terça-feira, 27 de março de 2012

O Ninho da Coruja




Tem um ninho de Coruja no meu coração. 

Da Grande nasceu uma Corujinha que acabou de acordar e alçou seu voo do mais alto despenhadeiro. De Corujinha, virou Coruja. E sua mãe, de Coruja virou Corujona. Eu, lagarto, não sei voar. Ousei querer acompanhar a troca de penas, a muda, o novo viço, o pio, o grito, enquanto suas pupilas se contraiam pela luminosidade do sol, que veio pra esquentar as asas. Quando voou, sua mãe leu pra mim o texto que achou no ninho, e me pediu pra cravar aqui, na minha montanha de sonhos, como homenagem da mãe à jovem e bela Coruja em curva perfeita no céu:

"Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Quero muito ser. Ser sempre.
Eu gosto muito. Eu gosto muito de tudo, de todos. Me perco! Vivo num fluxo gigante de idéias que carregam meus pensamentos e os levam para uma dimensão que nem eu mesma entendo. Da maciez de todos os atos, da pele vem a música, a poesia que completam um todo, um meio e o redor.
Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Ser sempre.
Quero tanto pecar e não sofrer. Eu não sofro. Quero soprar velas infinitas em bolos de coberturas doces. Ah, como é grande a minha vontade de estudar todas as línguas. Como é grande a minha vontade de passear no passado. Como é grande a minha vontade de entender a física quântica. Como é grande a minha vontade. Tenho tanta vontade. Tenho tanta vontade que não cabe. Não cabe mais nada dentro de mim. Não consigo prestar atenção em nada. Minha vontade é tão grande. Tenho muita vontade. Dentro do meu peito tem uma borboleta que bate as asas e voa até onde os olhos se perdem. Sou feita de líquido vermelho, quente, ardente. Corrente de vento, de água. Corrente corrente que corre. De saias floridas, óculos escuros, verão, inverno, primavera, ontem, hoje e amanhã. Todas elas, todos eles, tudo aquilo, isso, outro. Sem ver. Sem ouvir. Quero sentir, ah. Quero não precisar respirar, não precisar pensar em nada. Que se danem as minhas necessidades humanas, que se dane a minha humanidade. Que vontade que eu sinto de tocar e não pensar.
Que vontade que eu tenho. Não quero promessas, promessas são dívidas e eu quero me livrar disso tudo. Me encontra no seu passado, me faz seu futuro, me engole no presente. Todos os dias fundidos no ontem, no amanhã, no depois. Dia de nascer, expulsar-se para o mundo, cantar e chorar pra todo mundo ver. Que toda manhã seja um novo nascimento. Que todos os dias me acordem sem lembrar de nada, lembrar é muito bom. Esquecer também.
Passar debaixo da escada dá um medo. Tenho medo de escuro, pavor de altura e horror de cobra, escorpião. Tenho um medo absurdo de que meu dentro saia por um poro. Que meu carnaval interno se transforme numa poeira colorida brilhante para todo mundo pisar e se banhar.
Quero me banhar no banho dos outros. Quero ser os outros, eu sou os outros, sou todo mundo. Todo mundo tem um pedaço meu. Quero meu nome tatuado em todos os pescoços, minha tinta gravada nas paredes e muros. Quero ser eu e ninguém. Casa, comida, roupa e cara lavada.
 Mensagem no celular, eu te amo. Eu amo muito, amo tanto, amo tanto, quero tanto. Amo tudo. Não quero virar estatua no meio da praça, quero virar um buquê de flores. Ler todos os pensamentos e não saber de nenhum. Viver pra sempre é um pesadelo, o fim é inevitável. O fim longe, isso sim. Ter tempo é muito bom. Ter tempo para pensar sobre os homens das cavernas. Quero ver no escuro, seguir meu cheiro no final do túnel.  Canalizar.
 Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Quero muito ser. Ser sempre. Eu gosto muito. "

Ah, que voo lindo é esse, que não me é permitido acompanhar... ouso apenas amar o curso, acompanhar as parábolas perfeitas que voam vento na simplicidade entusiasmante de ser. 

Coruja, não queira mais ser. Porque é. Sempre foi. Estava lá. Está hoje. Queira, por isso, só estar. O Presente do ser é o estar. Por isso vem no embrulho com laço. Se o fim é inevitável, o estar. Aprendi isso a duras penas... e olha que sou lagarto. Queira sempre e só ESTAR.

E, talvez, a pista semântica e fonética nos dê o caminho... Star! 

Encontrei a palavra EU em sEU voo. De longe perto, lhe fito com o meu carinho.


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