segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Questões de Linguagem e Tradução






As minhas aulas no mestrado acabaram. Posso voltar para a casa da minha filha, onde moro, em Belo Horizonte. Daqui, da ilha interna de Florianópolis, paro e penso. E elejo a primeira coisa que devo agradecer em minha passagem por aqui: o encontro com Yeo N’Gana.

Costamarfinense, magro, estilo corredor, das cambetas finas e compridas, voz grossa, sorriso maior que o rosto, maçãs do rosto bem salientes, olhos profundos, negro azul-marinho, Yeo é um irmão que ganhei depois de 42 anos de vida.
Moral, ética e inteligência de fazer inveja, Yeo é uma vara de bambu. Resiliente. Forte. Firme e absolutamente natural. Seu silêncio grita:

– “Quando você fala baixinho, nos ouvidos, a pessoa escuta com a alma.”, me disse um dia.

Aprendi muito aqui nesses 4 meses intensos de quase prisão domiciliar. Mas aprendi mais mesmo tentando Traduzir o meu novo irmão Yeo. Pra começar, foneticamente, seu nome é um Koan Zen Budista. Quando o chamo, pergunto por mim: “E eu?” A letra “e” é fechada na pronúncia, da mesma maneira que se pronuncia o “e” presente na palavra “eu”. É como se eu quisesse saber onde estou quando chamo aquela pessoa tão distante e tão próxima de mim...

Minha idiota ignorância não sabe distinguir bem o que precisa traduzir “ser da Costa do Marfim”. Ele mesmo, ao tentar explicar porque não fala tanto de si e de sua terra, disse a mim e a uma colega: – É difícil explicar. Se na Costa do Marfim temos 98 línguas, temos 98 culturas distintas, mesmo que próximas. Na minha ignorância cultural, a primeira coisa que me vem é que ele é africano, o que, segundo a Cadeia de Significantes e Significados Saussurianos começa a puxar um fio em minha mente na seguinte ordem: África, selva, bichos e riquezas minerais, exploração, escravidão, colonialismo, guerra civil, sofrimento, deserto, preconceito, culturas distintas, tribos, Mãe Natureza, ancestralidade, arquétipos, Terra... E eu?

É estranho pensar até em identidade sendo quem sou, morando onde moro, tendo as referências que tenho. Um completo vira latas, eu poderia assim me definir. Do lado da minha mãe, tenho desde suíço (minha avó Neuenschwander) que também tem avô negro, a judeu espanhol (Cabido, Soares de Moura) e do lado do meu pai, índio e português, sobretudo (Coelho). É meio como achar que na Espanha é tudo igual. Bascos, Valencianos, Catalães, Andaluzes, e por aí vai, acabam todos no mesmo saco. Como se no Brasil pudéssemos colocar todo mundo também no mesmo saco... Talvez seja minha vontade de igualdade e justiça que pense todo mundo como seres humanos, irmãos. Mas um olhar um pouco mais atento fragiliza o sonho utópico. É tudo muito estranho e tudo muito difícil de traduzir. E, nesse ponto, é como se chegasse Yeo pra selar paradoxalmente a diferença e a igualdade de um modo muito bonito e a necessidade de continuar percorrendo esse Caminho.

Talvez, porque seja mesmo a única forma de nos compreendermos e nos constituirmos humanos.

– “A vida é uma caixa incolor”, disse Yeo pra mim, na semana passada. Pelo que posso sorver, imagino que ele quer dizer que somos nós mesmos que vamos tentar traduzi-la, à medida que a colorimos. A Tradução é mesmo uma forma de abraço.

Mais sobre meu desconhecimento completo de Abidjã nos outros textos deste mesmo blog.



domingo, 29 de novembro de 2015

Só para quem tem vergonha



Durante 5 anos dei aulas na Faculdade Estácio de Sá. Um período muito interessante, de muita aprendizagem. Onde fiz amigos, onde intensifiquei muitas amizades. Onde ganhei a admiração de alguns alunos e ganhei o ódio de alguns outros. Imagino que minha passagem por lá tenha tido saldo positivo, pelos feedbacks que tive ao longo do tempo.

