quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Para não ser lido.



Às vezes, penso que não escrevo mais porque finalmente tenho algo a dizer.

Tenho colecionado silêncios.

Estou, somando, no quinto ano de piano. Minha filha, no quinto ano de escola (ela começou no berçário aos oito meses. E tem cinco anos e oito meses. Noto que nosso processo de alfabetização começa agora. Ano que vem, acredito, é quando ela vai começar a ser alfabetizada. Por curiosidade e disposição pessoais, ela tem começado a juntar letras, se apoiando em vogais e em algumas consoantes, como a letra B, de Beatriz, M de Marcelo, V de Vicente e R de Raquel. Muletas semânticas.

Eu tenho me apoiado no dó do meio do piano, pelo desenho característico na partitura, no mi, pela posição fácil de ver, no dó da oitava de cima, pelo posicionamento fácil de identificar na clave de sol, pelo fá da clave de fá, pelo sol da clave de sol. Muletas românticas.

Ainda não leio palavrinhas sem pensar nas letrinhas. As palavras da música ainda não saltam na minha frente, como um dia saltaram para a minha surpresa, um ano e meio depois de quando eu comecei a estudar o hebraico.

Estamos no mesmo ponto, portanto. Nós dois, eu com 43 e ela com quase 6, com medo e com vergonha de errar. Sem acreditar que podemos, sem acreditar que sabemos. Sem nos sabermos. Porque ela já sabe ler. Só ainda não confia nela.

Penso em quantas vezes fui obrigado a confiar em mim. Penso em quantas vezes eu confiei em mim naturalmente, sem ser forçado a, ou obrigado a. Queria contar isso pra minha filha, de um modo que ela entendesse.

Da importância do tempo, como fiel da balança, da importância da distância, necessária neste processo de sedimentação do conhe-cimento. Os tijolos são assentados com o conhe-cimento no ponto certo.

O tempo e a distância são amigos da sabedoria. Mas os três só caminham juntos.

Tenho um projeto simples: em 10 anos aprender as 15 músicas do concerto ao piano que farei nos 15 anos da minha filha. Já sei qual é a maioria do repertório. Não o fechei ainda porque acredito que nos próximos 10 anos a minha vida e a dela podem ainda ser marcadas por outras músicas, que talvez ainda nem conheçamos. Por isso, quero esperar.

Passei os primeiros 8 meses desse ano aprendendo um arranjo específico da primeira música do repertório, que tem tudo a ver com esse caminho que eu e minha filha estamos percorrendo. Vou postar a música em um arranjo lindo, depois do texto, para quem quiser curtir. O arranjo não é o mesmo, mas o que vou postar é simplesmente maravilhoso, desse maravilhoso e talentoso amigo. Convido você que ainda está lendo a colocar o celular no silencioso e abrir o coração para ouvir.

No silêncio de cada palavra que não mais escrevo aqui, tem um discurso que grita sem medo nem vergonha. Meus dedos pintassilgo esperam o tempo e a distância para escreverem harmonicamente algo a ser notado por minha filha.

Enquanto escrevo o meu trabalho para o mestrado em tradução, tento traduzir sonho em vida, expectativa em pão, sofrimento em sorriso, ansiedade em paz, dúvidas em confiança, esperança em dia-a-dia.

E a primeira fieira da torre de babel que ergo com a ajuda de minha filha me diz que esse projeto precisa de um baldrame de pedras e um alpendre de madeira.

O que penso nem sempre faz sentido.



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Onde está o Uber da segurança pública?



Ontem, caminhando na rua de cima da minha casa, me deparei com uma mulher assustada que vinha em minha direção:

Moço, moço, não vai pra lá não, que um rapaz acabou de ameaçar uma mulher ali daquele prédio com uma faca enorme!

Na mesma hora liguei pra polícia militar. O que se seguiu foi uma conversa pautada num protocolo que se explica, mas não se justifica. Apenas um exemplo: 

O senhor pode me dizer aonde foi?

– Claro, eu estou na rua Rafael Magalhães em frente ao número 71, no bairro Santo Antônio.

– O senhor pode me dar uma referência?

