quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Templo do Outro



Vou montar uma igreja. Seu nome vai ser Templo do Outro. Primeiro vou comprar um lote, construir um anfiteatro de cimento, octogonal, com oito níveis de degraus, com oito pilares em cada um dos seus vértices, coberto de piaçava.

Este lote não vai ter muros. Este anfiteatro não vai ter paredes. Entra-se por qualquer um dos oito lados, sai-se da mesma forma, por qualquer um deles. No centro, no nível mais baixo, um altar. Que não terá esse nome porque, conforme a etimologia da palavra, não vai ficar no lugar mais alto. Vai ser no mais baixo, símbolo da humildade humana.

Podemos chamá-lo, portanto, de Coração. Na entrada (ou saída) norte, vamos escrever e inscrever, ainda com o cimento molhado, a letra Z significando Zehut, Retidão.

Nosso norte vai ser a Retidão.

No oeste, onde o sol se põe, colocaremos a letra M, significando Mehilá, o Perdão.

Em seu lado oposto, no leste, onde o sol levanta, colocaremos a letra B, significando Beraca, ou seja, Bênção.

E ao sul, colocaremos a letra H, Hayim, a Vida.

Nos outros quatro lados, entre os pontos cardeais, colocaremos quatro símbolos importantes: a Lua e a Estrela do islamismo, a estrela de Davi, do judaísmo, o OM do hinduismo, o Tau, a cruz de São Francisco de Assis, que bem representa o cristianismo.

Nesta igreja, só há um espaço. A igreja só será um lugar. Lugar do encontro, lugar do amor, lugar do saber, lugar da partilha, lugar de espera, lugar de esperança. Onde se medita. Onde se sonha. Onde se canta. Onde se deita. Onde se levanta. Lá, levaremos um bolo de chocolate para fatiar e dividir. Vou levar o que a vovó Lili faz, que é o melhor bolo de chocolate do mundo. Uma jarra de suco de caju para compartilhar com todo mundo, que é o que eu mais gosto, uma rama carregadinha de lixia, pra cada um comer a sua e levar a semente pra casa - símbolo de amor familiar.

No Templo do Outro, vou me sentar para ver o sol nascer.

No Templo do Outro, vou dividir minha comida.

No Templo do Outro, vou brindar com o outro. Com o diferente e com o igual.

No Templo do Outro vou ler poemas, vou escutar parábolas, vou traduzir textos de outras línguas, vou ouvir músicas de outros povos.

No Templo do Outro, vou descobrir quem sou.

Quando o dia se for, no Templo do Outro, vou esperar a lua nascer. E bater palmas quando isso acontecer. Vamos dar as mãos e cantar cirandas de crianças no Templo do Outro. Vamos brincar de desenhar e fazer aviões de papel. Vamos jogar amarelinha, cinco Marias, pular elástico, e moldar argila. No Templo do Outro, vamos ser nós mesmos.

Vai ter três banheiros no Templo do Outro. Um pra meninas, um pra meninos, um pra meninas e meninos. No Templo do Outro vai ter um chuveirão na parte de fora, perto dos três banheiros pra quem quiser tomar uma ducha e se refrescar da vida. Todos os passarinhos do mundo vão poder ir visitar o Templo do Outro. E quem quiser levar flores, pode levar. Vai ficar ainda mais bonito o Templo do Outro florido.

Sabe? Quando esse tempo chegar e o Templo do Outro estiver pronto, vou convidar você que ainda está lendo pra ir se encontrar comigo. Tenho certeza que você vai gostar de lá.

Mais sobre templos internos e externos em outros textos deste mesmíssimo besantanna.blogspot.com





segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Amor depois dos 35.





O cursor pula na tela. Como escrever? O que dizer sobre o Amor escolha?

És. Colha.

Já usei muito essa poesia semântica. Aliás, quando eu morrer, talvez façam uma notinha de jornal com esta epígrafe: “morre um dos criadores da poesia semântica”. Sim, quando a gente passa dos 35, começa a pensar na morte. Porque de alguma forma, você já se deu conta que “...podia ter subido mais montanhas...” ah, sei lá. Não vou ficar aqui citando poema dos outros, porque isso não leva a lugar algum. Depois dos 35 começa a pensar na morte e a vida vira um tesão. Fazer 35 não é brinquedo não. Quanto mais quando você descobre que você espirra e tá com 42. E ainda fingindo ter 35. Ou querendo ter...

Com trinta e cinco você se lembra de uma cacetada de filósofo foda que com 35 já tinha resolvido a vida e inscrito seu nome no tempo do sempre. Com 35 você pensa que Jesus viveu só 33 e você já tá no lucro, e ninguém vai se lembrar de você daqui 200 anos, quanto mais daqui 2015. Daí, você meio que manda tudo à merda e decide que Puatz!, eu vou mais é ser epicurista (no sentido clássico comum e errôneo, devo dizer) e pensar no meu prazer, porque se eu não fizer isso, quem vai?