Certa vez, me vi com um dilema: um dos meus alunos mais simpáticos, de quem me lembro bem o nome, me entregou um trabalho final que a gente chamava de "ctl+c ctl+v". Chupado da internet. O trabalho inteiro era encontrado na universidade fluminense.

À época, eu dava aulas de redação publicitária para mídia eletrônica, e produção em rádio e tv. Quem lida com textos todo dia, escritor por paixão, leitor razoável, sabe muito bem o que representa um estilo. Com um ou dois trabalhos se tinha a noção exata de quem sabia escrever, quem tinha bom domínio da articulação, quem possuía alguma técnica clara, quem tinha dificuldades, quem tinha facilidade nisso ou naquilo. É como pedir a um cozinheiro pra provar uma comida que ele não fez. Antes de provar, olhando o prato, já dá pra ele tecer várias informações sobre as técnicas culinárias utilizadas, formas de cortes, escolhas de tipos de preparo etc. É bem isso.

Pois bem, eu poderia ter dado zero no trabalho dele, abrir um inquérito interno na faculdade com as provas mais do que evidentes que eu tinha. Afinal, foi muito óbvio. Quando li o primeiro parágrafo do trabalho, uma luz vermelha acendeu: não tinha sido ele quem havia escrito aquilo ali. Estava longe, muito longe da escrita dele. Daí, foi só pegar um simples parágrafo qualquer do trabalho, copiar e colar no google, e todo o trabalho, ipsis litteris, estava lá. Bonitinho. Provavelmente ele não seria expulso porque sua mensalidade pesaria na balança da análise da ética, acredito. Esse é o mundo triste em que eu vivo.

Ele partiu do pressuposto de que eu não lia os trabalhos. Que eu pegava, e dava a nota, conforme gostasse ou não do aluno. Ou, pior ainda, que eu não tinha noção nenhuma do que eu ensinava. Porque, se eu dava aulas de redação... como não conhecer características primárias de um texto? 
Eu cometo muitos erros no blog. Principalmente porque não reviso o que escrevo. Ele é concebido como um exercício de cachoeira textual, apenas. Mas daí a não ter conhecimento sobre a matéria que dava aulas, a distância é bem boa.

Sabe o que fiz? Dei total pra ele. E fiz um discurso na sala sobre ética durante a entrega dos trabalhos. E coloquei no quadro o endereço eletrônico do trabalho encontrado da universidade fluminense. Não era o que ele queria? "Tirar total"? Ele conseguiu o que queria. Eu expliquei pra ele e pra turma, sem expô-lo, sem delatar quem tinha feito aquilo, que eu não precisava "selecionar" ninguém. Que o mercado faria isso. E que era uma pena que alguém utilizasse desse artifício imoral para "se dar bem". Aliás, é estúpido pensar que a pessoa tenha compreensão do meu conceito de "se dar bem", da mesma forma que eu. "Se dar bem", pra mim, seria "aprender". "Se dar bem" pra ele, seria "levar vantagem matemática na pontuação, baseado no engano do próximo". 

Fico imaginando o que leva uma pessoa a fazer isso. No caso do filho do ex-presidente Honoris Causa, que tenta explicar pra Polícia Federal com trabalhos "ctl+c ctl+v" como ele ganhou 2,5 milhões de reais, é mais interessante ainda. Note: ele não tentou explicar pra um professor desavisado e distraído, com cara de bobo. Foi pra Polícia Federal. Acho, sinceramente, que na Polícia Federal eles devem ter acesso à internet. Desconfio.

E desconfio também que nem meu ex-aluno e nem o filho do ex-presidente ficam envergonhados com isso. Porque isso pressupõe ética. Moral. Educação. Algum caráter. Não vou nem discutir se o filho do ex-presidente é um talpídeo ou alguém que acha que suas costas são tão largas que não sejam pegas num abraço justo ou tão quentes que queimem ao se tentar tocar. Como professor, eu fiquei muito triste por meu aluno. Se eu fosse o policial federal que apurou os fatos eu teria ficado muito puto (desculpe, não achei nada mais próprio) por mim mesmo e pela maioria dos brasileiros que ralam uma vida inteira pra não ganhar nem perto disso. Também acho que quem pode sentir vergonha é quem foi responsável por cada uma das indicações de Honoris Causa ao pai do educador físico que ganha 2,5 milhões desse jeito. 

