quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ela e sua marcada cara bonita



Não sei bem aonde vamos chegar. Sei a onda que aí está. Tenho birra de certos "novos costumes" que vão se firmando, em detrimento às escalas de valores, que não se sedimentam no Brasil, acredito, por falta de cultura. 

Sou menino e sou velho. 

Velho a ponto de acreditar que devemos respeito aos mais velhos. Que devemos dar nosso lugar a mulheres, senhores, senhoras, grávidas. Acho que machismo é confundido com cavalheirismo, muitas vezes, e muitas vezes por pseudo-feministas de plantão, que não tem peito pra queimar soutien. Gosto de abrir a porta do carro para minha mãe, minha namorada, minha filha, meu pai, minha amiga. Gosto de cozinhar, gosto de unhas bem feitas, gosto de cuidados. O fato do meu escritório ser uma completa bagunça não diminui meu interesse pelo cuidado, pela cama bem feita, pelo mimo significante, significado "eu olho por você". 

Sou assim. E me preocupo com a importância que é dada ao falso reconhecimento gerado pelas redes sociais, sejam elas quais forem. Do Instagram ao Facebook, passando pelo WhatsApp, vendido pro Zuckerberg por bilhões pelo cara que ele não contratou em 2009. Faça um teste: quantas horas por dia você passa usando algum dispositivo social? Depois relacione o que isso quer dizer em dias, meses, ano. Como a assustadora estatística do morador da cidade de São Paulo, que passa mais de 3 meses do ano dentro do carro. 

E tome assunto: BBB é dos mais cotados. Violência, nem se fala. E entre uma violência, um Naldo, uma Anita (coitado de mim, nem conheço a cara dessa moça e acabei de descobrir no google que se escreve Anitta) e um BBB, e outros tantos assuntos de relevância profunda como o box daqui de casa, dá-lhe postagens do quanto somos bonitos, interessantes, viajantes, cozinhantes, amantes, legais, engraçadinhos. 

Afinal de contas, não seria melhor voltar lá e conversar com os nossos pais? E conquistar finalmente a aprovação que nos falta? - ou pelo menos o consolo dela? 

Os Facebooks, os psiquiatras, psicólogos e os políticos estão feitos mesmo. O mercado deles só aumenta. Porque a frustração é melhor abastecida com a possibilidade fantasiada de consumo, seja o consumo que for. Consome-se a esperança de segurança, de bolsa família, de namorado, de fim de crise, de cura, de sanar a depressão que é viver sob a égide da solidão eterna. 

Porque todo mundo, eu já disse isso e repito, só quer um abraço. 

E vivemos com a expectativa de que o filme Ela - absolutamente genial e sintomático - saia das telas e chegue finalmente à vida real. Filosoficamente, uma obra prima. Esteticamente, perfeito. Cinza o céu, cinza o real, maravilhosamente belo, colorido e saturado, o virtual. 

Joaquin Phoenix conduz de forma brilhante a representação do EU. O EU eu, o EU você, o qualquer um EU de nós (ai de nós?) que já nasce marcado no rosto com a imperfeição humana. E que, no espelho de Narciso, tem no bigode uma espécie de Facebook: uma máscara social que no fundo não o torna nem mais bonito, nem mais legal, nem mais cozinheiro, nem mais viajante, nem mais sucesso. O triste é saber que nunca mais vamos deixar de usar bigode. Mesmo sabendo que bigode é tão démodé como creme rinse, dentifrício ou a palavra demodê. Carlos Lyra é quem tava certo: as coisas ditas, quanto mais escritas não se comparam com essa sua cara bonita. 

Triste mesmo é saber que estamos optando pela representação, não pela nossa incomparável e marcada cara bonita.



Um comentário:

Dan Zecchinelli disse...

Muito muito bom, especialmente isso aqui: "Joaquin Phoenix conduz de forma brilhante a representação do EU. O EU eu, o EU você, o qualquer um EU de nós (ai de nós?) que já nasce marcado no rosto com a imperfeição humana. E que, no espelho de Narciso, tem no bigode uma espécie de Facebook: uma máscara social que no fundo não o torna nem mais bonito, nem mais legal, nem mais cozinheiro, nem mais viajante, nem mais sucesso. O triste é saber que nunca mais vamos deixar de usar bigode. "