Pensei comigo: A senhora já ouviu falar em google maps? E disse que não podia, porque não tinha nem um comércio que fosse referência ali. Ok, imagino que uma quantidade enorme dessas chamadas sejam originadas em vilas, "favelas", regiões de periferia que sequer tem um nome de rua e um número confiável... Mas o protocolo que explica a atitude da atendente que gritou comigo - sim, gritou; podemos pedir a gravação para comprovar, tanto que eu pedi que não gritasse e ela começou a dizer que estava ouvindo mal e que por isso estava gritando (foi quando eu disse que a ouvia perfeitamente e que podia parar de gritar, por gentileza) - não justifica o completo retardamento do apoio à comunidade.

Nesse ponto, eu perguntei a ela se podia me dizer se tinha alguma viatura próxima, porque já havia quatro pessoas esperando pra seguir a rua, sem saber se seriam coagidas por um mequetrefe portando uma faca de churrasco. 

Meus 25 anos de karate me dizem que minha filha de 5 anos é mais importante do que o risco de testar minhas habilidades. 

Até o nome do assaltante eu sabia. Ele fez a mesma coisa com dois amigos meus, em dias diferentes, no mesmo bairro, e com um outro em um ônibus do mesmo bairro. Mesmas características, mesmo padrão, se bobear, mesma faca. A polícia já o prendeu diversas vezes e o solta novamente. Outro dia, soube que o traficante da região deu uma surra nele, porque ele estava atrapalhando o comércio na beira do "morro do papagaio". 

Pensei: será que ele vai ter que matar um pai de uma menininha como eu pra que  o traficante resolva a situação? Porque... com o preparo da polícia hoje em dia, seus equipamentos de última geração, os protocolos bem elaborados da década de 80 (imagino), as leis vigentes, a rapidez com que são processadas as demandas da segurança pública, sei não... Lembro que a Polícia Militar de Minas Gerais já foi muito conceituada. De dar cursos fora do país. E que tínhamos um estado considerado seguro. 

Segui, no meio da rua, sem o apoio da polícia, com o computador na mochila, lembrando que o último havia sido furtado, porque a reunião me aguardava, enquanto as outras três transeuntes (todas mulheres) ficaram paradas, discutindo que rumo tomar.

Não, ela não podia me dizer se a viatura estava próxima. E nem quando chegaria ao local.

Penso no seriado 24 horas, que foi sucesso absoluto há poucos anos. Não desista de ler por esse comentário, já me explico.

Jack Bouer, agente do FBI (acho, ou da CIA, não importa) tinha uma equipe que ficava na base de apoio dando dicas pra ele. Reveja um dos episódios da série se não se lembra bem. A grande ajuda, quase sempre, não passava de rastreamento por satélites e indicações de GPS. Banalidade que hoje temos no celular, que está em nossas mãos. 

E porque não estaria nas mãos da polícia? É claro que está. Mas das mãos da polícia para as da sociedade parece que tem um abismo colossal.

Porque não tenho um aplicativo onde vejo onde estão circulando os carros de polícia em meu bairro, em minha vila, em minha comunidade para que, no mínimo, eu me sinta um pouco mais seguro?

Onde está o Uber agora para disponibilizar a tecnologia para os governos municipais, negociando o bem comunitário em troca da permissão definitiva dos seus serviços? Ou, porque ninguém cria um aplicativo de segurança comunitária? Ou, porque não colocamos todos os "telemarketing" (porque parece que não passam disso) da PMMG nas ruas dando voltinhas nos quarteirões em duplas, enquanto um dispositivo direciona as chamadas diretamente para os aplicativos nos bolsos dos soldados, cabos, sargentos, carros, motos, enfim?

É realmente uma pena achar que é mais fácil esperar o Watson da IBM ser comprado pela polícia militar do que haver treinamento de pessoal que pense para responder, ao invés de seguir pura e simplesmente um protocolo, enquanto nos sentimos frágeis precisando de filmes de hollywood pra continuarmos com a fantasia de que seremos salvos. 

Eu só não quero que minha filha queira me abraçar e não possa. Eu só não quero que alguma filha queira abraçar seu pai ou sua mãe e não possa. Porque a única coisa no mundo que realmente tem importância é um abraço.



sábado, 27 de fevereiro de 2016

São Tomé


Sonhei que comprei uma casa nova no caminho, ao lado de um Córrego.

