quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para quem tem prateleiras.



Essa é mais uma tentativa de fazer alguma diferença na vida de alguém.

Hoje cedo, recebi de um amigo (dos mais antigos que tenho) um comentário irônico sobre o 4 a 0 do Santos no Clube Atlético Mineiro, time que torço, time que foi presidido por meu avô, o delegado de polícia Hélio Soares de Moura, na época que o Kafunga jogava.

Fiquei curioso: o Cruzeiro teria ganhado de quanto, para que meu amigo viesse me sacanear? Não, ele empatou em casa, com o lanterna do campeonato brasileiro.

O que quer dizer: o prazer do meu amigo - e digo amigo porque sei que ele é - era simplesmente com a minha “desgraça”. 

Podemos analisar de um modo simples, como atitude corriqueira e sem nenhum fundamento. Acontece que quando deixamos essas coisas passarem e viram coisas corriqueiras, simples, estamos fazendo a nossa parte para que se perpetue a condição que queremos mudar, acredito.

Não acho que o brasileiro é filho da puta por natureza. Não acho que a malandragem tá no sangue desse povo miscigenado. Acho que isso é uma questão cultural que precisamos combater, mais até do que combater mandiocas ou coxinhas. 

Minha análise é puramente achismo. E meus fundamentos são puramente sensíveis. E não sou nenhuma Eliane Brum ou Gregório Duvivier pra que minhas letras tenham voz. Só tem voz quem é celebridade no Brasil. Mas, assim mesmo, continuo a escrever, como aquele catador de estrelas do mar, que pegava uma por uma e jogava ao mar, num documentário meio auto ajuda (não devia ter essa qualificação) que vi na década de 90.

Penso se a malandragem e a filhadaputagem não vieram justamente com o colonialismo e a dicotomia Trabalho X Chicote, ao invés de Trabalho X Justiça Social. Porque, imagino eu, trocar trabalho por justiça social seja edificante e estimulante. No entanto, trocar trabalho por “não ganhar chibatadas” cria uma inversão de Valores. Se temos Valores invertidos, como vamos cultuar o Bem, o Bom e o Belo?

Você deve conhecer a experiência feita com macacos. Resumindo e simplificando: 5 macacos na jaula. Um cacho de banana em cima da escada. Toda vez que um macaco tocava a escada, todos tomavam ducha de água fria. Em pouco tempo todos aprendem que não podem tocar a escada e começam a bater nos que tentam. Daí, vai se tirando os macacos um a um, e o mesmo processo continua. O que chega, que não está acostumado, tenta pegar a banana, até que aprende que não pode tocar na escada, não por causa da água fria, mas de tanto apanhar dos outros. Até que todos os macacos são trocados, de forma que nenhum deles tomou a ducha de água fria, mas aprenderam que se tocarem na escada, todos os outros vão cair de pau em cima.

Pois bem, acredito que estamos nessa condição. E acredito que o macaco do meu amigo me mandou a sacanagem via whatsapp, mesmo sem nunca ter tomado uma ducha de água fria. Acredito que tem muito político que age da mesma maneira, como acredito que a malandragem e a filhadaputagem no Brasil acontece por causa disso. Essa semana, coloquei uma crítica ao post do Diário do Centro do Mundo em que o Gregório Duvivier fazia uma foto dele com um suposto cigarro de maconha prestes a acender (na outra mão um fósforo aceso) e, em sua pretensa genialidade, ele usava a máscara da discussão sobre a legitimação das drogas, passando pelo caso bizarro e sem resposta do helicóptero do senador cruzeirense, pra dar uma ferrada nos contrários ao governo, chegando à conclusão de que já há descriminalização da maconha. Que “o que continua criminalizada é a pobreza.” 

O ponto de vista dele tem sentido, é claro. Mas ele o defende com uma triste inversão de valores, acredito. Quando eu postei, comentei o fato dizendo que não sabia o que era mais interessante (interessante = gera interesse), o post do Duvivier ou o banner da Petrobrás que patrocinava o blog. Aliás, o post dele saiu na mídia golpista, ou seja, na Folha de São Paulo. Quer dizer, "golpista" quando ataca o governo. Quando não ataca, enchem a boca pra falar: “na Folha de São Paulo.”

O que me deixa mais triste é que tem muita gente que apoia o governo que continua batendo nos outros macaquinhos, sem nunca ter tomado ducha de água fria. Assim como existe muito batedor de panela que não sabe o que defende ao atacar o governo com um post de apoio ao lado cego de uma bancada evangélica, ao lado sub reptício de uma bancada ruralista ou com um jactancioso post de apoio aos governos militares...

Estou triste.

E estou mais triste ainda porque estamos num momento onde todos nós, macacos secos, continuamos a nos digladiar secos e sedentos. Porque é melhor apontar o dedo pro outro (ou enche-lo de tabefes) do que dar as mãos pra tentar salvar o Brasil. Recentemente um petista de carteirinha me escreveu “gostaria que nos encontrássemos mais, independente de Dilma, galo e cruzeiro”. Morri. Morri porque nunca imaginei que isso poderia ser motivo para afastar uma amizade, como se o Bom Senso não fosse maior do que esse tipo de disputa. Bom Senso e Valores. 

Eu não sei. Mas coloco os Valores e o Bom Senso em uma prateleira mais alta. Imagino que eles não podem estar na mesma prateleira da minha escolha partidária. Porque, se não, eu acabo pegando em armas por causa do meu partido! Viro simplesmente massa de manobra! Já votei no PT: no Patrus. Porque julguei que ele era o mais sensato, o candidato melhor à época. Mas não aceitei ganhar uma baba pra virar a casaca e defender a Dilma em 2010 depois de ter saído do terceiro lugar e eleger o Anastasia com quase 70%. Porque, pra mim, essas coisas tem que estar em prateleiras diferentes...

Volto ao meu amigo. E queria abraça-lo agora. Dizer que sei que ele passou mais de 20 anos em São Paulo sendo obrigado a escolher entre Trabalho X Chicote. E que isso, invariavelmente, obliterou sua visão. Preciso mostrar a ele que estamos secos, que juntos podemos abrir a merda da gaiola em que estamos e ir tomar banho, mas de mar, numa praia qualquer, enquanto comemos nossa banana abraçados, e brindamos o fato de sermos diferentes e torcermos pra times diferentes. Afinal, se houvesse só um time, não haveria o prazer do futebol... E depois, quem sabe voltar e, de mãos dadas, reformar juntos nossa gaiola de nome Brasil?

Dica: leiam Eliane Brum. Ela tem artigos interessantíssimos, bem escritos e importantes.




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