Sugiro que esse "educador" procure na Wikipedia da mesma forma os conceitos de "escárnio" e "cinismo". Quem sabe ele não dá uma sugestão de alteração nos conceitos, já que a plataforma aberta da enciclopédia colaborativa dá margem a isso?

Hoje não vou postar música. Melhor fazer um minuto de silêncio.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quero Amanhecer Mijado


Eu era ainda um garoto de pouco mais de 17 anos. Talvez 20. Isso foi há uns 22 anos, portanto. Participei, não me pergunte exatamente porquê, de uma reunião de uma associação de músicos mineiros que se encontravam para lutar pelos direitos autorais. Eles continuam se encontrando, essa é uma questão sem fim, quanto mais em tempos de internet, DJ’s, mp3, e de uma época pós Napster. 

Determinada hora, um deles, bem mais velho do que eu, fez um comentário sobre um associado "audaz" - pra homenagear o Grande Fernando Brant, que também fazia parte da associação e depois veio a presidir uma outra de muito maior envergadura e soluções pros músicos - que me deixou muito incomodado: 

– Tá vendo? Mexer com menino dá nisso, a gente amanhece mijado. 

Fiquei incomodado por três motivos básicos: 



Primeiro é que a ação do associado audaz tinha sido unicamente audaz. Apenas uma ação feita sem consultar o reclamante, com o objetivo de dar solução a uma questão qualquer, e de ser proativo. Unicamente. 


Segundo porque achei deselegante e agressiva a forma como foi dita, sem que o “menino audaz” estivesse presente. E na minha frente, que mal conhecia o menino, à época. 
Terceiro que eu também era um menino e queria fazer a diferença. 

Resultado: tomei as dores do outro. Me simpatizei com o fragilizado, tomei birra (até hoje tenho birra) do dono da verdade à minha frente. Músico experiente, compositor reconhecido, mas de muito pouca habilidade no traquejo social. Aliás, isso é comum em grandes músicos. 

Essa semana, tive a grata surpresa de saber que o “menino audaz”, que queria fazer a diferença, foi convidado para assumir a presidência da Rádio Inconfidência. Como músico filiado a Ordem dos Músicos do Brasil, como compositor filiado a UBC, como filho de ex-presidente que sanou uma série de problemas da Rádio por amor à Música e aos músicos, fiquei extremamente feliz. Por vários motivos. 

Um forte candidato a novo Visconde de Sabugosa da Música de Minas, Flávio Henrique é bem articulado, pensa pra frente, sujeito digno, músico ímpar e pessoa do Bem. Valoroso. Fica indignado com a quantidade de sacanagem que vê por aí e transforma em arte, seja ela popular, nas marchinhas premiadas do Carnaval, seja no trabalho refinado de compositor, arranjador e até parceiro de grandes nomes da Música como Milton Nascimento e de tantos outros como o delicioso grupo Cobra Coral, Marina Machado, pra ficar apenas com alguns exemplos. Sua audácia foi o que o levou até a Rádio. Seu ímpeto e sua indignação foram pauta e acordes maiores que soaram bem ao longo de sua carreira. Particularmente, nossos poucos contatos profissionais, sempre profícuos, fizeram com que eu selasse seu conceito. Mesmo sabendo que ele milita por um partido que eu não acredito. Que eu acho que era maior quando era de oposição. Na vida existem prateleiras. Acho que o Flávio e eu sabemos colocar umas coisas em prateleiras distintas das outras. 

Hoje, pelos meus cálculos, com a mesma idade do músico “bem mais velho” que eu citei acima, penso que seria bom amanhecer mijado, porque quando se está ao lado de meninos audazes é mais fácil ouvir e compreender o refrão da canção do Visconde Maior. 

Equilíbrio e sucesso, Flávio. Vai nessa: “Vamos aprender, vamos lá...” 




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

É Natal, filha.


É muito difícil quando chega o natal. 

O natal sempre foi uma época difícil em minha vida. Como meu pai foi o décimo quinto filho de uma família pobre de Teófilo Otoni, seus natais foram marcados pelas diferenças dos sobrinhos que tinham condições e meu pai que não tinha. Na família da minha avó, aquela história de comprar um sapato pra dois filhos e um ir com um chinelo e uma atadura no pé esquerdo e o outro ir com o chinelo e a atadura no pé direito pra aula foi verdade. 

