quinta-feira, 13 de julho de 2017

O rosto da saudade



Depois de trinta anos, olho finalmente para esta foto.

Fragmento do sempre, átimo da existência, encontro da sutileza e da porrada da vida: outro dia eu tinha 10 anos. Mal inspirei, se passaram três décadas. Mal expirei, perdi o contato com a infância e a ingenuidade que tanto quis engaiolar...

Olhando, vejo a primeira paixão, vejo a primeira ilusão. Vejo quem me virou o rosto sorrindo pra mim. Me apaixono por quem nem sequer sabe o meu nome. Há corações partidos e abertos, há pedidos de desculpas, há gargalhadas que esperaram pra sair e lágrimas que tardaram a secar. Há encontros e desencontros. Há muito mais encontros que desencontros.

Vejo as mãos, abertas, vejo as mãos dadas de que nos falou Drummond. Vejo o brilho nos olhos dos que venceram, a esperança nos olhos dos que acreditam, rostos que tombam sinal de carinho, a alegria boquiaberta. Fito os mais inteligentes, os ditos incompreendidos, os mitos da minha geração.

Sinto que nada foi em vão.

Correspondi menos sonhos que quis, não fui dormir com ninguém da foto, não amanheci com ninguém daí de cima, sequer telefonei para grande parte dos que marcaram minha vida para sempre e estão aí de novo, olhando pra mim. A vida é feita de grandes silêncios inexplicáveis. De grandes sonhos intermináveis. De despedidas sem nenhum motivo.

Queria abraçá-los agora, dizer o que cada um representou pra mim. Queria voltar no tempo pra dizer no exato momento da história em que cada um me marcou, o motivo, a causa, o quanto. Pecinhas de lego coloridas no tabuleiro verde da vida.

Olho novamente a foto. E reparo que estamos todos dando tchau para o passado, abanando as mãos para nós mesmos, para as crianças que fomos. Estamos dando adeus para os desejos que tivemos, nos despedindo dos sonhos, tantos, tantos. De algum modo paradoxal, abanamos as mãos cumprimentando o futuro que chega, o eu que enfim reconhecemos: o que perdoou, sonhou, amou, conquistou, perdeu, ganhou e que pode agora voltar aos colegas de infância de um modo diferente. Somos diferentemente iguais.

Somos maravilhosamente únicos.

E, por isso mesmo, cada um é absolutamente indispensável no bonito Caminho que escolhi percorrer daqui pra frente.





sexta-feira, 30 de junho de 2017

Que tal um curso gostoso no sábado, dia 8?

Belo Horizonte recebe oficina para que as pessoas aprendam a fazer os próprios produtos de limpeza com ingredientes naturais.

Detalhe: crianças podem participar e até aprender a fazer os produtos.





"Os produtos mais perigosos são os que matam fungos e bactérias", alerta o médico Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Foi preocupada com isso que a minha amiga Ana Pessoa, jornalista (Ex-Veja, TV Globo), Yogini, recém-chegada da Índia, decidiu buscar parceiros especiais em BH e montar um curso para limpar a barra de quem quer ser mais natureba, saudável, feliz e não sabia como.






A coluna Atitude Positiva da Band foi uma das parceiras. É de uma outra amiga minha, também linda e competente, a Fernandinha Mann. Ah, ouça o áudio CLICANDO AQUI. Outra parceria bacana foi a da Tônus Fisioterapia e Reabilitação, um espaço de saúde de outra lindeza, a Lara Guimarães, que tem compromisso com o bem estar holístico de seus clientes e colaboradores.

Talvez você não saiba ou nem tenha parado pra pensar nisso, mas muitos desses desinfetantes são produzidos com produtos químicos que são muito mais perigosos do que os germes que você está tentando matar... É isso que a Ana Pessoa vai mostrar no dia do curso, além de receitas sensacionais e cheirosas pra você mesmo cuidar com carinho da sua casa e de quem você mais ama.

