terça-feira, 15 de agosto de 2017

Oponente


Sou um difícil oponente. Cruel, sem medida. Luto comigo mesmo e perco ganho, intempéries. Aos nove anos comecei a fazer Karate, sem saber que de mãos vazias é possível dominar o mundo. O cumprimento, a saudação, o grito de guerra, o pedido de desculpas, o agradecimento, tudo se resume ao "OSS". Há quem diga que a fonética comandaria a grafia em português, que deveria ser escrito assim: "OSU". Eu, "Berunarudo", me encontro sempre na linha do dojo, no limite do tatame, sentado em seiza, em estado de contemplação. A guerra comigo mesmo já é sinal de derrota. Do outro lado, eu, também sentado, fito-me, em silêncio interno. Meu coração já não bate sincopado com meu outro eu.
Fico-me.
Quando caminhei comigo, pedi perdão tantas vezes, chorei, arguí, respondi, calei. Parti pra briga, me machucamos. As cicatrizes talvez tenham sido mais profundas do que eu pensávamos. Meu eu dicotômico não é dicotômico.
Eule não sou mau.
Eleu não sou bom.
Sou, só, e ponto. Na linha contínua da vida, o ponto é deveras insignificante. Tento, a todo custo, me fazer significado apenas para ela, para minha filha, para que sinta por mim o orgulho que nunca senti. Talvez ao final da batalha silenciosa que grita ao bushi-do, quem sabe, finalmente eu sinta uma pontada do orgulho que só está nos sonhos que sonhei um dia.
Ganesha, quem eu encontrei em sonho quando ia ser atropelado por uma manada de elefantes, me recolheu pelo dorso e me colocou em suas costas. Com sua tromba, me entregou uma espada preta que luzia. Adornado, fitei seus olhos, e me vi subindo em direção a eles, que subiam junto, rumo a uma constelação que não sei o nome. Lá, no alto, em meio às estrelas, fui um só, apenas.
Foi a primeira vez que senti o que é estar em meu abraço.



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

De passageiros a condutores de suas próprias vidas


O Trem das 7 segue cadência, por entre as tantas montanhas de Minas. Projeto rico, idealizado e posto pra rodar com a lenha dos maquinistas Tio Flávio, Érica Machado e Tânia Campos, encontrou sua estação no Albergue Municipal Tia Branca, da região centro-sul da capital mineira. Lá, pessoas em situação de rua tentam se refugiar das tantas perdas da vida, para se refazerem e continuarem a caminhar.

São muitos os motivos que levam as pessoa a encontrarem essa situação em suas vidas. Um deles, o orgulho. É muito difícil aceitar que a engrenagem do mundo não tem como eixo o antropocentrismo umbilical. Outro, o medo. Será que vou ser julgado? Será que vou ser ouvido? Será que vou ser ferido? A droga do crack, a droga da bebida, a droga do fumo são só o segundo passo de quem já deu o primeiro na beirada do precipício. Muitas vezes, não há tempo de olhar para trás em busca de uma mão que nos segure, que não nos deixe cair.

A batuta da Alcione conduz com maestria, pulso firme e carinho, o ritmo da música orquestrada que soa nos vagões do Trem das 7. Pequena, altiva, sabe bem seu tamanho no mundo. Oferece sua mão para quem volta os olhos do precipício e sabe bem como ter pulso forte para segurar quem cai.

Nem toda palmada deveria ser banida. O mundo nos dá palmadas para as quais deveríamos estar preparados. A crise social, a falta de esperança, a ênfase desenfreada no consumo como única forma possível de redenção (ou reconhecimento de sucesso) são ingredientes amargos na panela do nosso almoço diário. 

De passageiros a condutores de suas próprias vidas. São três vagões: o do coaching pessoal - que os faz refletir, o do empreendedorismo - que os faz voltar acreditar na linha da vida, e o do simbólico - do grupo Corredores DA Rua, que os faz compreender a importância do rito na vida de qualquer ser humano. É preciso simbolizar o Caminho, o ir em busca, o voltar a se mover, o acreditar que posso conseguir, o superar-se a cada dia. É nesse vagão que sou apenas um bilheteiro. Com o apoio de voluntários amorosos abraçamos quem chega, marcamos o bilhete de quem vai, e abanamos as mãos, carinhosamente. Às vezes, são mais voluntários do que albergados, de tanta vontade de ajudar. Às vezes, porque os que caiam conseguiram terra firme, e voltam a caminhar com seus próprios passos, novo rumo.

Na foto, abaixo, o voluntário Marco Túlio passa debaixo do viaduto com o Wander, passos firmes, compassados, rumo a um dia de céu azul. São muitas tempestades. E o abrigo que nunca pode faltar é o coração do próximo: a verdadeira estação que buscamos.