quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Kumite do Amor


Comecei, há pouco, a dar aulas de Karate na Tônus. E, de cara, percebi que quero dar aulas para crianças e seus genitores... 

Mães e pais, filhas e filhos. 

Conversei com a responsável pela clínica de fisioterapia preventiva e reabilitação, e não foi surpresa que, explicando a minha filosofia, ela desse todo o apoio necessário. Inclusive, se prontificando a me dar suporte na promoção que eu propus: 

Pedi a ela que o pai ou a mãe que decidir fazer as aulas com seu(s) filho(s), pagassem apenas 50% do valor da mensalidade. Ela aceitou e me disse que a ideologia da clínica tem tudo a ver com isso.

Aos 9 anos, decidi sozinho que eu queria fazer Karate. E pedi à minha mãe, que me matriculou. Não havia sequer um conhecido, primo, amigo que fizesse. Isso era 100% meu. Daí sua importância em minha vida. Tenho 43 anos de idade, e é absolutamente viva em minha memória a única vez que me lembro do meu pai entrando na academia Gui Do Kan de Karate, do Sensei Roberto Linhares, não para ir me ver lutar, mas para me buscar. Eu queria tanto sentir a aprovação dele...

Em nenhum dos 6 exames de faixa que fiz, ao longo desses 43 anos, ele foi. Esse universo simplesmente não dizia respeito à ele. Nem eu participando dele. Isso foi muito difícil pra mim, durante muito tempo. E graças a isso, pude perceber a importância do que proponho hoje para a Lara Guimarães, da Tônus. Uma criança é marcada por tão pouco... e essa marca perdura ou perturba para o resto de sua vida. Não posso dizer se meu pai não esteve presente em minha formação ou nesse meu sonho particular por escolha ou por acaso - ele sempre trabalhou mais do que fez o resto todo - , o que sei, é que graças aos seus esforços e aos de minha mãe, cada um ao seu modo, hoje decidi proporcionar a pais e filhos, mães e filhas o exercício do encontro.

Sim, acho fundamental o reconhecimento da importância do significado de hierarquia, sobretudo na contemporaneidade. 

Acho rigorosamente importante edificar a disciplina nas crianças e jovens que vivem no mundo de hoje, quando o "não bater em crianças" foi lido como "quem manda aqui são eles", "eles são os reizinhos do pedaço". 

No mundo do consumo, onde e quando se institui que "quebrou, joga fora e compra o modelo novo", no onde e no quando não há limites, é ímpar construir o diálogo, exercitar o debate, promover o embate, a contenda, a disputa, mas de um jeito sadio, controlado, que visa o bem e o crescimento de cada um e dos dois... Em um lugar (dojo) em que valores individuais e do grupo são buscados a cada movimento, em cada respiração e transpiração.

Esforçar-se para a formação da personalidade (do caráter), seguir os caminhos da sinceridade (busca da verdade), cultivar o espírito de empenho (perseverança e persistência), dar importância à cortesia (às tradições, à importância do conhecimento, do saber acumulado e partilhado, da educação e princípios de bom convívio social) e reprimir atos brutais são os 5 fundamentos do Karate-do (do caminho do karateca), e o que muitas vezes, tristemente, vejo faltando no mundo e nas relações contemporâneas.

Quando menino, sonhei em ter uma filha. Quando menino, sonhei em ser faixa-preta de karate. A foto acima, um fragmento do tempo, registrado carinhosamente pela mãe de minha filha de quase 6 anos, não mostra o caminho percorrido até aqui. Muito menos o fim do percurso. Mostra uma seta amarela, um caminho a ser percorrido por pais e mães, filhos e filhas que querem fazer dessa relação mútua a alegoria da eterna batalha: do kumite - cuja a tradução é "o encontro das mãos" - que seja exclusivamente um exercício de Amor.

Sou eternamente grato ao Mestre Robertinho, ao Sensei Akio, ao Daniel, com quem também treinei tanto tempo e hoje é mestre de Jiujitsu e ao meu Mestre Maurício Braz, quem me orienta nos caminhos do karate-do até hoje.

– Oss.