Olha, o curso tem duração de cerca de 3 horas. Nele, os alunos aprenderão a fazer detergente em pasta, desinfetante, e limpador multi-uso. Vão conversar sobre o tema e receber importantes informações. Além disso, quem fizer o curso recebe os produtos feitos em aula e uma apostila com as fórmulas.


Ah, e o quê que eu ganho com isso? Te ver mais feliz e saudável. Tá bom ou quer mais? Adoro ajudar quem merece.



Para mais informações, ligue pra Tônus - 31- 3292 7501, me passe um email no besantanna@gmail.com, ou entre no facebook da Fernanda Mann, ou no Instagram da Natural por Dentro.






Serviço:
Local: Tônus Fisioterapia Preventiva e Reabilitação
Data: Dia 08 de Julho, sábado
Horário: de 8:30 às 12:00h
contato@tonusfisioterapia.com.br
besantanna@gmail.com
Endereço: Rua Cristina 1160, São Pedro 31- 3292 7501
VALOR: 150,00 reais (professores têm desconto)


Número de participantes: 15

Quem sabe uma turma na parte da tarde? ...Corre! São poucas vagas!!!!



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ligações





Meu celular tocou depois de muito tempo em silêncio.

Faaaaaala, amoreco!, atendi num sorriso, brincando carinhosamente com a minha amiga, a Psicóloga, Coach e Apresentadora Érica Machado.

– Bê, preciso da sua ajuda.

– A resposta é sim. Não sei o que é, mas vindo de você... (disse a ela, na sequência.)

– Se lembra de uma amiga sua, a blogueira do Ócio do Ofício, a Laura Barreto? Você acha que ela topa se juntar com você para vocês serem madrinha e padrinho de um grupo de corredores de pessoas que estão em situação de rua?


– A Laura? Ela é doida igual a gente, bora ligar pra ela! Claro que vai topar. Mas, espera, me fala mais sobre isso... você diz... tipo "mendigo"? É isso mesmo que eu estou entendendo?!?

Foi assim. Há alguns dias, fui surpreendido com outra passagem em minha vida da tsunami conhecida como Érica Machado. Ela, por sua vez, foi pega pelo furacão que as pessoas chamam de Tio Flávio Cultural. Quando esse tipo de avalanche passa em nossa vida, tudo vira de cabeça pro alto. No meu caso, os dois volta e meia me chacoalham e me viram do avesso.

Tio Flávio, pra quem não sabe, tem cerca de 20 projetos diversos e todos beneficentes, por todo lado. O cara é uma Madre Tereza de Beagá que usa como terço as redes sociais, e como armas os amigos e sua capacidade imensa de amar o próximo.

100% de seus projetos sem fins lucrativos, nada de ONG ou doações em dinheiro, tudo em troca de abraço, sorriso, carinho, lágrima, beijo e sacolas e sacolas de esperança em um mundo melhor.


Evito falar, pra não parecer auto-promoção de um pateta, mas foi ele quem me chamou pra passar um natal contando da minha peregrinação para os detentos de APAC de Santa Luzia, ou dar o meu testemunho para os detentos da APAC de Nova Lima. No do natal, fui até com a Érica, essa moça linda que nos chamou para participar do projeto TREM DAS 7.


Sabe, tem cerca de 400 homens que dormem em um abrigo da prefeitura de BH e que, quando o dia amanhece, devem pensar: o que vou fazer hoje da minha vida?

Eu tenho vivido assim. Sou como eles. Um dia de cada vez. Mas eu, apesar da crise, tenho tido ajuda para pagar as contas que não param de chegar, mesmo sem trabalho suficiente. Às vezes, me pego com vontade de beber para esquecer as dores. Esses peregrinos das ruas, que tem dormido no abrigo da prefeitura (ou debaixo do viaduto da Francisco Sales), às vezes, se pegam não só com vontade de beber, como no caso do nosso novo amigo Rafael, quem ama ler e já foi até livreiro, mas de fazer ainda pior com seu templo individual...

