênção do padre André, na saída de Fátima, ele pontuou que caminharíamos por nós, por quem conhecemos e por quem sequer conhecemos. Virou nosso mantra, nossa frase diária. A força de uma peregrinação na quaresma transcende a compreensão de quem não tem fé, e acha que é só uma viagem de férias mais barata que as outras.


Oremos.

Oramos. Rezamos pra Fátima, para Santiago, para nossa família. Caminhei com minha filha no colo, caminhei com os amigos no pensamento, caminhei com os desafetos no coração. “Tudo muda, nada perdura”, já dizia Heráclito. As dores me acompanharam e o sofrimento me fez emotivo. O prazer andou comigo e a paixão me fez recolhido. Mas soube rir, chorar, inspirar, expirar. Os passos mastigavam os pensamentos que insistiam em caminhar conosco. Até que paz. Até que bem.

É uma pena ter que voltar. E me descobrir cada vez mais peregrino de mim mesmo, estrada infinda em busca do que passa, do que vai passar, do que paradoxalmente me importa e se vai, fluxo perene desse efêmero existir. 


Sou grato a Ana, seu caminho, nosso encontro, nossos passos. E que Deus tenha ouvido minhas tantas preces.

Quanto a você, mesmo se não puder me ouvir, ouça pelo menos essa música, vai lhe fazer bem.