Serviço: Começamos com uma turma às segundas e quartas, de 18:30 à 19:30h. 
Havendo procura, podemos montar uma turma na parte da manhã.

A Tônus Fisioterapia Preventiva e Reabilitação se encontra na Rua Cristina 1160, no bairro Santo Antônio em Belo Horizonte, MG.
(31)3292-7501 (31)9958-5775




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sobre dividir e compartilhar

Existe uma diferença muito grande entre COMPARTILHAR e DIVIDIR.

Suponhamos que uma pessoa tenha 4 laranjas. E ela seja obrigada por lei a compartilhar.

Talvez essa pessoa não saiba, mas dividir não é o mesmo que compartilhar. Ela pode pensar: bem, vou dar uma laranja e ficar com três, eu acho que as laranjas são minhas mesmo...

No meu modo de ver, ela está errada.

Daí, ela pode pensar: bem, vou dar duas laranjas e ficar com duas. Acho que assim vou ser mais justa. Talvez a justiça, que a obrigou a compartilhar, ache que ela está certa. 

Mas, no meu modo de ver, ela ainda está errada.

Daí, ela pode pensar: bem vou dar 3 laranjas e ficar com uma. Ninguém vai ter mais nada o que falar. Talvez a mesma justiça acabe achando injusto, e pedindo que ela volte e dê apenas 2 laranjas.

Ainda vou achar que ela está errada. Sabe por quê?

Por um princípio simples. Compartilhar não é dar duas laranjas e ficar com duas. Ou, pior ainda, dar uma e ficar com três. Compartilhar é aproveitar das 4 laranjas igualmente. Não é nem cortar as 4 na metade e dividir, o que seria a "divisão mais adequada", a que teoricamente mais poderia se aproximar de compartilhamento. Porque, mesmo sendo a divisão mais adequada, ainda assim seria "divisão", não "compartilhamento".

Agora você pode dizer: mas isso é utopia sua. 

Sim, talvez seja. Mas é o que é certo. Talvez fazer suco com as quatro laranjas e beber juntos, brindando e trocando experiências da alegria e do sabor seja o mais correto a se fazer.

As laranjas são minha filha. A justiça diz que a guarda é compartilhada. Mas acha justo, cega que é, que a mãe me dê 2 partes de 4. 

A mãe das laranjas, segundo o que eu acredito, me dá uma só, e acha que isso é compartilhar. Minha justificativa pra dizer isso é porque minhas laranjas, de quase 6 anos, sequer dormiram na minha casa em BH. Digo isso porque em quase 6 anos, minhas laranjas nunca passaram um aniversário delas em BH. Digo isso, porque em quase 6 anos, nunca passaram meu aniversário comigo e com meus amigos em BH. Nem uma noite de natal com a minha família (ano passado as laranjas passaram o dia 25), nem sequer um aniversário das laranjas, nem um reveillon, nem sequer um dia dos PAIS aqui em casa. 

Mas, o que escrevi até esse momento, segundo o que acha a mãe das laranjas, é que essa é uma "visão distorcida" minha. Ou, que o que digo são "inverdades". Em outras palavras, acredito que ela me dá uma das laranjas e acha que está fazendo a sua obrigação.

Inverdade mesmo é a gente achar que ser claro é sinônimo de ser ouvido.  As pessoas apenas ouvem o que interessam a elas. Só escutam o que lhes é conveniente. Inverdade é achar que a verdade pode ser buscada. Inverdade é achar que o perdão é algo possível para todos. Visão distorcida é achar que a justiça é cega. Visão distorcida é achar que a justiça pode dizer quais as laranjas são as do papai, quais são as da mamãe.

Visão distorcida é a minha, de achar que podemos brindar juntos e curtir as 4 laranjas com amizade, respeito, educação e carinho. Até porque, as laranjas não são nossas. Não podemos sequer consumi-las. São um suco do mundo.

No meu pomar, as laranjas são só flores.




quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Para não ser lido.



Às vezes, penso que não escrevo mais porque finalmente tenho algo a dizer.

Tenho colecionado silêncios.