Na foto, Érica, Rafael, Raimundo e Fernando, em uma palestra na Defensoria Pública sobre o Projeto Trem das Sete.


O "Projeto Trem das Sete - de passageiros a condutores da própria vida", tem um nome que já explica tudo. Quando Érica nos chamou, queria que Laura contasse sobre a história de como ela superou sua primeira maratona e como decidiu fazer as 10 maratonas mais difíceis do mundo. Queria que eu contasse como superei o que até hoje me parece impossível: percorrer os 2.500km que separam o Vaticano de Santiago de Compostela passando pelo Caminho de São Francisco de Assis e de Santiago de Compostela. Ela queria dar mais do que esperança para quem, de uma forma ou de outra, perdeu tudo o que tinha: em alguns casos a dignidade, a esperança, o sonho.

Quem herda não furta. Meu avô, em Teófilo Otoni, era constantemente chamado para "acalmar os doidos de rua". Quando alguém em situação de rua estava agressivo ou bêbado, meu avô paterno fazia as vezes desse abraço social, no lugar de um padre ou de um policial, como um conselheiro mais velho... Meu avô materno, delegado da lagoinha na época em que existia só "ladrão de galinha", constantemente passava um sabão e chamava à responsabilidade àquele que tinha se exaltado e perdido a compostura, o bom senso, tinha sido agressivo ou estava "na sarjeta". Quando "conduta" era uma palavra que ainda fazia sentido, independentemente do seu status social...

Recentemente, minha namorada me fez essa mesma pergunta: Qual é o seu sonho?

Eu não soube respondê-la... De alguma forma, tenho tentado aprender com os encontros que a vida me oferece, as ligações que às vezes vem sem que estejamos esperando e que nos conectam ou reconectam com essências buscadas ou perdidas.

No Albergue Municipal Tia Branca, Érica Machado e a também Psicóloga Tânia Campos, deram as mãos ao Tio Flávio e resolveram mudar a realidade dos que ali estavam, alguns já prontos para iniciar a volta por cima.

Foi dessa maneira que surgiu o CORREDORES DE RUA - o grupo dos que decidiram voltar a sonhar e simbolizar isso através de atitude desportiva. Sob a tutela sempre atenta e o carinho da assistente social voluntária Alcione Mesquita, temos nos encontrado com os "meninos", como diz a Érica, às 6:30h da manhã, na hora da abertura do Albergue, às segundas e quartas. E outras ligações começam a ser feitas...:

A Lara Guimarães da Tônus Fisioterapia resolveu dar a avaliação fisioterápica necessária a todo o grupo, bem como a consultoria aos alongamentos e aquecimentos;

O Dr. Carlos Eduardo, cardiologista amigo da Laura, resolveu avaliar a condição física dessa galera, fazendo eletrocardiograma, inclusive, começando dos mais velhos para que todos possam participar com segurança;

O Volnei Prado de uma das melhores equipes de treinamento de corrida do Brasil, a HF Treinamento Esportivo já nos estendeu sua mão e vai ficar responsável pelas planilhas de treinamento da turma.

A linda da Adriana do Mocca Coffee and Meals, do seis pistas, deu não só café da manhã pra essa turma, mas vai disponibilizar o lanche pra eles nos treinos especiais.

Além disso, já fizemos um primeiro treino beneficente (com o café gostoso do Mocca), quando os atletas da HF e amigos de todos nós se juntaram para dar os 16 pares de tênis, acompanhados de toda a vestimenta necessária aos corredores.

Pelo visto, essas ligações não vão ter fim.

Se você leu até essa linha, talvez possa se juntar a nós, e descobrir como você vai se tornar mais um passo rumo à linha de chegada dessa turma, que pode também ser a sua. Se ainda não estiver preparado, torça por nós. E se passar por um monte de maluco correndo pela rua enquanto sorri parecendo estar sonhando acordado, não se assuste. Apenas buzine, abane sua mão, jogue um beijo, ou nos deseje sorte.

