sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quero Amanhecer Mijado


Eu era ainda um garoto de pouco mais de 17 anos. Talvez 20. Isso foi há uns 22 anos, portanto. Participei, não me pergunte exatamente porquê, de uma reunião de uma associação de músicos mineiros que se encontravam para lutar pelos direitos autorais. Eles continuam se encontrando, essa é uma questão sem fim, quanto mais em tempos de internet, DJ’s, mp3, e de uma época pós Napster. 

Determinada hora, um deles, bem mais velho do que eu, fez um comentário sobre um associado "audaz" - pra homenagear o Grande Fernando Brant, que também fazia parte da associação e depois veio a presidir uma outra de muito maior envergadura e soluções pros músicos - que me deixou muito incomodado: 

– Tá vendo? Mexer com menino dá nisso, a gente amanhece mijado. 

Fiquei incomodado por três motivos básicos: 



Primeiro é que a ação do associado audaz tinha sido unicamente audaz. Apenas uma ação feita sem consultar o reclamante, com o objetivo de dar solução a uma questão qualquer, e de ser proativo. Unicamente. 


Segundo porque achei deselegante e agressiva a forma como foi dita, sem que o “menino audaz” estivesse presente. E na minha frente, que mal conhecia o menino, à época. 
Terceiro que eu também era um menino e queria fazer a diferença. 

Resultado: tomei as dores do outro. Me simpatizei com o fragilizado, tomei birra (até hoje tenho birra) do dono da verdade à minha frente. Músico experiente, compositor reconhecido, mas de muito pouca habilidade no traquejo social. Aliás, isso é comum em grandes músicos. 

Essa semana, tive a grata surpresa de saber que o “menino audaz”, que queria fazer a diferença, foi convidado para assumir a presidência da Rádio Inconfidência. Como músico filiado a Ordem dos Músicos do Brasil, como compositor filiado a UBC, como filho de ex-presidente que sanou uma série de problemas da Rádio por amor à Música e aos músicos, fiquei extremamente feliz. Por vários motivos. 

Um forte candidato a novo Visconde de Sabugosa da Música de Minas, Flávio Henrique é bem articulado, pensa pra frente, sujeito digno, músico ímpar e pessoa do Bem. Valoroso. Fica indignado com a quantidade de sacanagem que vê por aí e transforma em arte, seja ela popular, nas marchinhas premiadas do Carnaval, seja no trabalho refinado de compositor, arranjador e até parceiro de grandes nomes da Música como Milton Nascimento e de tantos outros como o delicioso grupo Cobra Coral, Marina Machado, pra ficar apenas com alguns exemplos. Sua audácia foi o que o levou até a Rádio. Seu ímpeto e sua indignação foram pauta e acordes maiores que soaram bem ao longo de sua carreira. Particularmente, nossos poucos contatos profissionais, sempre profícuos, fizeram com que eu selasse seu conceito. Mesmo sabendo que ele milita por um partido que eu não acredito. Que eu acho que era maior quando era de oposição. Na vida existem prateleiras. Acho que o Flávio e eu sabemos colocar umas coisas em prateleiras distintas das outras. 

Hoje, pelos meus cálculos, com a mesma idade do músico “bem mais velho” que eu citei acima, penso que seria bom amanhecer mijado, porque quando se está ao lado de meninos audazes é mais fácil ouvir e compreender o refrão da canção do Visconde Maior. 

Equilíbrio e sucesso, Flávio. Vai nessa: “Vamos aprender, vamos lá...” 




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