sábado, 8 de setembro de 2012

O estribilho do amor




Já comentei aqui sobre o diálogo de Jodie Foster e Matthew McConaughey (putz, conferi 3 vezes o nome desse famigerado pra escrever aqui no blog - imagino ele aprendendo a escrever o nome na escola, tadinho). Ele, reverendo. Ela, cientista. O embate entre ciência e religião posto à mesa. Zapeando, depois de suspirar com a Sharapova, caio justamente na cena que já vi várias vezes:

Festa, filme Contato, ele diz:
- Não imagino viver num mundo sem Deus.
Ela: - eu preciso de provas
Ele: - provas? você ama seu pai?
Ela: - sim, muito.
Ele: - prove.

É assim. Amor não se prova. Deus se prova. Tem gosto de amor. Amor se prova. Tem o tempero de Deus.

No filme, dentro da máquina espaço temporal em que faz a viagem extra terrestre, ela finalmente encontra galáxias, vislumbra o espaço, toda a criação, o uni-verso palavra de Deus, prova o sabor de saber além da crença, e diz:

- deviam tem mandado um poeta! eu não tinha ideia!...

Não, ninguém tem. Porque não passa pela ideia, pela razão, pelo raciocínio: o discurso lógico. A linguagem final mente, falta. E só o poeta, o músico, o artista plástico, só a arte, a poesia, a música. Só na fronteira entre a linguagem e o etéreo, a linguagem e o amor, a linguagem e Deus...

O ET conversa com ela. E diz que é assim. Que a vida é assim. São só sonhos e pesadelos. E que o vazio insuportável da existência só se cura com o Outro. E tudo termina em um beijo. Nesse caso, na testa dela. Me lembrei da dona Rosinha. Morava sozinha em um barracão no meio da estrada de terra indo para o meu sítio. A gente parava lá, minha mãe levava comida, biscoito, suco. E dona Rosinha despedia dela dizendo: dá um beijo na testa do seu marido, em sinal de respeito. Fico pensando se dona Rosinha assistiu Contato. Ou se o roteirista de Contato conhecia dona Rosinha.

A noite vem, e finalmente eu sonho. No sonho, minha avó paterna. Meu avô paterno (o poeta). Minha madrinha e meu padrinho. Meu padrinho me ajudava a reformar minha casa. Ele arrancava a janela principal. Peço ao meu avô: - o vô, faz um verso pra mim? E ele responde: - um verso não, um estribilho...

A diferença dos dois é que o estribilho também é um verso, mas uma espécie de refrão. Um que se repete ao longo do poema, que dá o tom, que retorna ao tema, que induz o ritmo, um mantra dentro do poema, acho que posso assim definir.

Sim, vô. Me faz um estribilho. Pedi a bênção pra minha madrinha com um beijo na testa, enquanto meu padrinho me ajudava a refazer a minha casa. Nela, um pé direito alto, sem paredes externas, aberta para o mundo.

No estribilho da construção poética da minha casa, a prova de Deus é o tempero do amor.

E a vida segue, seus mistérios.




2 comentários:

Lenda Brigia disse...

Maravilhoso, poeta... cada dia temperando melhor as palavras. Te amo... mas não posso provar!

Bê Sant Anna disse...

Não pode ME provar. hehehe
Também, sua muxiba.