terça-feira, 31 de julho de 2012

Makiwara do amor.


O amor bate à porta do hotel simples, na cidade do interior. Janela simples, sem armários, sem banheira, sem sofá, sem decoração. Ainda assim, ouço o amor batendo. Ele bate batendo, toc, totoc-toc... é ele mesmo. Pela batida eu sei quando é. Ele bate quando cumprimento a moça do balcão. Bate quando pergunto o nome da atendente do restaurante do shopping, bate quando a cozinheira ri pra mim, vítima da minha brincadeira de menino. O amor bate. Alguém, algum dia, vai convidar o amor pra participar de um vale-tudo, só pode, um UFC. Porque o amor bate pracaralho. Eu não deveria ter dito assim, pra não perder a poesia, mas não tem jeito não, ele bate demais mesmo. Ele bate de levinho, bate com força, bate em menino, bate em moça, bate em velhinho. O amor bate a qualquer hora do dia ou da noite. O amor bate no banheiro, bate na sacada, bate no sótão, debaixo da escada, o amor bate na goiabeira lá do sul do país. Com ou sem goiaba. O amor é danadinho. O amor é um sacana, ele bate quando a gente nem sabe cama, quando a gente já se esqueceu dele, quando a gente acha que ele morreu pra sempre... Tenho achado. Também, tem amor até no jiló salteado na manteiga, no aperto de mão do Alex Atala na sala de embarque, na dona que achava graça da filha sem-graça na cadeira ao lado. O amor é um tempero do vento. O amor bateu mais cedo, quando comi cará olhando pra foto da minha filha, quando acordei e vi o bercinho dela sem ela no meu quarto, no sítio, quando olhei pro nascer do sol na mata, pelo vidro do banheiro, pros lados de lá... Enquanto escrevo, ouço batendo. Enquanto tomava banho, batia molhado. Dormindo, sonhei com ele. Não, no sonho o amor não me batia, me espancava. O bichinho não cansa. Nem toma ar. E o desamor, coitadinho, até tenta, mas ele não bate não. Com esse chassis de grilo, o desamor não tem chance alguma. Sou saco de pancada do amor. Sou João Bobo. Sou makiwara do amor.
Quando ele bate em mim, agradeço. Às vezes canto, às vezes danço, às vezes choro, às vezes sorrio. O mistério da força do amor move. Fonte inesgotável de energia. Quando estiver preparado, pode saber, ele bate. Pode estar batendo agora mesmo. Você quem não parou e fechou os olhos pra ouvir.



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