segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sapoti



O sapoti é uma fruta difícil de definir. Carnuda, do tamanho de uma laranja pequena, tem uma coloração, cor e sabor muito característicos. Minha amiga da França me perguntou como é. Eu pelejei pra definir e fiquei dias pensando com o que se parecia, para que ela tivesse uma ideia aproximada do que é um sapoti. Curioso. Fazendo mestrado em Tradução, isso faz todo o sentido pra mim.

Não há como traduzir o sapoti. Como bem disse Rubem Alves a respeito de um poema, “o poema é como uma árvore. A gente não explica uma árvore. A gente se deita à sua sombra”. Pois bem. A gente não explica o sapoti. A gente parte ele no meio e come. E, se for esperto, planta as quatro sementes.

Foi isso que eu fiz com o primeiro sapoti que minha filha me deu, do quintal dela, onde ela mora, em Recife.

Marrom por fora, marrom por dentro. Por dentro, um pouco mais claro. Por fora, mais próximo à cor de terra, mas não terra negra, nem terra vermelha. Terra marrom. O sapoti tem como casca, um couro. Parece um couro. É como o kiwi. Mas sem aqueles pelinhos. A consistência do couro da pele é bem similar à do kiwi. Mas dentro não. A minha maior dificuldade foi essa. Definir a parte de dentro. Primeiro, fiquei pensando como definiria a consistência. Fiquei pensando em me expressar dizendo que o sabor era uma mistura de melão como morango, mas achei uma ilação sem muito sentido. E pensei muito, até que me lembrei que a carne do sapoti parece um caqui mais firme. Quem comeu vários caquis sabe o que estou falando. Tem caqui que é mole, tem caqui que é mais firme. Pois bem, é desse mais firme que eu estou falando. Tem uma espécie de fibra, de carne fibrosa, que não se parece nem com a aquacidade do melão, nem com a firmeza do morango e do kiwi, muito menos é uma massa como a banana, ou uma pasta como o abacate. É isso, se parece bem com o caqui, no que se refere à consistência e à matiz do sabor.

Calma, veja se entende o que estou querendo dizer, com relação ao sabor. O caqui não é ácido como uma fruta cítrica, tipo limão ou laranja. Também não tem um sabor presente como o do maracujá, por exemplo. Nem a suculência óbvia do melão, melancia ou abacaxi. O caqui é assim, mais brando. Mais equilibrado. Acho que o sapoti é bem isso, uma fruta mais equilibrada. Fazendo uma pesquisa besta na internet, vi logo que na Índia tem cerca de 20 variedades de sapoti. Fiquei com muita vontade de experimentar...

Concluí que o sapoti é a minha maçã. Minha nova fruta do amor. Na idade em que estou, não sou mais arrebatado pelo morango. Nem me comovo tanto com o maracujá. Já tenho um pouco de preguiça da uva, óbvia. Tenho preferido o sabor austero e improvável de uma fruta marrom, que mais se parece com o cerrado, com o sertão de Guimarães Rosa, com os segredos escondidos em uma vereda que se acha, depois de passar sede por dias num agreste seco e duro, árido, espinhoso. É onde tenho andado. E descobrir o sapoti assim, entregue por minha filha, é uma espécie de recado. Que a carne saborosa está lá, sob o couro, que o suco nutritivo me espera sabores, escondido no que não parece ter cor, no que não chama a atenção, no que não causa alarde, mas vai virar semente pro que vem pela frente...

Mais sobre botânica aplicada em outros textos deste mesmíssimo besantanna.blogspot.com.


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