sábado, 31 de dezembro de 2011

Nude




Naked.
Acordei às sete e pouco. Pelado, puxei o macbook para o meu colo antes de acender a luz do quarto. Depois de ver que haviam comentários na folha de rosto do meu iphone. Pelado, abri o email e descobri que não há resposta para a vida. Só perguntas. Quais, enfim, devo fazer? Talvez o truque seja esse.

QuAndo pergUntas peladas, deSejos dEspertos.

Seja esperto.

Esperto, me levanto. Pelado.

Acordado, saio andando pela casa, depois de fazer xixi, vou deixar pra escovar os meus dentes depois do café. Estou sozinho mesmo...

Entro pelado na cozinha e vejo a máquina de fazer pão. Comprei com vontade de fazer do meu café da manhã mais um ato de amor. E, de certo modo, fiz.

Os ingredientes pelados que coloquei ontem à noite, depois que cheguei da casa da minha professora de francês, que fez aniversário, viraram pão. E ele está ainda morno.

Morno e pelado como eu.
Morno e pelado, como eu.

Antes, faço um café. Com o pó de café que veio do sítio do meu pai. Os dez pézinhos de café todo ano se transmutam em safra, que meu pai presenteia gentilmente com pós de café pelados, com um rótulozinho de brincadeira, Café Matinha, safra 2011. Este ano, pude ganhar 4 saquinhos. Presenteei só duas pessoas. Espero que elas tomem este café peladas.

Aprendi a ficar pelado com o Amor. Nunca havia dormido pelado. Eu não sabia que podia ficar pelado. Eu não sabia que era permitido ficar pelado, me sentir pelado, encontrar pelado, abraçar pelado, ser pelado.

Um dia, há muito tempo, tentei cozinhar pelado. Achei que seria o momento de trangressão mais incrível do mundo, que minha companheira à época ia entender que eu queria que o mundo fosse pelado, que a gente se visse pelado, encontrasse pelado, se amasse pelado, fosse pelolado do amor.

Ela achou nojento cozinhar pelado. Sujo. E eu só estava pelado. Pelado e de avental, pra não espirrar coisa quente na coisa quente.

Bem depois disso, conheci de fato o que posso chamar de Amor. Antes, conhecia a dúvida e suas vestes. As vestes da dúvida, me diziam que o amor estava ali. Que mentira... Como num viés distorcido da fábula do Rei Nu, de Hans Christian Andersen*, que encomenda o tecido mágico, eu vestia uma peladeza mentirosa, até o dia que percebi que não era amor que vestia, era propaganda do amor. E, você sabe: propaganda é propaganda. Não é, de fato. Propaganda é só uma veste que imita o vestido, seja ele qual for.

Detesto macaco de imitação.

Hoje, aprendi dormir pelado. Aprendi acordar pelado. Aprendi cair, levantar, amar, chorar, sentir dor, esperar passar, voltar a rir, sonhar pelado. Fiz o Caminho de Santiago e ao final do caminho entrei pelado na Catedral. Foi incrível. E ousado. Pela manhã do dia 31 de dezembro, tomei o café mais pelado de 2011. Com o pão que fiz pelado, com o café que meu pai faz pelado, e que dá aos outros pelado. É bonito ver meu pai dando o café para os outros pelado. Apesar de sua brancura. Eu, moreno, comi meu pão, bebi meu café. Atendi o celular com minha tia do outro lado da linha apenas me desejando PAZ para o ano novo e: - "deixa o barco correr!" disse ela.

Vou, tia. Em 2012 vou navegar pelado. E, se der, aproveito pra nadar pelado. Sou grato ao Amor, que ensina a gente a andar por aí, nu.

Que você, que me lê nu, também possa navegar, nadar e amar pelado em 2012.



* vale ler o mestre Rubem: http://www.rubemalves.com.br/oreinu.htm
e conhecer Spencer Tunickhttp://www.spencertunick.com/

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