terça-feira, 15 de maio de 2012

Para Eliane Brum e Beatriz



Bem dito.
Eliane Brum escreve às segundas feiras no sítio da Época. Acompanho, com entusiasmo, sua sensibilidade e perspicácia, suas conexões contemporâneas. Nesta segunda última, quando tive a graça de ver minha filha depois de exatos 3 meses, Eliane me dá um lembrete, no meio da minha aflição:



"O que sou eu? Talvez o olhar terno para as duas escovas de dentes que repousam num copo de plástico na pia do hotel."

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/05/quanto-tempo-permanecerao-os-hieroglifos-de-steve-jobs.html


Sei da não permanência das coisas, Eliane. Sei mesmo. Já perdi meus avós, já perdi amigos, tios, pessoas importantes, já terminei um casamento, já terminei um quase-quase casamento (que dor!), já perdi amores... Já perdi projetos, já perdi amizades. Já perdi o respeito, o meu e o de outros..., tenho perdido ao longo da vida. Por minha culpa, minha tão grande culpa.

Tenho? Pera um pouco. O verbo é ter ou estar? Ter tem um quê de permanente e estar de temporário? Me pareceu ato falho, né?

Mas... quero lembrar Thomas Mann, querida Eliane Brum: "É o amor, não a razão, que é mais forte do que a morte". Por isso, quando vejo minha filha, sei o que NÃO vai morrer, o que não se perde, a independer das condições impostas "liminarmente" ao meu encontro com ela. O documentário A Morte Inventada, sobre alienação parental, deixa claro o que não morre: O AMOR.

Há mar, minha filha. Há mar, Eliane Brum. Eu sei que vocês sabem disso, e sou grato por me lembrarem.

Ontem, quando olhei pra minha filha, acredito que o fiz igual a você com as escovas de dentes no copinho de plástico. E é tão lindo, e é tão terno, e é tão mágico e profundo, que nem sei... aliás, "sei" é da ordem da razão... não posso saber mesmo. O negócio aqui é sentir. E olhar, que é o que nos resta.

Filha, veja que curioso: liminar-mente. Chega a ser engraçado, né? Pelo menos no amor, como diz o poeta pop "temos todo tempo do mundo".

Também sou só meu olhar, Eliane. E sinto a mesma compaixão pelos que têm medo da morte, a pedir colo desesperados pelos feicebuquis da vida... Sou só meu olhar e a vontade poética de me redimir e de ser melhor em nome do Há Mar.

Leia Eliane Brum. Vai nos fazer bem enquanto estivermos aqui.


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