Quando chovia na cabeceira, o Córrego entrava e inundava todo o primeiro andar. Tudo o que guardei em minha lembrança ficava então debaixo d'água. E eu podia ser feliz novamente.

Tentei tirar caixas de violino da água, botá-las pra secar. Violões, um piano, a barra de uma túnica muito minha, sagrada e branca, que estava em um cabide. Mas a água cristalina vinha e banhava o chão da sala da minha casa deixando tudo cristalino e limpo e lindo e líquido.

Pedra. São Tomé.

E, de repente, você voltou. E pude finalmente lhe mostrar o primeiro andar submerso onde eu entulhava as coisas todas. Terceira margem.

Eu quis desviar o curso do córrego, você não deixou, e Ele, água, começou a banhar nossas vidas.

Foi a partir desse dia que começamos a viver sempre descalços, só no segundo andar, com a água fresquinha envolvendo os pés que já caminharam tanto.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Natal e a Verdade (para a mãe de minha filha)


Há pouco tempo, um amigo me disse: 
– Sabe? Quando ouvimos um lado só de uma história, sabemos muito pouco sobre ela...
E pouco depois me deparei com essa imagem:

Desde então, tenho meditado muito sobre isso. Meditei durante os meus três meses de peregrinação, inclusive.

Quando escrevi um texto sobre o natal desse ano de 2015, que aqui coloco o link, eu não poderia supor que... SIM: o Menino Jesus estava me preparando uma surpresa. O Natal desse ano transcendeu a espera, o sonho, o meu conceito de alegria.

A primeira foto desta página retrata um fragmento disso tudo, que ocorreu hoje, na hora do almoço, quando minha filha e sua mãe almoçavam na casa dos meus pais, em Belo Horizonte. Depois de uma espera de 4 anos, neste natal pude pegá-la sem ser cerceado, com a confiança devida, com o respeito que todo pai e toda mãe merecem. Minha filha vai ficar até o final de janeiro em Belo Horizonte e, finalmente, tenho a oportunidade de sair com ela como o pai que sou...

O quadro acima define bem uma situação como essa, acredito. Fico pensando que nosso mundo está mesmo muito triste, cada vez mais dicotômico, cada vez mais dividido entre certo e errado, bem e mal. O Bom e o Mau podem coexistir em pontos de vistas distintos sobre o mesmo assunto, segundo sua abordagem, seu foco, sua distância, seu ângulo, seu preceito, seu pré-conceito. E, acredito, é sinal de sabedoria subir na mesa como fez o professor da Sociedade dos Poetas Mortos, para exercitar o ponto de vista que nunca foi exercido. É disso que Jesus falava quando dizia sobre "a outra face"...

Não sei se foi isso que fez a mãe de minha filha... Não sei se meu texto de 11 de novembro sobre o natal de espera que eu teria a tocou de alguma forma. Não sei se o milagre de minha peregrinação de 2.500km continua dando sementes ou brotos... Não importa. 

Importa é ter visto, neste natal, minha filha fazendo carinho em minha tia de 90 anos, que é como uma avó para mim. Importa que minha mãe chorou de emoção ao ter a neta presente, finalmente, no almoço do dia 25 de dezembro, quando celebramos a chegada do Menino Jesus em nossas vidas. Importa que meu pai tenha nadado com a neta, a carregado no colo, tocado piano, acordeón, escaleta, marimba de vidro com e pra ela. Importa que minha irmã tenha comprado um presente pra ela com seu namorado no Rio e que eles vão receber a graça de entregar, pessoalmente, e presenciar o brilho inigualável de seus olhos. Importa que eu não sei o que estou sentindo, porque nunca me foi dada a oportunidade de sentir algo igual em toda a minha vida.

A naturalidade e a beleza da alegria plena só são mesmo compreendidos em toda a sua extensão pelas crianças. Há muito deixei de ser criança. Mas a que mora dentro de mim e a que mora fora se encontram e dançam e pulam e fazem festa, finalmente, em meu pequeníssimo viver.

A Verdade tem mesmo a ver com o Natal. O Natal tem mesmo a ver com a Verdade. 
Pude VER NA TAL VERDADE a palavra VER. Tem a ver com um jeito mágico, espiritual e muito amoroso de olhar. Só isso.

