terça-feira, 6 de agosto de 2013

E o canal se chama bis.



Eu vivo no mundo do Naldo. Não, eu não sei quem é o Naldo. Eu sei que ele apareceu na frente de uma dezena de mulheres de biquini suadas, felizes, contentes, pulantes na minha tv por assinatura e eu parei pra ver do que se tratava. E descobri que vivo no mundo dele.
Parabéns, Naldo, o mundo é seu.
Deve ter muita gente dançando essa sua música depois da meia noite nos casamentos nos dias de hoje, quando o whisky já fez efeito, e não importa mais quem está de terno, de vestido de mais de 2 mil reais, quem pagou 500 reais em uma maquiagem ou esperou 3 horas em um salão de beleza. Toda essa muita gente "quer é mais".
Interessante: vodka ou água de côco pra você tanto faz.
Pra mim, não.
Mas não vivemos no meu mundo. Vivemos no seu.
No seu mundo, foda-se a letra. No seu mundo, foda-se a música. No seu mundo, foda-se a compostura. E não estou falando da sua letra ou da sua música. Estou falando da letra e da música do seu mundo, do mundo em que vivemos.
Com postura? Sim, de quatro, melado, suado, cheio de maldade. Bom, me desculpe se fui muito forte usando a palavra "foda-se". É que achei que combinava com o contexto da música que ouvi, sabe? Porque não importa se são 14h e qualquer um pode ver que "você gosta quando fica louca" no canal BIS. É que minha filha de 2 anos e meio já sabe mexer no controle remoto da televisão. E sabe mexer os quadris. E gosta de ritmo. E tenho muita pena de saber que no seu mundo, onde ela vive, ela pode lhe ver se lixando se é vodka ou água de côco. Eu tenho a esperança que ela se importe verdadeiramente com essa diferença.
Sabe, Naldo, eu não tenho nada contra melar, suar, beber whisky, vodka ou água de côco. Só acho que pra mim, no mundo que eu gostaria de viver, faz, sim, muita diferença. Até o horário pra isso. Acho que seria o mínimo do mínimo. Mas não vivo nesse mundo. Vivo no seu, Ronaldo. Ou melhor, Naldo Benny.
Fui no Wikipedia, a nova enciclopédia dos ignorantes como eu que vivem no seu, no nosso mundo. Descobri que suas influências são Cris Brown, Kanye West e Jay-Z.
Muito prazer, Bê Sant'Anna (viu só? pra tentar me sustentar no seu mundo, eu também tenho nome artístico com apelido).
Sabe Naldo, eu queria muito gravar um CD pra você.
Acho super legal o seu brinco de brilhante, estilo jogador de futebol bem sucedido. Acho interessantíssimo o seu boné de rapper americano. Acho o máximo você usar a bandeira do Brasil do lado esquerdo do peito. Acho tudo muito coerente e edificante. Aliás, acho importantíssimo você saber contar até quatro. Minha filha de 2 anos e meio sabe contar até vinte. Só que no vinte ela fala "dezedez".
Acho muito legal quando você ensina a gente no clipe onde é "em cima" e a relação que isso tem com o "alto". Acho didático e profundo.
Acho que o que mais gostei na enciclopédia dos burros quando procurei seu nome foi o que cito aqui sobre suas influências:

"Suas músicas são classificadas como dos gêneros funk melody, Hip Hop Funk Carioca e Pop romântico. Naldo disse que não se interessa pelo Funk Proibido, afirmando: "Eu nem entro neste universo, acho que não precisa ser assim. Dá pra fazer um som para cima, animado, com nível e sem perder a classe." Ele cita Chris Brown e Kanye West como suas influências musicais".