Todos precisamos.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Caminhando com a Ana



No primeiro passo, descendo do avião ainda na conexão em Madri, começou a nossa divertida viagem com a pergunta da funcionária da Iberia, parceira da Latam, para a senhora que levava seus pais já idosos para a Europa:
Se quedan en Madrid?
E ela:
– Mãe, ela tá perguntando se você vai querer a cadeira de rodas.

Foi nossa primeira gargalhada. Da Ana e minha. Fomos juntos para Lisboa, para de lá pegarmos um ônibus até Fátima, prestarmos nossas graças no ano jubilar, e iniciarmos nossa jornada até Santiago de Compostela, a pé, perfazendo 500 quilômetros (505km em um dos GPSs, 527 no outro).

Foi uma viagem maravilhosa e foi uma viagem maravilhosa... Por mais que as previsões dissessem do frio rigoroso que castigaria Portugal no mês de março de 2017, e que andaríamos debaixo de chuva durante os 20 dias de jornada, não foi exatamente isso que aconteceu. Era pegar o Caminho e a chuva dava trégua, quando não abria um sol das regiões temperadas, iluminando o rosto da Ana, secando minhas poças e nos trazendo o calor necessário à crença. Claro, tivemos dias até de chuva de granizo diretamente no rosto, momentos de 4º de frio e ventos desafiantes, mas nada que fizesse o medo suplantar o desejo, a esperança, a vontade, o encanto. Nas florestas úmidas da Galícia demos as mãos, ao escalar as pedras de um e de outro, superar o lodo que cobria as frestas das minhas cicatrizes, até chegarmos na clareira do pacto mútuo, onde o céu se abre para a compreensão da natureza nossa.


Ana Guimarães puxou o famoso avô materno, Soares da Cunha: ela é trova desafiante, verso acabado que rima, rica. Ela puxou o avô paterno: sabe como ninguém reunir os pares brindando em seu nome, mesmo quando já não está. Tem a doçura da avó que não conheci e a sensibilidade da avó artista plástica que canta e encanta. Ela definitivamente não cabe em si. Tanto que grita para sair, porque foi feita mignon, por natureza. Guerreira, forte sem medida, Ana desafia a desistência. Palíndromo de si mesma, é coerente na simplicidade complexa de existir e insistir. Virou madrinha do futuro casal de jovens alemães que trouxemos em nossos corações pra casa, o Martin e a Giorgina.

Cansamos. Subimos muitas montanhas juntos, descemos muitas montanhas juntos. Ela me empurrou montanha acima e me ajudou montanha abaixo. Venho tentando tomar conta da pequenice dela, hábito ligado ao macho que habita em mim, e dar conta das suas sutilezas, rito ligado à fêmea que cultivo cevando em mim.

Paiciências.

Entre muitas risadas, cuidamo-nus: não há disfarce que permaneça luzindo intacto depois de tantos quilômetros de mãos dadas. Entrelaces. Nossos silêncios discursaram perguntas. Nossas buscas amanheceram, ninamos nossos desejos, brindamos o afeto de caminharmos por tantas pessoas que precisam. Na bênção do padre André, na saída de Fátima, ele pontuou que caminharíamos por nós, por quem conhecemos e por quem sequer conhecemos. Virou nosso mantra, nossa frase diária. A força de uma peregrinação na quaresma transcende a compreensão de quem não tem fé, e acha que é só uma viagem de férias mais barata que as outras.


Oremos.

Oramos. Rezamos pra Fátima, para Santiago, para nossa família. Caminhei com minha filha no colo, caminhei com os amigos no pensamento, caminhei com os desafetos no coração. “Tudo muda, nada perdura”, já dizia Heráclito. As dores me acompanharam e o sofrimento me fez emotivo. O prazer andou comigo e a paixão me fez recolhido. Mas soube rir, chorar, inspirar, expirar. Os passos mastigavam os pensamentos que insistiam em caminhar conosco. Até que paz. Até que bem.