Sou grato à mãe de Beatriz. Que deu à minha filha, à ela própria, a mim, às nossas famílias, um natal inesquecível, que ficará inscrito no tempo do Sempre. Pra quando quisermos nos lembrar que o Amor é a única coisa capaz de vencer a morte.

Sou grato, Raquel.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Questões de Linguagem e Tradução






As minhas aulas no mestrado acabaram. Posso voltar para a casa da minha filha, onde moro, em Belo Horizonte. Daqui, da ilha interna de Florianópolis, paro e penso. E elejo a primeira coisa que devo agradecer em minha passagem por aqui: o encontro com Yeo N’Gana.

Costamarfinense, magro, estilo corredor, das cambetas finas e compridas, voz grossa, sorriso maior que o rosto, maçãs do rosto bem salientes, olhos profundos, negro azul-marinho, Yeo é um irmão que ganhei depois de 42 anos de vida.
Moral, ética e inteligência de fazer inveja, Yeo é uma vara de bambu. Resiliente. Forte. Firme e absolutamente natural. Seu silêncio grita:

– “Quando você fala baixinho, nos ouvidos, a pessoa escuta com a alma.”, me disse um dia.

Aprendi muito aqui nesses 4 meses intensos de quase prisão domiciliar. Mas aprendi mais mesmo tentando Traduzir o meu novo irmão Yeo. Pra começar, foneticamente, seu nome é um Koan Zen Budista. Quando o chamo, pergunto por mim: “E eu?” A letra “e” é fechada na pronúncia, da mesma maneira que se pronuncia o “e” presente na palavra “eu”. É como se eu quisesse saber onde estou quando chamo aquela pessoa tão distante e tão próxima de mim...

Minha idiota ignorância não sabe distinguir bem o que precisa traduzir “ser da Costa do Marfim”. Ele mesmo, ao tentar explicar porque não fala tanto de si e de sua terra, disse a mim e a uma colega: – É difícil explicar. Se na Costa do Marfim temos 98 línguas, temos 98 culturas distintas, mesmo que próximas. Na minha ignorância cultural, a primeira coisa que me vem é que ele é africano, o que, segundo a Cadeia de Significantes e Significados Saussurianos começa a puxar um fio em minha mente na seguinte ordem: África, selva, bichos e riquezas minerais, exploração, escravidão, colonialismo, guerra civil, sofrimento, deserto, preconceito, culturas distintas, tribos, Mãe Natureza, ancestralidade, arquétipos, Terra... E eu?

É estranho pensar até em identidade sendo quem sou, morando onde moro, tendo as referências que tenho. Um completo vira latas, eu poderia assim me definir. Do lado da minha mãe, tenho desde suíço (minha avó Neuenschwander) que também tem avô negro, a judeu espanhol (Cabido, Soares de Moura) e do lado do meu pai, índio e português, sobretudo (Coelho). É meio como achar que na Espanha é tudo igual. Bascos, Valencianos, Catalães, Andaluzes, e por aí vai, acabam todos no mesmo saco. Como se no Brasil pudéssemos colocar todo mundo também no mesmo saco... Talvez seja minha vontade de igualdade e justiça que pense todo mundo como seres humanos, irmãos. Mas um olhar um pouco mais atento fragiliza o sonho utópico. É tudo muito estranho e tudo muito difícil de traduzir. E, nesse ponto, é como se chegasse Yeo pra selar paradoxalmente a diferença e a igualdade de um modo muito bonito e a necessidade de continuar percorrendo esse Caminho.

Talvez, porque seja mesmo a única forma de nos compreendermos e nos constituirmos humanos.

– “A vida é uma caixa incolor”, disse Yeo pra mim, na semana passada. Pelo que posso sorver, imagino que ele quer dizer que somos nós mesmos que vamos tentar traduzi-la, à medida que a colorimos. A Tradução é mesmo uma forma de abraço.

Mais sobre meu desconhecimento completo de Abidjã nos outros textos deste mesmo blog.



domingo, 29 de novembro de 2015

Só para quem tem vergonha



Durante 5 anos dei aulas na Faculdade Estácio de Sá. Um período muito interessante, de muita aprendizagem. Onde fiz amigos, onde intensifiquei muitas amizades. Onde ganhei a admiração de alguns alunos e ganhei o ódio de alguns outros. Imagino que minha passagem por lá tenha tido saldo positivo, pelos feedbacks que tive ao longo do tempo.