Se você é mulher, fica meio assim achando que tá fazendo a curva, virando o Cabo da Boa Esperança, mas descobre logo (com 42) que isso não passava de mito. De balela. Que modelinho pra ser feliz a gente encontra no pote de margarina, não na vida real. Aliás, o grande lance do amor ideal é que descobrimos que podemos pensar na semântica da parada: se é I-DE-AL é porque mora no mundo das... das... das... isso, ideias! Tá vendo? Com 35 agente fica até inteligente. E descobre que “foda-se” é uma “palavra” mágica. Uma expressão redentora, uma espécie de bênção própria.

Porque o mundo está aí, de carne e osso, e a única coisa que pude entender dessa baita zona até agora, é isso: és. Portanto, filhão, colha. 

Colhemos o que somos. Somos o que escolhemos. 

Tem um Haikai meu que diz isso bem, tá no meu segundo livro: 

“Quem planta, escolhe”.

Pode parecer uma brincadeirinha simples e sutil, mas pare um pouco. Pense. 

Aos 35 você já sabe escolher. E pode, se quiser, dar ouvidos ao equilíbrio. Ao que te faz bem. Às amizades verdadeiras, não às amizades de conveniência. Porque os filhos da puta dos Beatles é que estavam certos: All We Need Is Love. E se o Love for de mentirinha, caro leitor, cara leitora, ... enfim... você entendeu. Porque passamos mesmo dos 35. Quem realizou o sonho de ter uma criança, sabe que o que o espera pela frente é o SEMPRE. Porque “criança é bom, mas dura muito”, como disse um amigo meu. Dura a SUA eternidade. Então, tem que ter cu pra aguentar, filhão. Porque não tem férias de paternidade e maternidade (Desculpa, não achei um jeito mais polido e fofinho de dizer isso...). Em contrapartida, se você não realizou esse sonho, o mundo é seu. Ligar o foda-se é só uma questão de escolha. Amar com consciência é só uma questão de escolha. Fazer o bem é só uma questão de escolha, gozar e ser feliz, dar prazer ao outro e a si mesmo, é só uma questão de escolha... sabe, com 35 a gente tem que ter descoberto o que é, o que representa, o que re-presente escolher. Porque é um presente mesmo que Deus, a vida, a natureza, a maturidade nos dá. 

Ah, ... sei lá. São só umas poucas divagações de uma madrugada, quando escolhi estar sozinho, em um lugar onde não conheço ninguém, estudando uma coisa que dificilmente vai me dar dinheiro, porque resolvi que minha felicidade não tem preço e que o Caminho só vale quando tem Valor.

Depois que fiz 35 anos. E um pouquinho.

All we need is love mesmo, a verdade é essa.

Mais sobre segredos óbvios nos outros posts desse mesmíssimo blog. É só procurar.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para quem tem prateleiras.



Essa é mais uma tentativa de fazer alguma diferença na vida de alguém.

Hoje cedo, recebi de um amigo (dos mais antigos que tenho) um comentário irônico sobre o 4 a 0 do Santos no Clube Atlético Mineiro, time que torço, time que foi presidido por meu avô, o delegado de polícia Hélio Soares de Moura, na época que o Kafunga jogava.

Fiquei curioso: o Cruzeiro teria ganhado de quanto, para que meu amigo viesse me sacanear? Não, ele empatou em casa, com o lanterna do campeonato brasileiro.

O que quer dizer: o prazer do meu amigo - e digo amigo porque sei que ele é - era simplesmente com a minha “desgraça”. 

Podemos analisar de um modo simples, como atitude corriqueira e sem nenhum fundamento. Acontece que quando deixamos essas coisas passarem e viram coisas corriqueiras, simples, estamos fazendo a nossa parte para que se perpetue a condição que queremos mudar, acredito.

Não acho que o brasileiro é filho da puta por natureza. Não acho que a malandragem tá no sangue desse povo miscigenado. Acho que isso é uma questão cultural que precisamos combater, mais até do que combater mandiocas ou coxinhas. 

Minha análise é puramente achismo. E meus fundamentos são puramente sensíveis. E não sou nenhuma Eliane Brum ou Gregório Duvivier pra que minhas letras tenham voz. Só tem voz quem é celebridade no Brasil. Mas, assim mesmo, continuo a escrever, como aquele catador de estrelas do mar, que pegava uma por uma e jogava ao mar, num documentário meio auto ajuda (não devia ter essa qualificação) que vi na década de 90.

