sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Katana




Olho no relógio e os números se repetem. Olho pra dentro e você se repete.
Não encontro conforto no olhar da minha mãe, não encontro acalento no abraço da amiga, no braço do pai, na palavra medida, no suspiro da irmã.
O mundo testa a gente. O caminho tem lama, tem trama, tem drama, tem brahma. Excessos que desmedem quem sou, até onde vou, até onde voo.
Lhememisturo. Sememisturo. Desmefaço. Desencontro.
O tempo passa. Minha filha cresce. O dente que me obrigaram a não ver nascendo, nasce. Em pé como não pude ajudar a levantar, fica. Sua chuquinha que eu não pude pentear, vira franja. Seu choro que não pude trasformar em riso, sufoca o peito partido.
Sentido. Estufa o peito.
O casamento se foi, a paixão se foi, o amor se foi, a amizade se foi, a infância se vai, o projeto de vida, a casa, a ferida...
Quando a infância finalmente se for, a leitura vai chegar. Com ela a cultura, a análise, outra ferida. A escolha.
O mar tem seus dias de ressaca.
Na noite vazia, reflete a lua que não é vista por nenhum casal. Seu barulho é de vai e volta. É de tomaládacá. É de espuma branca vazia. É de águas de segredos, não confessos, calados, colados, que não secam.
Eu vou morrer. Mas comigo não morre a verdade. Nem do meu amor perdido, nem do meu calor no umbigo, nem da honra insana de um samurai que lentamente enfia a katana no ventre com o passar dos meses, pra deixar escrito, pra deixar inscrito que existe verdade, existe amor, existe sonho além, muito além, de toda a dor.

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