Certa vez, me vi com um dilema: um dos meus alunos mais simpáticos, de quem me lembro bem o nome, me entregou um trabalho final que a gente chamava de "ctl+c ctl+v". Chupado da internet. O trabalho inteiro era encontrado na universidade fluminense.

À época, eu dava aulas de redação publicitária para mídia eletrônica, e produção em rádio e tv. Quem lida com textos todo dia, escritor por paixão, leitor razoável, sabe muito bem o que representa um estilo. Com um ou dois trabalhos se tinha a noção exata de quem sabia escrever, quem tinha bom domínio da articulação, quem possuía alguma técnica clara, quem tinha dificuldades, quem tinha facilidade nisso ou naquilo. É como pedir a um cozinheiro pra provar uma comida que ele não fez. Antes de provar, olhando o prato, já dá pra ele tecer várias informações sobre as técnicas culinárias utilizadas, formas de cortes, escolhas de tipos de preparo etc. É bem isso.

Pois bem, eu poderia ter dado zero no trabalho dele, abrir um inquérito interno na faculdade com as provas mais do que evidentes que eu tinha. Afinal, foi muito óbvio. Quando li o primeiro parágrafo do trabalho, uma luz vermelha acendeu: não tinha sido ele quem havia escrito aquilo ali. Estava longe, muito longe da escrita dele. Daí, foi só pegar um simples parágrafo qualquer do trabalho, copiar e colar no google, e todo o trabalho, ipsis litteris, estava lá. Bonitinho. Provavelmente ele não seria expulso porque sua mensalidade pesaria na balança da análise da ética, acredito. Esse é o mundo triste em que eu vivo.

Ele partiu do pressuposto de que eu não lia os trabalhos. Que eu pegava, e dava a nota, conforme gostasse ou não do aluno. Ou, pior ainda, que eu não tinha noção nenhuma do que eu ensinava. Porque, se eu dava aulas de redação... como não conhecer características primárias de um texto? 
Eu cometo muitos erros no blog. Principalmente porque não reviso o que escrevo. Ele é concebido como um exercício de cachoeira textual, apenas. Mas daí a não ter conhecimento sobre a matéria que dava aulas, a distância é bem boa.

Sabe o que fiz? Dei total pra ele. E fiz um discurso na sala sobre ética durante a entrega dos trabalhos. E coloquei no quadro o endereço eletrônico do trabalho encontrado da universidade fluminense. Não era o que ele queria? "Tirar total"? Ele conseguiu o que queria. Eu expliquei pra ele e pra turma, sem expô-lo, sem delatar quem tinha feito aquilo, que eu não precisava "selecionar" ninguém. Que o mercado faria isso. E que era uma pena que alguém utilizasse desse artifício imoral para "se dar bem". Aliás, é estúpido pensar que a pessoa tenha compreensão do meu conceito de "se dar bem", da mesma forma que eu. "Se dar bem", pra mim, seria "aprender". "Se dar bem" pra ele, seria "levar vantagem matemática na pontuação, baseado no engano do próximo". 

Fico imaginando o que leva uma pessoa a fazer isso. No caso do filho do ex-presidente Honoris Causa, que tenta explicar pra Polícia Federal com trabalhos "ctl+c ctl+v" como ele ganhou 2,5 milhões de reais, é mais interessante ainda. Note: ele não tentou explicar pra um professor desavisado e distraído, com cara de bobo. Foi pra Polícia Federal. Acho, sinceramente, que na Polícia Federal eles devem ter acesso à internet. Desconfio.

E desconfio também que nem meu ex-aluno e nem o filho do ex-presidente ficam envergonhados com isso. Porque isso pressupõe ética. Moral. Educação. Algum caráter. Não vou nem discutir se o filho do ex-presidente é um talpídeo ou alguém que acha que suas costas são tão largas que não sejam pegas num abraço justo ou tão quentes que queimem ao se tentar tocar. Como professor, eu fiquei muito triste por meu aluno. Se eu fosse o policial federal que apurou os fatos eu teria ficado muito puto (desculpe, não achei nada mais próprio) por mim mesmo e pela maioria dos brasileiros que ralam uma vida inteira pra não ganhar nem perto disso. Também acho que quem pode sentir vergonha é quem foi responsável por cada uma das indicações de Honoris Causa ao pai do educador físico que ganha 2,5 milhões desse jeito. 

