terça-feira, 21 de julho de 2015

Preciso mostrar a língua?




Os modernos já usaram “vou bater um fio pra você”. “Disca pra mim”? Era usual.

Há 150 anos, praticamente, não existia o telefone no mundo. Hoje, praticamente, ele também não existe mais.

Não, não existe, praticamente. Existe a função de ligar para outra pessoa em um dispositivo, mas quase não se vê mais o telefone telefone.

Dispositivos móveis. Poderiam muito bem ser chamados de computadores de bolso. Porque nem telefone de bolso são mais, bem da verdade. E, sem falar nas outras funções, a função híbrida, o contato de voz, o de imagem, o de voz e imagem, o de texto, o de texto e voz e imagem se misturam e se completam, recadamente falando, cutucalmente existindo. Presencialmente virtuando-se.

Aliás... Virtual ou virtuoso?

Máscara social, muleta semântica, válvula de escape, encontramos um modo matemático de resolução da ubiquidade.

Me lembro de Santa Clara. Que virou santa (também) porque, entre seus milagres, a visão do que acontecia com São Francisco em outro lugar, quando ela não pode acompanhá-lo. Sim, isso foi um milagre. Ela viu o que estava acontecendo em outra vila, mesmo estando enferma, de cama. Hoje, faço isso quase todos os dias com minha filha no Facetime. Ou, pelo menos, tento. E vejo.

De BH, vejo seu quartinho em Recife. “Desenho com ela”. “Recebo seus beijos”. “Fungo seu cangote”. Sim, me reporto. Inteiro, em pensamento e palavras, expectativas e sonhos, eu percepção, todo lá, a 2.222km de distância.

A velocidade da luz que experimento.

Quando o eu percepção penetra o dispositivo, o que fica é um corpo meu que nem é meu mais. Tanto que... tem gente que vai e quando quer voltar, nem tá lá mais. Morre, porque bateu o carro. Ou mata, porque seu corpo sem percepção passou por cima de outra pessoa. Ou de outras pessoas...

Na verdade, temos muito pouca consciência da inteireza da união corpo e mente e espírito. Sim, juro. É o que trabalham os que seguem a filosofia zen. 100% pre-sen-tes. Mas não somos assim (na maioria das vezes).

Não tomamos banho. Enquanto nosso corpo toma banho, resolvemos problemas mentais. Estamos escolhendo a roupa, discutindo com o chefe, montando o discurso, estruturando o que vamos dizer com pais, filhos, amigos, amantes, subordinados, desconhecidos. Fantasiamos tão facilmente não estar ali que... não estamos. E perdemos a água molhada. O cheiro do sabonete. A textura do shampoo. O calor da água em contato com o íntimo que habita em mim... Ou, pelo menos, que habita o meu corpo.

Somos seres descolados. E ainda assim, a dramatização da perda do corpo - ou de parte dele - fere fogo. Dói. É preciso uma reflexão sobre o desapego versus o encontro. Consigo mesmo. Comigo mesmo. Eumente falando. Eumente calado. Euxistindo somente. Inteiro em presença, ou melhor, em pressência.

Da próxima vez que eu for à padaria, vou pensar se vou eu mesmo ou meu corpo. E de lá, ligarei dispositivamente pro mim mesmo que fiquei pra trás, perguntando se eu quero alguma coisa.

Mais sobre a relação espaço temporal quântica a qualquer momentum em besantanna.blogspot.com


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