É uma pena ter que voltar. E me descobrir cada vez mais peregrino de mim mesmo, estrada infinda em busca do que passa, do que vai passar, do que paradoxalmente me importa e se vai, fluxo perene desse efêmero existir. 


Sou grato a Ana, seu caminho, nosso encontro, nossos passos. E que Deus tenha ouvido minhas tantas preces.

Quanto a você, mesmo se não puder me ouvir, ouça pelo menos essa música, vai lhe fazer bem.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Kumite do Amor


Comecei, há pouco, a dar aulas de Karate na Tônus. E, de cara, percebi que quero dar aulas para crianças e seus genitores... 

Mães e pais, filhas e filhos. 

Conversei com a responsável pela clínica de fisioterapia preventiva e reabilitação, e não foi surpresa que, explicando a minha filosofia, ela desse todo o apoio necessário. Inclusive, se prontificando a me dar suporte na promoção que eu propus: 

Pedi a ela que o pai ou a mãe que decidir fazer as aulas com seu(s) filho(s), pagassem apenas 50% do valor da mensalidade. Ela aceitou e me disse que a ideologia da clínica tem tudo a ver com isso.

Aos 9 anos, decidi sozinho que eu queria fazer Karate. E pedi à minha mãe, que me matriculou. Não havia sequer um conhecido, primo, amigo que fizesse. Isso era 100% meu. Daí sua importância em minha vida. Tenho 43 anos de idade, e é absolutamente viva em minha memória a única vez que me lembro do meu pai entrando na academia Gui Do Kan de Karate, do Sensei Roberto Linhares, não para ir me ver lutar, mas para me buscar. Eu queria tanto sentir a aprovação dele...

Em nenhum dos 6 exames de faixa que fiz, ao longo desses 43 anos, ele foi. Esse universo simplesmente não dizia respeito à ele. Nem eu participando dele. Isso foi muito difícil pra mim, durante muito tempo. E graças a isso, pude perceber a importância do que proponho hoje para a Lara Guimarães, da Tônus. Uma criança é marcada por tão pouco... e essa marca perdura ou perturba para o resto de sua vida. Não posso dizer se meu pai não esteve presente em minha formação ou nesse meu sonho particular por escolha ou por acaso - ele sempre trabalhou mais do que fez o resto todo - , o que sei, é que graças aos seus esforços e aos de minha mãe, cada um ao seu modo, hoje decidi proporcionar a pais e filhos, mães e filhas o exercício do encontro.

Sim, acho fundamental o reconhecimento da importância do significado de hierarquia, sobretudo na contemporaneidade. 

Acho rigorosamente importante edificar a disciplina nas crianças e jovens que vivem no mundo de hoje, quando o "não bater em crianças" foi lido como "quem manda aqui são eles", "eles são os reizinhos do pedaço". 

No mundo do consumo, onde e quando se institui que "quebrou, joga fora e compra o modelo novo", no onde e no quando não há limites, é ímpar construir o diálogo, exercitar o debate, promover o embate, a contenda, a disputa, mas de um jeito sadio, controlado, que visa o bem e o crescimento de cada um e dos dois... Em um lugar (dojo) em que valores individuais e do grupo são buscados a cada movimento, em cada respiração e transpiração.

Esforçar-se para a formação da personalidade (do caráter), seguir os caminhos da sinceridade (busca da verdade), cultivar o espírito de empenho (perseverança e persistência), dar importância à cortesia (às tradições, à importância do conhecimento, do saber acumulado e partilhado, da educação e princípios de bom convívio social) e reprimir atos brutais são os 5 fundamentos do Karate-do (do caminho do karateca), e o que muitas vezes, tristemente, vejo faltando no mundo e nas relações contemporâneas.

Quando menino, sonhei em ter uma filha. Quando menino, sonhei em ser faixa-preta de karate. A foto acima, um fragmento do tempo, registrado carinhosamente pela mãe de minha filha de quase 6 anos, não mostra o caminho percorrido até aqui. Muito menos o fim do percurso. Mostra uma seta amarela, um caminho a ser percorrido por pais e mães, filhos e filhas que querem fazer dessa relação mútua a alegoria da eterna batalha: do kumite - cuja a tradução é "o encontro das mãos" - que seja exclusivamente um exercício de Amor.