Sugiro que esse "educador" procure na Wikipedia da mesma forma os conceitos de "escárnio" e "cinismo". Quem sabe ele não dá uma sugestão de alteração nos conceitos, já que a plataforma aberta da enciclopédia colaborativa dá margem a isso?

Hoje não vou postar música. Melhor fazer um minuto de silêncio.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quero Amanhecer Mijado


Eu era ainda um garoto de pouco mais de 17 anos. Talvez 20. Isso foi há uns 22 anos, portanto. Participei, não me pergunte exatamente porquê, de uma reunião de uma associação de músicos mineiros que se encontravam para lutar pelos direitos autorais. Eles continuam se encontrando, essa é uma questão sem fim, quanto mais em tempos de internet, DJ’s, mp3, e de uma época pós Napster. 

Determinada hora, um deles, bem mais velho do que eu, fez um comentário sobre um associado "audaz" - pra homenagear o Grande Fernando Brant, que também fazia parte da associação e depois veio a presidir uma outra de muito maior envergadura e soluções pros músicos - que me deixou muito incomodado: 

– Tá vendo? Mexer com menino dá nisso, a gente amanhece mijado. 

Fiquei incomodado por três motivos básicos: 



Primeiro é que a ação do associado audaz tinha sido unicamente audaz. Apenas uma ação feita sem consultar o reclamante, com o objetivo de dar solução a uma questão qualquer, e de ser proativo. Unicamente. 


Segundo porque achei deselegante e agressiva a forma como foi dita, sem que o “menino audaz” estivesse presente. E na minha frente, que mal conhecia o menino, à época. 
Terceiro que eu também era um menino e queria fazer a diferença. 

Resultado: tomei as dores do outro. Me simpatizei com o fragilizado, tomei birra (até hoje tenho birra) do dono da verdade à minha frente. Músico experiente, compositor reconhecido, mas de muito pouca habilidade no traquejo social. Aliás, isso é comum em grandes músicos. 

Essa semana, tive a grata surpresa de saber que o “menino audaz”, que queria fazer a diferença, foi convidado para assumir a presidência da Rádio Inconfidência. Como músico filiado a Ordem dos Músicos do Brasil, como compositor filiado a UBC, como filho de ex-presidente que sanou uma série de problemas da Rádio por amor à Música e aos músicos, fiquei extremamente feliz. Por vários motivos. 

Um forte candidato a novo Visconde de Sabugosa da Música de Minas, Flávio Henrique é bem articulado, pensa pra frente, sujeito digno, músico ímpar e pessoa do Bem. Valoroso. Fica indignado com a quantidade de sacanagem que vê por aí e transforma em arte, seja ela popular, nas marchinhas premiadas do Carnaval, seja no trabalho refinado de compositor, arranjador e até parceiro de grandes nomes da Música como Milton Nascimento e de tantos outros como o delicioso grupo Cobra Coral, Marina Machado, pra ficar apenas com alguns exemplos. Sua audácia foi o que o levou até a Rádio. Seu ímpeto e sua indignação foram pauta e acordes maiores que soaram bem ao longo de sua carreira. Particularmente, nossos poucos contatos profissionais, sempre profícuos, fizeram com que eu selasse seu conceito. Mesmo sabendo que ele milita por um partido que eu não acredito. Que eu acho que era maior quando era de oposição. Na vida existem prateleiras. Acho que o Flávio e eu sabemos colocar umas coisas em prateleiras distintas das outras. 

Hoje, pelos meus cálculos, com a mesma idade do músico “bem mais velho” que eu citei acima, penso que seria bom amanhecer mijado, porque quando se está ao lado de meninos audazes é mais fácil ouvir e compreender o refrão da canção do Visconde Maior. 

Equilíbrio e sucesso, Flávio. Vai nessa: “Vamos aprender, vamos lá...”