quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Bushido




Aos nove anos de idade, pedi pra minha mãe:

– Mãe, me coloca no Karatê?
 
Eis o inusitado. E o Dojo kun passou a fazer parte da minha vida. Na “traduzadaptação”, termo cunhado pelo Musashi dos Sertões, Guimarães Rosa, o Dojo Kun seria:

1. Esforçar-se na formação da personalidade;
2. Seguir o caminho da sinceridade;
3. Cultivar o espírito de empenho;
4. Dar importância à cortesia;
5. Reprimir atos brutais;

Assim, fui ensinado, ou melhor, comecei meu ensinamento... Nesta crônica curta ou curtida, quero me ater ao quarto “mandamento”. Talvez a tradução não seja exatamente essa. Me ditei que talvez a tradução mais correta fosse “dar importância ao Rito”. Qual? Não interessa, ao Rito. Qualquer um. Da cerimônia do chá, dos japas, ao chá das 5 dos ingleses. Da cerveja de terça com os amigos ao almoço de domingo com a vovó. Da missa das 7 ao café na cama, pra acordar o amor com beijinhos nos olhos, depois de abrir a cortina no sábado de manhã. Do jeito de colocar o chinelo paralelo ao lado da cama, ao jeito de dobrar o guardanapo do lado do prato do pai de família. Todo rito, se tem a ver com a cortesia, com o aprimoramento, com o estabelecimento de forças, regras, atitudes, cultura, deve ser preservado. Marcialmente falando. O rito é como o fogo que forja a espada.

Por 25 anos fiz Karatê formalmente. Hoje, uso meu Karatê ao atravessar a rua, para não brigar no trânsito, ao concentrar no trabalho, quando cortejo minha gueixa pequena, de riso fácil. O rito preservado ajuda, sim, na formação da personalidade, no caminho da sinceridade ou da verdade – acho que pode estar mais certa esta tradução -, na resiliência do espírito de empenho, também chamado de ALMA e, até, pra reprimir nossos próprios atos brutais...

Que gueixa não gostaria de entreter um guerreiro assim? Enquanto estiver no Bushido, o Caminho do Guerreiro, eis porquê lutar, eis o bom motivo para minha espada brincar com o vento. Mesmo que Karatê signifique "mãos vazias"... Sob o quimono do guerreiro se esconde o homem. Sob o quimono da gueixa se esconde a mulher. Que os ritos possam preservar o encontro.