quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sou biruta, Michelle.



Michelle Loreto, quer se casar comigo?
Você não é a moça do tempo?
O tempo brinca com a gente, Michelle. Não passa. Está sempre aqui. O tempo sempre. O clima muda. Mudamos pra não envelhecer. A chuva nos molha, o sol esquenta e o vento faz cócegas na expectativa do moço, que vê a moça atravessar a rua de saia. Você me dá bom dia enquanto penso no hoje, apesar do clima, independentemente dele. Biruta.
Você se dá bem com o tempo, Michelle? Aos 32 anos, ele se mostrou carinhoso contigo. Nem o sol de Recife, nem o alótropo triatômico de São Paulo deram conta da sua beleza. Assim como eu e minha poesia.
Acordo de acordo contigo. E escuto o que me espera no clima de hoje. Quero andar à pé, sou amigo da chuva, mas quero a dica da moça do tempo. Talvez me diga que a previsão não é de sol, é de riso, talvez me diga que o frio que envolve o corpo não arrefece a alma, que o agora é o tempo do somente, que a neve no Japão só serve para virar haikai no espírito de Matsuo Bashô.
Não há casaco para o outro clima, Michelle. É dele que espero ver você falando no meu ouvido, colada ao meu pescoço, não através do cristal líquido, do tubo de imagem, das ondas eletromagnéticas. Nosso magnetismo podia bem ser outro. Droga, já caí na tentação de pensar um futuro possível, Michelle. "Podia ser". Como se o futuro pudesse ser algum dia.
Estar ou star, Michelle?
Você, do tempo, sabe que o futuro não existe, Michelle. É como a morte. Caminhamos inexoravelmente para a morte sem nos desvencilhar da vida. E da expectativa da morte. A dicotômica noção nos dá as mãos enquanto caminhamos, uns mais lentamente que os outros. Caminhamos inexoravelmente para um futuro que não existe, colados no hoje. O presente a ser eternamente desembrulhado enquanto pensamos que o eternamente existe.
Quero suas dicas, Michelle. Quero que vá para fora das casas comigo e a gente possa olhar juntos o tempo.  A tarde que cai, a expectativa que cai, a máscara que cai, até a gente decidir se amar sem tempo pra acabar, já que o hoje finalmente vai ter mostrado sua cara pra nós. Com seu clima verdadeiro, sem mapas, sem previsões, sem projeções, sem gráficos. O tempo do olhar. O tempo da gente de mãos dadas, olhando o tempo, sentindo o vento, avermelhando a tarde e escurecendo a noite. A gente podia anoitecer num abraço, Michelle. E se casar só hoje. Enquanto o hoje existir e o tempo for bom, infantilmente leve como uma bolha de sabão.

   

2 comentários:

Daf Duffy disse...

Adorei! Primeira visita e estou encantada!

Bê Sant Anna disse...

Sou grato por ler e comentar. E volte sempre, Daf Duffy. Tem muuuito texto pra lhe acompanhar nas horas dos cafés. :)