terça-feira, 25 de agosto de 2015

Quero Despedir




*Na foto, o "Portal Grande Sertão" do artista plástico Léo Santana.

Bem disse Guimarães Rosa: “Despedir dá febre”.

Pois bem, eu quero a febre. Quero despedir. Quero o não querer, quero o que vier, quero a natureza plena, toda, simples. Quero a mais pura verdade. Não quero pedir nada, quero despedir. Despido de desejo, despeço.

Pedido cobrança, pedido lembrança, pedido ciúme. Pedido questão, pedido perdão, pedido súplica. O pedido é o perdido que quer se encontrar. Mas não. Despeço, despido, despedido.

Nu que não aguarda roupa. Sem emprego que não espera trabalho. Quem parte. Quem despede pode partir em paz. Partir sem pedir é a liberdade total.

Amigo meu tem um caso de amor com Londres. Ele está na porta do prédio e joga uma moeda. Cara, esquerda. Coroa, direita. Assim ele vai, se perdendo, perdido, encontrando a inusitada presença do desconhecido, do não desejo, do que pode surpreender efetivamente. Quando não expectativa, o novo real se apresenta. Quando pedimos, ou somos atendidos, ou não. Ou vivemos em espera, ou em saciedade desestimulante.

O peito que sai pela primeira vez do sutiã, a primeira vez que seu corpo mergulha no mar, o primeiro olhar de encanto, o primeiro dia de aula, o primeiro cume, o primeiro lume, o primeiro suspiro.

Eu fui primeiro na vida de alguém?

Quais foram as primeiras vezes não pedidas, não perdidas, em que me encontrei presença, em que me encontrei presente, embrulho do destino, laço de fita do acaso, pitada do tempero de Deus?

A febre esquenta as partes quentes do ser que anuncio. Caminho sem tudo pedir. E o Nada se faz presença, nadamente sendo, humos da arrebatação, terra arada dos sonhos realizáveis, janela aberta dos passarinhos do mundo, veredas que acolhem borboletas, quero-queros, peixes e catitus.

O amor que despede é o único amor feliz.





quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ponto





cursor pula na tela

que palavra escrever?

nenhuma

cabe

todas

escorrem no papel eletrônico

cabe

nenhuma

nada vazio

inunda a gente

como no conto de luz do Garcia Marquez


não invento

a roda

vou

barulhinho de aro

tec tec tec tec

limpa o líxico

barulhinho polifônico

trago em meu silêncio

límbico


lâmbido

os méis soníferos

doces viagens

despertam sonhos

cá estou

cavou

não tem pressa de voltar


Deu-se

estrada infinita

fé se frases

crensentença

têxticamente

Folha Branca

envolve

tudos


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A gente só quer um abraço, Dave Grohl.




Você conhecia Cesena?

Eu ia perguntar se você conhecia o Foo Fighters, mas aí eu fiquei com medo da resposta.

Engraçado isso. Na faculdade, uma amiga começou a namorar um cara e fomos passar o final de semana no meu sítio, esquema casais. Vinho vai, vinho vem, sou surpreendido com essa pérola que regurgitou da garganta do porquinho:

– “Elis Regina? Quem é essa dona?”

Minha taça quase caiu, em ato de estupefação preconceituosa. Sim, acredito que somos assim. Muito preconceituosos. No meu caso, devo dizer, meus preconceitos são de outra ordem que não os mais comuns, passíveis de penalidades na legislação. Ainda assim, dignos de serem trabalhados. Por que cargas d’água eu deveria achar que todo ser humano habitante do Brasil com idade (hoje) de 40 a 45 anos, tem obrigação de conhecer, ou pelo menos ter alguma referência sobre Elis Regina?

Me lembrou aquele ato preconceituoso contra o Zeca Camargo - um apresentador da Rede Globo - que fez uma crítica à comoção nacional pela morte de um cantor sertanejo, que ainda não havia graduado, de nome Não Faço a Mínima Ideia.

Ninguém nasce sabendo p nenhuma. Ou melhor, ninguém nasce conhecendo... porque “saber” é outra coisa. Ou, pelo menos, deveria ser.

Pra quem ainda não viu as High lights da semana que passou, especificamente do dia 30 de julho, um habitante de Cesena na Itália ficou com vontadinha de ver o Foo Fighters tocando na cidade. E gastou mais de um ano com um projeto duca: juntar 1.000 músicos pra cantar um hit dos caras, viralizar na rede, e tocar o coraçãozinho dos cinco integrantes da banda de rock.

Eu conheço o Foo Fighters mais ou menos como o meu amigo conhece hoje a Elis Regina. Não tenho um CD (eu ia dizer disco) deles. Acho que não tenho uma música deles no meu Ipod, apesar de gostar dessa que rola no viral da internê. Não sei se conheço outras músicas do Foo (to quase íntimo). É que na minha adolescência meu pai não me colocou rock pra escutar. Me entupiu lavagemcerebralmente de bossa nova, MPB, clássicos eruditos, samba (que alguém inventou que essa categoria agora é “de raiz”, pra não comprometer a honra pagodeira).

Claro que podemos pensar que o mesmo habitante de Cesena poderia ter pedido um quilo de alimento não perecível pra cada um dos mil músicos pra acabar com a fome mundial, ou algo mastigável do gênero. Mas, podem ser preconceituosos com meu post, os sonhos são tão importantes quanto os alimentos. Ainda bem. É o que nos torna muito humanos. Cabe aqui a reflexão sobre um novo poder de mobilização mundial. Que ainda não foi tão explorado quanto poderia... Nem por religiões, nem por políticos, nem por líderes, nem por sonhadores... Não, não foi. Ainda não foi como poderia ser. Mas vou deixar a reflexão pra você.

Eu conhecia Cesena, porque minha namorada já morou lá. Só por isso. Porque passou a fazer parte do meu repertório. O repertório é como uma espécie de umbigo social. Dele temos orgulho e preconceituosamente não queremos que cortem nosso cordão umbilical. É aí que mora o perigo. Porque tanto o cara de Cesena merece um abraço, quanto o Zeca Camargo, quanto meu amigo que eu sacaneei chamando de porquinho - pra evocar a passagem bíblica citada por Mateus 7.6.

Pera aí... você não sabia que “pérolas aos porcos” tinha vindo daí? Tudo bem. Ainda assim, eu deixo você ir pra Cesena receber um abraço do Dave Grohl. Mais sobre abraços e preconceitos nos outros posts desse mesmíssimo blog.