Sou eternamente grato ao Mestre Robertinho, ao Sensei Akio, ao Daniel, com quem também treinei tanto tempo e hoje é mestre de Jiujitsu e ao meu Mestre Maurício Braz, quem me orienta nos caminhos do karate-do até hoje.

– Oss.


Serviço: Começamos com uma turma às segundas e quartas, de 18:30 à 19:30h. 
Havendo procura, podemos montar uma turma na parte da manhã.

A Tônus Fisioterapia Preventiva e Reabilitação se encontra na Rua Cristina 1160, no bairro Santo Antônio em Belo Horizonte, MG.
(31)3292-7501 (31)9958-5775




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sobre dividir e compartilhar

Existe uma diferença muito grande entre COMPARTILHAR e DIVIDIR.

Suponhamos que uma pessoa tenha 4 laranjas. E ela seja obrigada por lei a compartilhar.

Talvez essa pessoa não saiba, mas dividir não é o mesmo que compartilhar. Ela pode pensar: bem, vou dar uma laranja e ficar com três, eu acho que as laranjas são minhas mesmo...

No meu modo de ver, ela está errada.

Daí, ela pode pensar: bem, vou dar duas laranjas e ficar com duas. Acho que assim vou ser mais justa. Talvez a justiça, que a obrigou a compartilhar, ache que ela está certa. 

Mas, no meu modo de ver, ela ainda está errada.

Daí, ela pode pensar: bem vou dar 3 laranjas e ficar com uma. Ninguém vai ter mais nada o que falar. Talvez a mesma justiça acabe achando injusto, e pedindo que ela volte e dê apenas 2 laranjas.

Ainda vou achar que ela está errada. Sabe por quê?

Por um princípio simples. Compartilhar não é dar duas laranjas e ficar com duas. Ou, pior ainda, dar uma e ficar com três. Compartilhar é aproveitar das 4 laranjas igualmente. Não é nem cortar as 4 na metade e dividir, o que seria a "divisão mais adequada", a que teoricamente mais poderia se aproximar de compartilhamento. Porque, mesmo sendo a divisão mais adequada, ainda assim seria "divisão", não "compartilhamento".

Agora você pode dizer: mas isso é utopia sua. 

Sim, talvez seja. Mas é o que é certo. Talvez fazer suco com as quatro laranjas e beber juntos, brindando e trocando experiências da alegria e do sabor seja o mais correto a se fazer.

As laranjas são minha filha. A justiça diz que a guarda é compartilhada. Mas acha justo, cega que é, que a mãe me dê 2 partes de 4. 

A mãe das laranjas, segundo o que eu acredito, me dá uma só, e acha que isso é compartilhar. Minha justificativa pra dizer isso é porque minhas laranjas, de quase 6 anos, sequer dormiram na minha casa em BH. Digo isso porque em quase 6 anos, minhas laranjas nunca passaram um aniversário delas em BH. Digo isso, porque em quase 6 anos, nunca passaram meu aniversário comigo e com meus amigos em BH. Nem uma noite de natal com a minha família (ano passado as laranjas passaram o dia 25), nem sequer um aniversário das laranjas, nem um reveillon, nem sequer um dia dos PAIS aqui em casa. 

Mas, o que escrevi até esse momento, segundo o que acha a mãe das laranjas, é que essa é uma "visão distorcida" minha. Ou, que o que digo são "inverdades". Em outras palavras, acredito que ela me dá uma das laranjas e acha que está fazendo a sua obrigação.