Meu pai foi marcado pelo palpite de vários e vários irmãos acima dele, cunhados e cunhadas que tinham idade pra serem seus tios e pais que já tinham idade para ser seus avós. Isso fez com que ele escolhesse o caminho da individualidade. Para virar o adulto (maravilhoso) que é.

Acontece que o natal não tem a ver com individualidade. Não tem a ver com a escolha da partida. Tem a ver com a escolha da partilha. 

E um dia, ele chega, podemos escolher: vamos ter natais marcados por nossas dores, ou natais marcados por nossos amores?

Eu, apesar das escolhas dos outros, e de tantos natais marcados por dores, escolhi natais marcados por meus tantos amores.

Na foto acima, vemos a casa da minha filha, Beatriz, de 4 anos e oito meses, enfeitada para o natal pelo amor que mora comigo. É o quinto natal que Beatriz passa entre nós, um na barriga da mãe, quatro fora da barriga. Até hoje, não me foi permitida a presença da minha filha em nenhum natal em minha casa. Ontem, fiquei sabendo depois de insistir, que a mãe de Beatriz vai com ela para Belo Horizonte passar a próxima semana. 

E eu não vou estar lá. Infelizmente.

Mais uma vez, não vou poder passar o natal com minha filha. Nem fora de época. Há um ano e meio, quando a juíza nos chamou e fez uma rodada com uma psicóloga indicada pelo poder público, ficou constatado, provado, aconselhado, que ela já deveria passar seus momentos comigo sozinha. Que isso, segundo o laudo, seria importante para o desenvolvimento dela. Mas a mãe desconsidera tanto isso, quanto o mais importante: o Amor que temos guardado para Beatriz.

A alienação parental se exerce de várias formas. Entre elas, a mais traiçoeira de todas: Ela manda fotos, deixa que falemos com ela, eu encontro com minha filha, mas exclusivamente na presença da mãe. Como se eu fosse alguém que devesse ser cerceado. Sou como um cachorro que deve permanecer na coleira. Um passarinho que deve permanecer na gaiola. Um pai que não merece brincar com sua filha sem os olhos persecutórios da mãe. Mesmo tendo o aval da justiça. Mesmo dando exclusivamente amor à minha filha. Mesmo fazendo de tudo para a mãe dela.

Não, não vejo problema algum da mãe estar junto. Até incentivo e acho ótimo. Mas não todas as vezes, sem excessão.

A "guarda compartilhada", neste caso, é exercida nesta balança:

  • A mãe da minha filha quis levá-la ao exterior para passar 10 dias com ela na ocasião de um casamento. Esta é a única situação, em nossa justiça que se diz igual, em que o pai é consultado. Eu prontamente disse sim. No mesmo dia fui com ela em um cartório e dei minha permissão, amorosamente. De verdade. 
  • Eu peço a ela que minha filha vá dormir uma única noite na casa dela de Belo Horizonte, no quarto que preparei pra ela com todo amor, com todo carinho, onde fiz com minhas mãos os desenhos na parede e ela não permite. Eu convido a mãe que vá dormir lá também, pra que o principal seja preservado, e eu ouço um inquestionável "não". Avesso ao bom senso. Avesso ao amor. Avesso à justiça divina e à justiça dos homens.


Acredito que é assim que se constrói uma alienação parental velada. Talvez eu esteja errado. Talvez não. A mãe de minha filha acha que o amor da família do pai deve ser dado homeopaticamente à nossa filha, em gostas. E que isso basta. Tenho tios que morreram sem conhecê-la. Tenho tios que já estão sem condições de saúde e não vão conhecê-la. 

A recordação maior e única que tenho da minha avó, mãe do meu pai, data da minha primeira infância. Quando eu era menor que minha filha. E carrego essa lembrança pro resto da vida. Penso que ela não vai ter a recordação familiar de muita gente que foi importante pra mim e que faz parte de sua história. Nada disso tem volta. 

