quarta-feira, 13 de junho de 2012

O caçador frouxo e o terror de ser príncipe




Agora é a minha vez.

Eliane Brum fez seu comentário a respeito do filme Branca de Neve e o Caçador. Muito inteligente e muito próprio (ela é demais). Disse ela, no subtítulo:

"Neste conto de fadas para mulheres adultas, uma ruga vale uma alma."

Ok. Mas e a homaiada? O que tem a dizer, pensar, refletir sobre Branca de Neve e o Caçador? Duas coisas me vêm de imediato: a primeira delas foi o comentário da minha amiga e Consultora Para Assuntos Femininos, ao término do filme:

Eis, finalmente, o conto para a mulher contemporânea! Você viu? Ela vai ficar com os dois! (e mais pra frente, quando cada um pagava o seu estacionamento do shopping:) Sabe de uma coisa, Bernardo, as mulheres só ainda não dominaram o mundo por causa da disputa que sempre há entre elas. Mesmo quando são amigas!


Sobre isso, 2 coisas: 1 Eliane Brum tem razão. Sobre as considerações que fez sobre o universo feminino, seu processo de emancipação, seus medos, o embate entre a velhice e a juventude e a busca incessante pelo consumo pela qual estamos (todos) hoje aprisionados. A mulher que se oferece imagem quando poderia se oferecer Mulher... 2 Que pena que ela vai ficar com os dois, Consultora. Os homens não merecem isso.

Nem as mulheres.

O filme não tem nada gratuito. Nem os efeitos especiais, que estão exclusivamente a serviço da trama, da história. O filme tem cenas bem feitas, iluminação interessante, uma trilha que não é interessante, mas não incomoda, figurino bacana, roteiro quase impecável, a não ser por uma ou duas sequências. Ok. E o filme tem os dois homens citados pela minha amiga.

Um é o amigo de infância, o príncipe que tem nome de príncipe, é escovadinho, bonitinho e coisa e tal. O outro é o garanhão. O que tem olhos azuis, que tem a barba mal feita, cara de sujo, de homem, toma umas, faz coisa errada, cara de forte, de espada, de caçador, enfim, escolhido pra ser o Objeto de Desejo Projetado pra Consultora que estava ao meu lado e as outras mulheres que virem o filme.

Pois bem. (se não viu, pare de ler aqui)

Acontece que os dois "ficam" com ela - para usar o jargão disseminado na juventude pegadora. E acontece que nenhum dos dois fica com ela. Esta é a segunda coisa que me vem.

Me explico. Podemos tomar o beijo de cada um deles na princesa como símbolo da pegação. Para mim, o esperado acontece: está tão na cara que o caçador é escolhido pra ser O desejado pelas mulheres que vão ver o filme, que é o beijo dele que vai despertá-la, não o beijo do principe William. Ela, que está dormindo, não pode ser julgada por "ficar" com os dois. E o filme, por mais que indique a possibilidade de escolha da princesa, só deixa óbvia a escolha das mulheres que vêem o filme. Minha Consultora, nesse ponto, tem razão. O filme dá abertura pra análise dela, de que a princesa vai (ou pelo menos pode) ficar com os dois.

Em uma sociedade de consumo, onde o papel do homem está em crise e se relativizam os tantos papéis sociais ligados ao gênero e às escolhas de homens e mulheres, me pergunto o que vem pela frente.

Veja: Os dois entram na floresta negra e vão atrás da princesa. Nenhum dos dois recebe crédito por isso. Enquanto o príncipe William é taxado de bobo e filhinho de papai, o caçador que tem olhos azuis, que tem a barba mal feita, cara de sujo, de homem, toma umas, faz coisa errada, cara de forte, de espada é o mesmo que diz que tudo que ele realmente amou foi tirado dele. Ou seja: ques machos são esses?!?

Vamos parar com a sacanagem! Homens, levantai-vos! Uma amiga comenta que é lindo o big brother "Alemão", pseudo truculento chorar pela mulher amada de saudades na frente das câmeras. O 007 - que devia ser o bastião do homem macho contemporâneo - é morto no último filme e ressuscitado por uma mulher. Agora, o caçador é frágil, o príncipe não tem cavalo branco (nem espada! Só arco e flecha!), a mulher pode ficar com os dois que ainda assim vai ser coroada e ninguém fala nada, parece que ta tudo certo, que agora é assim, e problema meu que não entendo isso... Putz. Só pode ser um complô. Depois a mulherada reclama que tá faltando homem na praça.

A desavisada feminista comentaria de bate-pronto: – Bem-feito! Não eram os homens que ficavam com várias? Agora estão tendo o troco! Sinto muito. Eu não acredito nisso. Acho que as mulheres não perdem nada sendo mulheres, até porque, gostamos delas JUSTAMENTE por isso, enquanto acho que os homens não perdem nada por serem homens. E inteligência e sensibilidade, acredito, não tem nada a ver com ser macho ou fêmea. Acho inteligente abaixar a tampa do vaso porque é educado e respeitoso e acho inteligente abrir a porta do carro porque delicadeza significa cuidado, não gayzisse. Estou cagando pra opções sexuais - me descupem a tosquice do termo, acho que isso nem deveria ser pauta de discussão, cada um sabe de si e merece amar o gênero que lhe atrai, acho óbvio - mas continuo, apesar disso, achando que homem deve ser homem e mulher deve ser mulher. E um deve cuidar do outro. Da maneira que pode, sabe e consegue.

Eu comprei uma espada, mesmo sabendo que nunca vou usá-la. Já fui e já não fui o provedor da mulher amada. E sei que me importa muito o que se passa no coração (no meu e no "dela"). Achava que o filme seria uma sessão da tarde. E está me fazendo pensar muito. Acho que também vou escrever um subtítulo pro meu post menos inteligente e mais visceral que o seu, Eliane:

"Neste conto de fadas para homens adultos, explorar a alma feminina vale uma ruga de preocupação."        



Um comentário:

Bê Sant Anna disse...

É fundamental e absolutamente urgente que se comente que a Charlize Theron - quem faz a bruxa - não deve ser manicure, poque ela realmente não tem base. Vai ser bonita assim lá em casa, minha filha.