Estou, somando, no quinto ano de piano. Minha filha, no quinto ano de escola (ela começou no berçário aos oito meses. E tem cinco anos e oito meses. Noto que nosso processo de alfabetização começa agora. Ano que vem, acredito, é quando ela vai começar a ser alfabetizada. Por curiosidade e disposição pessoais, ela tem começado a juntar letras, se apoiando em vogais e em algumas consoantes, como a letra B, de Beatriz, M de Marcelo, V de Vicente e R de Raquel. Muletas semânticas.

Eu tenho me apoiado no dó do meio do piano, pelo desenho característico na partitura, no mi, pela posição fácil de ver, no dó da oitava de cima, pelo posicionamento fácil de identificar na clave de sol, pelo fá da clave de fá, pelo sol da clave de sol. Muletas românticas.

Ainda não leio palavrinhas sem pensar nas letrinhas. As palavras da música ainda não saltam na minha frente, como um dia saltaram para a minha surpresa, um ano e meio depois de quando eu comecei a estudar o hebraico.

Estamos no mesmo ponto, portanto. Nós dois, eu com 43 e ela com quase 6, com medo e com vergonha de errar. Sem acreditar que podemos, sem acreditar que sabemos. Sem nos sabermos. Porque ela já sabe ler. Só ainda não confia nela.

Penso em quantas vezes fui obrigado a confiar em mim. Penso em quantas vezes eu confiei em mim naturalmente, sem ser forçado a, ou obrigado a. Queria contar isso pra minha filha, de um modo que ela entendesse.

Da importância do tempo, como fiel da balança, da importância da distância, necessária neste processo de sedimentação do conhe-cimento. Os tijolos são assentados com o conhe-cimento no ponto certo.

O tempo e a distância são amigos da sabedoria. Mas os três só caminham juntos.

Tenho um projeto simples: em 10 anos aprender as 15 músicas do concerto ao piano que farei nos 15 anos da minha filha. Já sei qual é a maioria do repertório. Não o fechei ainda porque acredito que nos próximos 10 anos a minha vida e a dela podem ainda ser marcadas por outras músicas, que talvez ainda nem conheçamos. Por isso, quero esperar.

Passei os primeiros 8 meses desse ano aprendendo um arranjo específico da primeira música do repertório, que tem tudo a ver com esse caminho que eu e minha filha estamos percorrendo. Vou postar a música em um arranjo lindo, depois do texto, para quem quiser curtir. O arranjo não é o mesmo, mas o que vou postar é simplesmente maravilhoso, desse maravilhoso e talentoso amigo. Convido você que ainda está lendo a colocar o celular no silencioso e abrir o coração para ouvir.

No silêncio de cada palavra que não mais escrevo aqui, tem um discurso que grita sem medo nem vergonha. Meus dedos pintassilgo esperam o tempo e a distância para escreverem harmonicamente algo a ser notado por minha filha.

Enquanto escrevo o meu trabalho para o mestrado em tradução, tento traduzir sonho em vida, expectativa em pão, sofrimento em sorriso, ansiedade em paz, dúvidas em confiança, esperança em dia-a-dia.

E a primeira fieira da torre de babel que ergo com a ajuda de minha filha me diz que esse projeto precisa de um baldrame de pedras e um alpendre de madeira.

O que penso nem sempre faz sentido.



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Onde está o Uber da segurança pública?



Ontem, caminhando na rua de cima da minha casa, me deparei com uma mulher assustada que vinha em minha direção:

Moço, moço, não vai pra lá não, que um rapaz acabou de ameaçar uma mulher ali daquele prédio com uma faca enorme!

Na mesma hora liguei pra polícia militar. O que se seguiu foi uma conversa pautada num protocolo que se explica, mas não se justifica. Apenas um exemplo: 

O senhor pode me dizer aonde foi?

– Claro, eu estou na rua Rafael Magalhães em frente ao número 71, no bairro Santo Antônio.

– O senhor pode me dar uma referência?