Hoje cedo, pedi ao meu pai que tocasse ao piano a valsa Subindo ao Céu, que aqui coloco na gravação de Luiz Gonzaga, curiosamente, do ano do nascimento do meu pai. Era a música que minha avó tocava pra ele ao telefone para amainar a saudade. Ele, que aprendeu a tocar piano estudando em uma mesa com as teclas pintadas e aos 11 anos já dava aulas de acordeón, tocou essa música muitas vezes na noite quando não pode ir ao enterro de sua mãe, à época. Morávamos em Brasília e as condições não o permitiram chegar. Foi uma noite triste, de dor imensa. A última recordação que trago de minha avó foi ela pegando um papai noel de chocolate e me entregando, com amor e carinho profundos. Depois disso ela subiu ao céu. Como eu poderia não amar o natal? Apesar de tudo e de todos?

Fica a música. Fica o amor de minha avó. Fica o desejo de diminuir as distâncias e as incompreensões do mundo e das pessoas, que estão presas nas gaiolas da mágoa e do dissabor. Fica o desejo de minha filha poder curtir o natal que sempre sonhei pra mim e pra ela. Quero dar a ela, um dia, de presente o natal que sempre sonhei. Ela merece. 





domingo, 8 de novembro de 2015

Vale tudo





Estou destituído. Estou detonado. Estou possuído, arrasado, subvertido, arruinado, falido, afundado.

Enlameado.

Não quero mais o mármore branco com veios champagne, não quero mais a cozinha gourmet associada a la joie de vivre, o vinho caro e o untuoso opulento foie gras. Nem tinto vinho.

Vem. Preciso me lavar primeiro. Estou sujo de barro.

Como vou poder entrar em casa e limpar meus pés no tapete persa? Como vou me deitar na cama de roupa de cama de linho egípcio 3.000 fios comprada na Trusseau? Como vou abrir os armários para pegar as vasilhas Le Creuset para fazer o almoço?

Eu pingo lama. Nas minhas veias correm um barro sujo imundo, de minério, sangue ferroso que um dia me orgulhou. São minas, mas não são gerais. É pra poucos. É para o governante que não se compadece, e tem dozinha de empresa que nem imaginava que isso podia acontecer... É para o que não teve seu filho desaparecido, não teve seu pai afundado, atolado, esmagado, espremido, afogado, sem ar, sem força, sem vida dentro da boleia de um imenso e forte caminhão. Como?, se esse pai é o herói desse filho?

Há ninhos com ovos que nunca mais verão a luz do dia. Há peixes tentando a todo custo respirar terra vermelha, cor de casebres singelos. Há quem durma essa noite na espera. Há quem nunca mais vai dormir sem ser na espera.

Espera, e não vamos fazer absolutamente nada?

Vamos. Já sei. Quem sabe se vale batermos umas colheres de pau numas panelas? Sim, vale, vai mudar muita coisa. Ou, quem sabe, se vale eu deletar do meu facebook quem não concorda comigo? Sim, vale, teria efeito imediato. Vale, sim. Vale, mesmo.

Vamos. Vamos dar umas seis garrafas d’água pet de dois litros, pra ajudar as vítimas do meu voto. Do seu voto. Vítimas que também não sabem o nome dos vereadores, dos deputados estaduais, dos deputados federais em quem votaram em quase todas as eleições. Talvez só se lembrem para sempre do que não tem nome, agora, já que está debaixo de metros e metros cúbicos de barro, caldo grosso e espesso, silêncio e dor absolutos.

Vale da morte: o vulcão da ganância e a explosão de descasos fizeram de Bento Rodrigues a Pompéia mineira. 



Gostaria de pedir ao Governador do Estado para fazer outro depoimento. Dessa vez com o nariz tapado e uma colher de sopa de terra enfiada na boca.

Claro: escuro. Calo.






quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sóis



Vivo na ausência.
Escuto mais do que falo,
calo porque silencio,
calo porque silêncio.

É que dói.

Pressência.

Vive no sentimento.
vive nu sem ti: minta.
Mate. Arde.
Devore.
Devo. Ore.
Faça o que fizer, anuncie.
Anule o que anelar.

Sois o segredo do analema.
Dilema:
Moro no silêncio escondido em cada palavra.

Nas ditas,
não ditas,
malditas.