"Com nível" foi o que mais me agradou. Fico pensando se, no que tange a profundidade, ele se encaixaria no nível box de banheiro.
Quando estudei o processo de pasteurização dos leite longa vida, que passam por um filme e esquentam a altíssimas temperatura pra tirar as bactérias, entendi o porquê chamam a música atual de pasteurizada. Deve ser porque a profundidade é de uma película e esquentam ela até que as bactérias que contaminam a inteligência e nos fazem pensar morram em definitivo. Assim, podemos beber essa coisa choca, aguada, sem gosto de leite - ou de teta entumecida, se preferir.
Sabe, Naldo, não tenho absolutamente nada contra você. Até acho que você é afinado, independente de ter usado ou não um programa como o Auto-tune no seu processo de gravação, mixagem ou edição.
Quero que você venda igual ao padre Marcelo e fique rico e famoso igual ao Justin Bieber, ou o Timberlake. O mundo deveria mesmo ser mais Justin. Só fico triste de saber que no mundo em que você vive, minha filha também vive. E que por mais que eu a apresente Stevie Wonder, Gilberto Gil, Tavinho Moura, Claude Debussy, Heitor Villa Lobos, Renato Motha, Chico Buarque, Roberto Corrêa, Patativa do Assaré ou Celso Adolfo, sempre vai haver um box de banheiro onde se misturam whisky a água de côco na hora de tomar banho pra ir pra aula. Afinal, no seumeu mundo, não querem impedir que as crianças leiam Monteiro Lobato porque seria políticamente incorreto?
Que se foda o mundo, monge ou não, eu atiro o pau no gato.
Aliás, só no mundo da idiotisse completa não se pode cantar "Atirei o pau no gato" e se pode cantar "Vodka ou água de côco pra mim tanto faz".




Vodka ou água de côco pra mim tanto faz

Gosto quando fica louca

E cada vez eu quero mais
Cada vez eu quero mais
Whisky ou água de côco pra mim tanto faz

Eu já tô cheio de tesão
E cada vez eu quero mais

Cada vez eu quero mais
Um, dois, três, quatro

Pra ficar maneiro eu jogo o clima lá no alto

Alto, em cima! Alto, em cima!
Alto, em cima! Alto, em cima!

Em cima! Em cima! Em cima! Em cima!
Eu não tô de brincadeira, eu meto tudo eu pego firme pra valer

Chego cheio de maldade, eu quero ouvir você gemer
Eu te ligo e chega a noite, vou com tudo e vai que vai
Tem sabor de chocolate o sexo que a gente faz
Corpo quente, tô suado, vem melar e vem lamber

Só o cheiro, só um toque, já me faz enlouquecer

Já me faz enlouquecer
Vodka ou água de côco pra mim tanto faz

Eu gosto quando fica louca

E cada vez eu quero mais

Cada vez eu quero mais
Whisky ou água de côco pra mim tanto faz

Eu já tô cheio de tesão

E cada vez eu quero mais

Cada vez eu quero mais
Um, dois, três, quatro

Pra ficar maneiro eu jogo o clima lá no alto

Alto, em cima! Alto, em cima!
Alto, em cima! Alto, em cima!

Em cima! Em cima! Em cima! Em cima!
Eu não tô de brincadeira eu meto tudo eu pego firme pra valer

Chego cheio de maldade, eu quero ouvir você gemer

Eu te ligo e chega a noite, vou com tudo e vai que vai

Tem sabor de chocolate, o sexo que a gente faz
Corpo quente, tô suado, vem melar e vem lamber

Só o cheiro, só um toque, já me faz enlouquecer

Já me faz enlouquecer
Um, dois, três, quatro

Pra ficar maneiro eu jogo o clima lá no alto

Alto, em cima! Alto, em cima! Alto, em cima!
Alto, em cima!
Em cima! Em cima! Em cima! Em cima!

2 comentários:

JrThEpOwEr disse...

Amei este texto compartilhado pela amiga Laura Barreto. Hoje de manhã acordei com crise de identidade, e veio um pensamento: queria que o avião do Naldo e da Anitta colidissem. Parei, refleti e gostei da idéia, na verdade amei. Mandei uns torpedos para uns amigos perguntando se era maldade, porque, no mundo atual, nem se mais o que é maldade e bondade. Agora entendi perfeitamente, o Mundo é do Naldo.

Ana disse...

Me lembrei de uma vez em que estávamos na Bahia passando as férias e à noite na área da piscina do hotel o pessoal fazia uns shows temáticos, regionais, essas coisas pra turista. Índios, capoeira, e no fim, música bahiana, axé e pagode. Lá pelas tantas, o apresentador convocou as crianças para participar de um número, e lá foi uma menininha que devia ter uns 4, 5 anos. O cara colocou uma garrafa no meio do palco e a dançarina foi lá demonstrar a coreografia que a menininha teria que imitar, tocando uma música que até então a gente não sabia qual era, que a gente nunca tinha ouvido antes. E vai descendo na boquinha da garrafa, vai ralando na boquinha da garrafa... Levantamos e fomos embora. Era absurdo demais. E triste demais também.
Até brinco que a bagaceira às vezes pode ter o seu lugar, mas tem limite. As pessoas deveriam escolher este lugar, se elas quisessem, quando elas quisessem. O que a gente vê de clipe pornô e música pornô pra menores é triste!