Pensei comigo: A senhora já ouviu falar em google maps? E disse que não podia, porque não tinha nem um comércio que fosse referência ali. Ok, imagino que uma quantidade enorme dessas chamadas sejam originadas em vilas, "favelas", regiões de periferia que sequer tem um nome de rua e um número confiável... Mas o protocolo que explica a atitude da atendente que gritou comigo - sim, gritou; podemos pedir a gravação para comprovar, tanto que eu pedi que não gritasse e ela começou a dizer que estava ouvindo mal e que por isso estava gritando (foi quando eu disse que a ouvia perfeitamente e que podia parar de gritar, por gentileza) - não justifica o completo retardamento do apoio à comunidade.

Nesse ponto, eu perguntei a ela se podia me dizer se tinha alguma viatura próxima, porque já havia quatro pessoas esperando pra seguir a rua, sem saber se seriam coagidas por um mequetrefe portando uma faca de churrasco. 

Meus 25 anos de karate me dizem que minha filha de 5 anos é mais importante do que o risco de testar minhas habilidades. 

Até o nome do assaltante eu sabia. Ele fez a mesma coisa com dois amigos meus, em dias diferentes, no mesmo bairro, e com um outro em um ônibus do mesmo bairro. Mesmas características, mesmo padrão, se bobear, mesma faca. A polícia já o prendeu diversas vezes e o solta novamente. Outro dia, soube que o traficante da região deu uma surra nele, porque ele estava atrapalhando o comércio na beira do "morro do papagaio". 

Pensei: será que ele vai ter que matar um pai de uma menininha como eu pra que  o traficante resolva a situação? Porque... com o preparo da polícia hoje em dia, seus equipamentos de última geração, os protocolos bem elaborados da década de 80 (imagino), as leis vigentes, a rapidez com que são processadas as demandas da segurança pública, sei não... Lembro que a Polícia Militar de Minas Gerais já foi muito conceituada. De dar cursos fora do país. E que tínhamos um estado considerado seguro. 

Segui, no meio da rua, sem o apoio da polícia, com o computador na mochila, lembrando que o último havia sido furtado, porque a reunião me aguardava, enquanto as outras três transeuntes (todas mulheres) ficaram paradas, discutindo que rumo tomar.

Não, ela não podia me dizer se a viatura estava próxima. E nem quando chegaria ao local.

Penso no seriado 24 horas, que foi sucesso absoluto há poucos anos. Não desista de ler por esse comentário, já me explico.

Jack Bouer, agente do FBI (acho, ou da CIA, não importa) tinha uma equipe que ficava na base de apoio dando dicas pra ele. Reveja um dos episódios da série se não se lembra bem. A grande ajuda, quase sempre, não passava de rastreamento por satélites e indicações de GPS. Banalidade que hoje temos no celular, que está em nossas mãos. 

E porque não estaria nas mãos da polícia? É claro que está. Mas das mãos da polícia para as da sociedade parece que tem um abismo colossal.

Porque não tenho um aplicativo onde vejo onde estão circulando os carros de polícia em meu bairro, em minha vila, em minha comunidade para que, no mínimo, eu me sinta um pouco mais seguro?

Onde está o Uber agora para disponibilizar a tecnologia para os governos municipais, negociando o bem comunitário em troca da permissão definitiva dos seus serviços? Ou, porque ninguém cria um aplicativo de segurança comunitária? Ou, porque não colocamos todos os "telemarketing" (porque parece que não passam disso) da PMMG nas ruas dando voltinhas nos quarteirões em duplas, enquanto um dispositivo direciona as chamadas diretamente para os aplicativos nos bolsos dos soldados, cabos, sargentos, carros, motos, enfim?

É realmente uma pena achar que é mais fácil esperar o Watson da IBM ser comprado pela polícia militar do que haver treinamento de pessoal que pense para responder, ao invés de seguir pura e simplesmente um protocolo, enquanto nos sentimos frágeis precisando de filmes de hollywood pra continuarmos com a fantasia de que seremos salvos. 

Eu só não quero que minha filha queira me abraçar e não possa. Eu só não quero que alguma filha queira abraçar seu pai ou sua mãe e não possa. Porque a única coisa no mundo que realmente tem importância é um abraço.



sábado, 27 de fevereiro de 2016

São Tomé


Sonhei que comprei uma casa nova no caminho, ao lado de um Córrego.