Penso se a malandragem e a filhadaputagem não vieram justamente com o colonialismo e a dicotomia Trabalho X Chicote, ao invés de Trabalho X Justiça Social. Porque, imagino eu, trocar trabalho por justiça social seja edificante e estimulante. No entanto, trocar trabalho por “não ganhar chibatadas” cria uma inversão de Valores. Se temos Valores invertidos, como vamos cultuar o Bem, o Bom e o Belo?

Você deve conhecer a experiência feita com macacos. Resumindo e simplificando: 5 macacos na jaula. Um cacho de banana em cima da escada. Toda vez que um macaco tocava a escada, todos tomavam ducha de água fria. Em pouco tempo todos aprendem que não podem tocar a escada e começam a bater nos que tentam. Daí, vai se tirando os macacos um a um, e o mesmo processo continua. O que chega, que não está acostumado, tenta pegar a banana, até que aprende que não pode tocar na escada, não por causa da água fria, mas de tanto apanhar dos outros. Até que todos os macacos são trocados, de forma que nenhum deles tomou a ducha de água fria, mas aprenderam que se tocarem na escada, todos os outros vão cair de pau em cima.

Pois bem, acredito que estamos nessa condição. E acredito que o macaco do meu amigo me mandou a sacanagem via whatsapp, mesmo sem nunca ter tomado uma ducha de água fria. Acredito que tem muito político que age da mesma maneira, como acredito que a malandragem e a filhadaputagem no Brasil acontece por causa disso. Essa semana, coloquei uma crítica ao post do Diário do Centro do Mundo em que o Gregório Duvivier fazia uma foto dele com um suposto cigarro de maconha prestes a acender (na outra mão um fósforo aceso) e, em sua pretensa genialidade, ele usava a máscara da discussão sobre a legitimação das drogas, passando pelo caso bizarro e sem resposta do helicóptero do senador cruzeirense, pra dar uma ferrada nos contrários ao governo, chegando à conclusão de que já há descriminalização da maconha. Que “o que continua criminalizada é a pobreza.” 

O ponto de vista dele tem sentido, é claro. Mas ele o defende com uma triste inversão de valores, acredito. Quando eu postei, comentei o fato dizendo que não sabia o que era mais interessante (interessante = gera interesse), o post do Duvivier ou o banner da Petrobrás que patrocinava o blog. Aliás, o post dele saiu na mídia golpista, ou seja, na Folha de São Paulo. Quer dizer, "golpista" quando ataca o governo. Quando não ataca, enchem a boca pra falar: “na Folha de São Paulo.”

O que me deixa mais triste é que tem muita gente que apoia o governo que continua batendo nos outros macaquinhos, sem nunca ter tomado ducha de água fria. Assim como existe muito batedor de panela que não sabe o que defende ao atacar o governo com um post de apoio ao lado cego de uma bancada evangélica, ao lado sub reptício de uma bancada ruralista ou com um jactancioso post de apoio aos governos militares...

Estou triste.

E estou mais triste ainda porque estamos num momento onde todos nós, macacos secos, continuamos a nos digladiar secos e sedentos. Porque é melhor apontar o dedo pro outro (ou enche-lo de tabefes) do que dar as mãos pra tentar salvar o Brasil. Recentemente um petista de carteirinha me escreveu “gostaria que nos encontrássemos mais, independente de Dilma, galo e cruzeiro”. Morri. Morri porque nunca imaginei que isso poderia ser motivo para afastar uma amizade, como se o Bom Senso não fosse maior do que esse tipo de disputa. Bom Senso e Valores. 

Eu não sei. Mas coloco os Valores e o Bom Senso em uma prateleira mais alta. Imagino que eles não podem estar na mesma prateleira da minha escolha partidária. Porque, se não, eu acabo pegando em armas por causa do meu partido! Viro simplesmente massa de manobra! Já votei no PT: no Patrus. Porque julguei que ele era o mais sensato, o candidato melhor à época. Mas não aceitei ganhar uma baba pra virar a casaca e defender a Dilma em 2010 depois de ter saído do terceiro lugar e eleger o Anastasia com quase 70%. Porque, pra mim, essas coisas tem que estar em prateleiras diferentes...

Volto ao meu amigo. E queria abraça-lo agora. Dizer que sei que ele passou mais de 20 anos em São Paulo sendo obrigado a escolher entre Trabalho X Chicote. E que isso, invariavelmente, obliterou sua visão. Preciso mostrar a ele que estamos secos, que juntos podemos abrir a merda da gaiola em que estamos e ir tomar banho, mas de mar, numa praia qualquer, enquanto comemos nossa banana abraçados, e brindamos o fato de sermos diferentes e torcermos pra times diferentes. Afinal, se houvesse só um time, não haveria o prazer do futebol... E depois, quem sabe voltar e, de mãos dadas, reformar juntos nossa gaiola de nome Brasil?

Dica: leiam Eliane Brum. Ela tem artigos interessantíssimos, bem escritos e importantes.