terça-feira, 1 de abril de 2014

Dia da Verdade, mas pode ser chamado de "dia do juízo".

Filha,
hoje é dia 01 de abril, dia da mentira. Mas já é noite.

Cedo, fui na minha segunda aula de piano. Há 1 mês, estive conversando com Maria Rita, professora da Fundação de Educação Artística, que me aceitou de volta como aluno. A última anotação que consta nas costas de um dos meus livros de partitura é de 28 de novembro de 1986. Seu pai era um menino. Eu disse a ela:

– Maria Rita, preciso de sua ajuda. Meu objetivo é muito claro. Minha filha está com 3 anos. Nos seus quinze anos tenho que fazer um concerto pra ela. Com quinze músicas. Portanto, temos 12 anos pra que eu aprenda 15 músicas pra tocar pra ela nos seus 15 anos. E eu sei quais são elas. Ou melhor, quase todas. Falta uma. Essa é minha, e eu ainda não compus.

Agora é noite, filha. São mais de 20h e estou sozinho aqui em casa estudando, já que tive a segunda aula. A partitura de Falling Leaves, de David Kraehenbuehl está aberta em cima do piano. Uma música simples e triste. 

A coerência dessa música hoje é desconcertante. Ou será que eu deveria dizer desconsertante? Seu pai ainda tem que consertar muita coisa, filha. Esse concerto é só um dos consertos que devo fazer. Por você. Por nós. Pelos nós que fui dando ao longo da vida, muitas vezes sem perceber, muitas vezes sem me dar conta, muitas vezes sem querer. Nós são complicados porque são dados, geralmente, por nós. E, por isso, nós somos, os que devemos desdá-los. 

A geladeira parou seu motor finalmente, o que me trouxe grande alívio. O silêncio alivia seu pai. É concerto para mim, conserto de minh'alma. Eu já havia tocado Falling Leaves, filha. Não num outono como esse, quando caio com elas, flanando folhas secas, flanela olhos d'água. Sento. Tomo lugar. "Ande como um rio. Pare como uma montanha.", diz o ditado zen. Já andei muito. 

Foram mais de 2.500km. Agora, decidi parar e esperar. Daqui a dois dias completa-se um ano do início da minha peregrinação. Hoje, no dia da mentira, homem tira o terço do bolso. Senta e decide rezar. Porque quando o Vento vier revolver as folhas que caem, Nada sobrará. E o Nada, você sabe. É avassalador: o vassalo da dor. No dia do juízo, há dor pra quem se recusa terminantemente a enxergar.

Aguarde, filha. Você vai gostar dos meus consertos certos. 

Com o amor do sempre, Papai.

* Na foto, seu avô observa atento a sua observação do mágico ovo de Brennand. Com meu chapéu que bordei ao longo do Caminho em suas mãos, você, descobrindo aonde fica o ninho de toda ideia.


Um comentário:

Duilly Cicarini disse...

Belo texto. Parabéns!