Quando chovia na cabeceira, o Córrego entrava e inundava todo o primeiro andar. Tudo o que guardei em minha lembrança ficava então debaixo d'água. E eu podia ser feliz novamente.

Tentei tirar caixas de violino da água, botá-las pra secar. Violões, um piano, a barra de uma túnica muito minha, sagrada e branca, que estava em um cabide. Mas a água cristalina vinha e banhava o chão da sala da minha casa deixando tudo cristalino e limpo e lindo e líquido.

Pedra. São Tomé.

E, de repente, você voltou. E pude finalmente lhe mostrar o primeiro andar submerso onde eu entulhava as coisas todas. Terceira margem.

Eu quis desviar o curso do córrego, você não deixou, e Ele, água, começou a banhar nossas vidas.

Foi a partir desse dia que começamos a viver sempre descalços, só no segundo andar, com a água fresquinha envolvendo os pés que já caminharam tanto.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Natal e a Verdade (para a mãe de minha filha)


Há pouco tempo, um amigo me disse: 
– Sabe? Quando ouvimos um lado só de uma história, sabemos muito pouco sobre ela...
E pouco depois me deparei com essa imagem:

Desde então, tenho meditado muito sobre isso. Meditei durante os meus três meses de peregrinação, inclusive.

Quando escrevi um texto sobre o natal desse ano de 2015, que aqui coloco o link, eu não poderia supor que... SIM: o Menino Jesus estava me preparando uma surpresa. O Natal desse ano transcendeu a espera, o sonho, o meu conceito de alegria.

A primeira foto desta página retrata um fragmento disso tudo, que ocorreu hoje, na hora do almoço, quando minha filha e sua mãe almoçavam na casa dos meus pais, em Belo Horizonte. Depois de uma espera de 4 anos, neste natal pude pegá-la sem ser cerceado, com a confiança devida, com o respeito que todo pai e toda mãe merecem. Minha filha vai ficar até o final de janeiro em Belo Horizonte e, finalmente, tenho a oportunidade de sair com ela como o pai que sou...

O quadro acima define bem uma situação como essa, acredito. Fico pensando que nosso mundo está mesmo muito triste, cada vez mais dicotômico, cada vez mais dividido entre certo e errado, bem e mal. O Bom e o Mau podem coexistir em pontos de vistas distintos sobre o mesmo assunto, segundo sua abordagem, seu foco, sua distância, seu ângulo, seu preceito, seu pré-conceito. E, acredito, é sinal de sabedoria subir na mesa como fez o professor da Sociedade dos Poetas Mortos, para exercitar o ponto de vista que nunca foi exercido. É disso que Jesus falava quando dizia sobre "a outra face"...

Não sei se foi isso que fez a mãe de minha filha... Não sei se meu texto de 11 de novembro sobre o natal de espera que eu teria a tocou de alguma forma. Não sei se o milagre de minha peregrinação de 2.500km continua dando sementes ou brotos... Não importa. 

Importa é ter visto, neste natal, minha filha fazendo carinho em minha tia de 90 anos, que é como uma avó para mim. Importa que minha mãe chorou de emoção ao ter a neta presente, finalmente, no almoço do dia 25 de dezembro, quando celebramos a chegada do Menino Jesus em nossas vidas. Importa que meu pai tenha nadado com a neta, a carregado no colo, tocado piano, acordeón, escaleta, marimba de vidro com e pra ela. Importa que minha irmã tenha comprado um presente pra ela com seu namorado no Rio e que eles vão receber a graça de entregar, pessoalmente, e presenciar o brilho inigualável de seus olhos. Importa que eu não sei o que estou sentindo, porque nunca me foi dada a oportunidade de sentir algo igual em toda a minha vida.

A naturalidade e a beleza da alegria plena só são mesmo compreendidos em toda a sua extensão pelas crianças. Há muito deixei de ser criança. Mas a que mora dentro de mim e a que mora fora se encontram e dançam e pulam e fazem festa, finalmente, em meu pequeníssimo viver.