Inverdade mesmo é a gente achar que ser claro é sinônimo de ser ouvido.  As pessoas apenas ouvem o que interessam a elas. Só escutam o que lhes é conveniente. Inverdade é achar que a verdade pode ser buscada. Inverdade é achar que o perdão é algo possível para todos. Visão distorcida é achar que a justiça é cega. Visão distorcida é achar que a justiça pode dizer quais as laranjas são as do papai, quais são as da mamãe.

Visão distorcida é a minha, de achar que podemos brindar juntos e curtir as 4 laranjas com amizade, respeito, educação e carinho. Até porque, as laranjas não são nossas. Não podemos sequer consumi-las. São um suco do mundo.

No meu pomar, as laranjas são só flores.




quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Para não ser lido.



Às vezes, penso que não escrevo mais porque finalmente tenho algo a dizer.

Tenho colecionado silêncios.

Estou, somando, no quinto ano de piano. Minha filha, no quinto ano de escola (ela começou no berçário aos oito meses. E tem cinco anos e oito meses. Noto que nosso processo de alfabetização começa agora. Ano que vem, acredito, é quando ela vai começar a ser alfabetizada. Por curiosidade e disposição pessoais, ela tem começado a juntar letras, se apoiando em vogais e em algumas consoantes, como a letra B, de Beatriz, M de Marcelo, V de Vicente e R de Raquel. Muletas semânticas.

Eu tenho me apoiado no dó do meio do piano, pelo desenho característico na partitura, no mi, pela posição fácil de ver, no dó da oitava de cima, pelo posicionamento fácil de identificar na clave de sol, pelo fá da clave de fá, pelo sol da clave de sol. Muletas românticas.

Ainda não leio palavrinhas sem pensar nas letrinhas. As palavras da música ainda não saltam na minha frente, como um dia saltaram para a minha surpresa, um ano e meio depois de quando eu comecei a estudar o hebraico.

Estamos no mesmo ponto, portanto. Nós dois, eu com 43 e ela com quase 6, com medo e com vergonha de errar. Sem acreditar que podemos, sem acreditar que sabemos. Sem nos sabermos. Porque ela já sabe ler. Só ainda não confia nela.

Penso em quantas vezes fui obrigado a confiar em mim. Penso em quantas vezes eu confiei em mim naturalmente, sem ser forçado a, ou obrigado a. Queria contar isso pra minha filha, de um modo que ela entendesse.

Da importância do tempo, como fiel da balança, da importância da distância, necessária neste processo de sedimentação do conhe-cimento. Os tijolos são assentados com o conhe-cimento no ponto certo.

O tempo e a distância são amigos da sabedoria. Mas os três só caminham juntos.

Tenho um projeto simples: em 10 anos aprender as 15 músicas do concerto ao piano que farei nos 15 anos da minha filha. Já sei qual é a maioria do repertório. Não o fechei ainda porque acredito que nos próximos 10 anos a minha vida e a dela podem ainda ser marcadas por outras músicas, que talvez ainda nem conheçamos. Por isso, quero esperar.

Passei os primeiros 8 meses desse ano aprendendo um arranjo específico da primeira música do repertório, que tem tudo a ver com esse caminho que eu e minha filha estamos percorrendo. Vou postar a música em um arranjo lindo, depois do texto, para quem quiser curtir. O arranjo não é o mesmo, mas o que vou postar é simplesmente maravilhoso, desse maravilhoso e talentoso amigo. Convido você que ainda está lendo a colocar o celular no silencioso e abrir o coração para ouvir.

No silêncio de cada palavra que não mais escrevo aqui, tem um discurso que grita sem medo nem vergonha. Meus dedos pintassilgo esperam o tempo e a distância para escreverem harmonicamente algo a ser notado por minha filha.

Enquanto escrevo o meu trabalho para o mestrado em tradução, tento traduzir sonho em vida, expectativa em pão, sofrimento em sorriso, ansiedade em paz, dúvidas em confiança, esperança em dia-a-dia.

E a primeira fieira da torre de babel que ergo com a ajuda de minha filha me diz que esse projeto precisa de um baldrame de pedras e um alpendre de madeira.

O que penso nem sempre faz sentido.