sábado, 10 de dezembro de 2011

Sobre os benefícios espetaculares dos bioflavonóides, ou quase isso.




Em vez de falar sobre o dia de chuva, sobre como a chuva caia na areia da pista de montaria do restaurante de comida mineira que serve as pessoas que pra lá vão produzidas, fingindo estar casuais, em vez de dizer o porquê deu insistir em ir lá comer torresmo, mexido, ovo frito e couve, em vez de dizer que acredito nas palavras da dona do estabelecimento que me chama de querido toda vez que vou lá, porque me conhece, porque vou lá sozinho, porque acho que ela deve imaginar porque vou lá sozinho, porque eu tenho um carinho especial por ela e pelo projeto dela, independentemente de ser um projeto pseudo-elitista, porque me parece sinceramente verdadeiro, em vez de dizer o gosto que tenho quando lá compareço a independer da companhia ou não que eu esteja, a independer da frequência ou do hábito, independentemente da qualidade da feijoada que lá é servida e, em vez de falar dela resolver falar de outra coisa, em vez dela e em vez da criança que chegou no carrinho e que fingi por um momento estar olhando pra ela para não parecer ousadia minha estar olhando para aquelas pernas maravilhosas que se colocavam ali na minha frente, inadivertidamente, em vez de falar do comprimento do vestido branco de um ombro só que tapava só o que tapava, independentemente deu, via de regra, ter um certo preconceito com vestido de um ombro só, achar barango, achar meio sem classe, independentemente da amiga dela usar uma bermuda jeans cortada e dobrada bem no alto da coxa e de ter uma bota gigante preta que vinha até quase o meio da coxa e usar os cabelos acima do ombro e uns brincos gigantes e um colar exagerado pra caralho, ter uma voz bonita mas parecer que estava fazendo uma homenagem ao Gato de Botas, em vez disso, e da menina da frente que estava sentada com o namorado estar com uns quilos a mais - tipo uns 8 - para os padrões excessivos contemporâneos e de sua blusinha creme com pequeninos babados não tapar o seu cofrinho quando se sentava no banquinho depois de pegar um prato de doce e de vir me olhando e pensando - Esse cara vai ver o meu cofrinho quando eu me sentar... - mesmo independentemente disso e, em vez de falar sobre isso, ou sobre como bateu aquele vento de chuva e os pelos de cima da bunda dela, na região do cofrinho, ficaram bem eriçados, ou sobre como eu ficava absolutamente alheio a isso tudo entretido no meu livro que eu gostaria de terminar de ler antes de ver o filme que já está em cartaz, mesmo assim, e em vez disso eu ter resolvido falar sobre outra coisa que não o fato de ter uma menina linda morena de vestidos compridos e eu estar absolutamente só, só, somente só, assim vou lhe chamar, assim você vai ver, como disse a música, mesmo assim, e mesmo eu tendo resolvido que ao invés de falar disso eu resolva que não é o caso de falar sobre estar aqui em casa deitado na cama, porta fechada, ouvindo o sino do mosteiro, pensando que nada e nem ninguém deve me tirar daqui nas próximas 16 horas, pelo menos, e em vez de falar que eu estou de meia, de boné, de cueca e óculos deitado na cama, em vez de falar que eu tô comparando a perna daquela gostosa com a perna de outra pessoa, em vez de falar que eu tenho dó, tanto do juninho que namora com aquela gostosa   de gosto duvidoso quando da gostosa de gosto duvidoso que namora com um juninho, que não deve saber nem tirar a meia, em vez de falar disso, acho melhor falar de outra coisa. Queria falar que eu comi a couve toda. Afinal, diz minha tia que couve é cicatrizante.

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