domingo, 29 de novembro de 2015

Só para quem tem vergonha



Durante 5 anos dei aulas na Faculdade Estácio de Sá. Um período muito interessante, de muita aprendizagem. Onde fiz amigos, onde intensifiquei muitas amizades. Onde ganhei a admiração de alguns alunos e ganhei o ódio de alguns outros. Imagino que minha passagem por lá tenha tido saldo positivo, pelos feedbacks que tive ao longo do tempo.

Certa vez, me vi com um dilema: um dos meus alunos mais simpáticos, de quem me lembro bem o nome, me entregou um trabalho final que a gente chamava de "ctl+c ctl+v". Chupado da internet. O trabalho inteiro era encontrado na universidade fluminense.

À época, eu dava aulas de redação publicitária para mídia eletrônica, e produção em rádio e tv. Quem lida com textos todo dia, escritor por paixão, leitor razoável, sabe muito bem o que representa um estilo. Com um ou dois trabalhos se tinha a noção exata de quem sabia escrever, quem tinha bom domínio da articulação, quem possuía alguma técnica clara, quem tinha dificuldades, quem tinha facilidade nisso ou naquilo. É como pedir a um cozinheiro pra provar uma comida que ele não fez. Antes de provar, olhando o prato, já dá pra ele tecer várias informações sobre as técnicas culinárias utilizadas, formas de cortes, escolhas de tipos de preparo etc. É bem isso.

Pois bem, eu poderia ter dado zero no trabalho dele, abrir um inquérito interno na faculdade com as provas mais do que evidentes que eu tinha. Afinal, foi muito óbvio. Quando li o primeiro parágrafo do trabalho, uma luz vermelha acendeu: não tinha sido ele quem havia escrito aquilo ali. Estava longe, muito longe da escrita dele. Daí, foi só pegar um simples parágrafo qualquer do trabalho, copiar e colar no google, e todo o trabalho, ipsis litteris, estava lá. Bonitinho. Provavelmente ele não seria expulso porque sua mensalidade pesaria na balança da análise da ética, acredito. Esse é o mundo triste em que eu vivo.

Ele partiu do pressuposto de que eu não lia os trabalhos. Que eu pegava, e dava a nota, conforme gostasse ou não do aluno. Ou, pior ainda, que eu não tinha noção nenhuma do que eu ensinava. Porque, se eu dava aulas de redação... como não conhecer características primárias de um texto? 
Eu cometo muitos erros no blog. Principalmente porque não reviso o que escrevo. Ele é concebido como um exercício de cachoeira textual, apenas. Mas daí a não ter conhecimento sobre a matéria que dava aulas, a distância é bem boa.

Sabe o que fiz? Dei total pra ele. E fiz um discurso na sala sobre ética durante a entrega dos trabalhos. E coloquei no quadro o endereço eletrônico do trabalho encontrado da universidade fluminense. Não era o que ele queria? "Tirar total"? Ele conseguiu o que queria. Eu expliquei pra ele e pra turma, sem expô-lo, sem delatar quem tinha feito aquilo, que eu não precisava "selecionar" ninguém. Que o mercado faria isso. E que era uma pena que alguém utilizasse desse artifício imoral para "se dar bem". Aliás, é estúpido pensar que a pessoa tenha compreensão do meu conceito de "se dar bem", da mesma forma que eu. "Se dar bem", pra mim, seria "aprender". "Se dar bem" pra ele, seria "levar vantagem matemática na pontuação, baseado no engano do próximo". 

Fico imaginando o que leva uma pessoa a fazer isso. No caso do filho do ex-presidente Honoris Causa, que tenta explicar pra Polícia Federal com trabalhos "ctl+c ctl+v" como ele ganhou 2,5 milhões de reais, é mais interessante ainda. Note: ele não tentou explicar pra um professor desavisado e distraído, com cara de bobo. Foi pra Polícia Federal. Acho, sinceramente, que na Polícia Federal eles devem ter acesso à internet. Desconfio.

E desconfio também que nem meu ex-aluno e nem o filho do ex-presidente ficam envergonhados com isso. Porque isso pressupõe ética. Moral. Educação. Algum caráter. Não vou nem discutir se o filho do ex-presidente é um talpídeo ou alguém que acha que suas costas são tão largas que não sejam pegas num abraço justo ou tão quentes que queimem ao se tentar tocar. Como professor, eu fiquei muito triste por meu aluno. Se eu fosse o policial federal que apurou os fatos eu teria ficado muito puto (desculpe, não achei nada mais próprio) por mim mesmo e pela maioria dos brasileiros que ralam uma vida inteira pra não ganhar nem perto disso. Também acho que quem pode sentir vergonha é quem foi responsável por cada uma das indicações de Honoris Causa ao pai do educador físico que ganha 2,5 milhões desse jeito. 

Sugiro que esse "educador" procure na Wikipedia da mesma forma os conceitos de "escárnio" e "cinismo". Quem sabe ele não dá uma sugestão de alteração nos conceitos, já que a plataforma aberta da enciclopédia colaborativa dá margem a isso?

Hoje não vou postar música. Melhor fazer um minuto de silêncio.

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