A Verdade tem mesmo a ver com o Natal. O Natal tem mesmo a ver com a Verdade. 
Pude VER NA TAL VERDADE a palavra VER. Tem a ver com um jeito mágico, espiritual e muito amoroso de olhar. Só isso.

Sou grato à mãe de Beatriz. Que deu à minha filha, à ela própria, a mim, às nossas famílias, um natal inesquecível, que ficará inscrito no tempo do Sempre. Pra quando quisermos nos lembrar que o Amor é a única coisa capaz de vencer a morte.

Sou grato, Raquel.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Questões de Linguagem e Tradução






As minhas aulas no mestrado acabaram. Posso voltar para a casa da minha filha, onde moro, em Belo Horizonte. Daqui, da ilha interna de Florianópolis, paro e penso. E elejo a primeira coisa que devo agradecer em minha passagem por aqui: o encontro com Yeo N’Gana.

Costamarfinense, magro, estilo corredor, das cambetas finas e compridas, voz grossa, sorriso maior que o rosto, maçãs do rosto bem salientes, olhos profundos, negro azul-marinho, Yeo é um irmão que ganhei depois de 42 anos de vida.
Moral, ética e inteligência de fazer inveja, Yeo é uma vara de bambu. Resiliente. Forte. Firme e absolutamente natural. Seu silêncio grita:

– “Quando você fala baixinho, nos ouvidos, a pessoa escuta com a alma.”, me disse um dia.

Aprendi muito aqui nesses 4 meses intensos de quase prisão domiciliar. Mas aprendi mais mesmo tentando Traduzir o meu novo irmão Yeo. Pra começar, foneticamente, seu nome é um Koan Zen Budista. Quando o chamo, pergunto por mim: “E eu?” A letra “e” é fechada na pronúncia, da mesma maneira que se pronuncia o “e” presente na palavra “eu”. É como se eu quisesse saber onde estou quando chamo aquela pessoa tão distante e tão próxima de mim...

Minha idiota ignorância não sabe distinguir bem o que precisa traduzir “ser da Costa do Marfim”. Ele mesmo, ao tentar explicar porque não fala tanto de si e de sua terra, disse a mim e a uma colega: – É difícil explicar. Se na Costa do Marfim temos 98 línguas, temos 98 culturas distintas, mesmo que próximas. Na minha ignorância cultural, a primeira coisa que me vem é que ele é africano, o que, segundo a Cadeia de Significantes e Significados Saussurianos começa a puxar um fio em minha mente na seguinte ordem: África, selva, bichos e riquezas minerais, exploração, escravidão, colonialismo, guerra civil, sofrimento, deserto, preconceito, culturas distintas, tribos, Mãe Natureza, ancestralidade, arquétipos, Terra... E eu?

É estranho pensar até em identidade sendo quem sou, morando onde moro, tendo as referências que tenho. Um completo vira latas, eu poderia assim me definir. Do lado da minha mãe, tenho desde suíço (minha avó Neuenschwander) que também tem avô negro, a judeu espanhol (Cabido, Soares de Moura) e do lado do meu pai, índio e português, sobretudo (Coelho). É meio como achar que na Espanha é tudo igual. Bascos, Valencianos, Catalães, Andaluzes, e por aí vai, acabam todos no mesmo saco. Como se no Brasil pudéssemos colocar todo mundo também no mesmo saco... Talvez seja minha vontade de igualdade e justiça que pense todo mundo como seres humanos, irmãos. Mas um olhar um pouco mais atento fragiliza o sonho utópico. É tudo muito estranho e tudo muito difícil de traduzir. E, nesse ponto, é como se chegasse Yeo pra selar paradoxalmente a diferença e a igualdade de um modo muito bonito e a necessidade de continuar percorrendo esse Caminho.

Talvez, porque seja mesmo a única forma de nos compreendermos e nos constituirmos humanos.

– “A vida é uma caixa incolor”, disse Yeo pra mim, na semana passada. Pelo que posso sorver, imagino que ele quer dizer que somos nós mesmos que vamos tentar traduzi-la, à medida que a colorimos. A Tradução é mesmo uma forma de abraço.

Mais sobre meu desconhecimento completo de Abidjã nos outros textos deste mesmo blog.