segunda-feira, 8 de junho de 2015

pre conceito e pro vocação



Domingo, 9h da manhã, virei a esquina e me deparei com a babá vestida de branco, empurrando o carrinho do bebê. Vinha a mãe, ao lado, um pouco atrás, com roupinha de caminhada, produzida, unha feita, no Whatsapp e puxando a guia do cãozinho engomado com lacinho na cabeça.

Meu pré conceito me diz que é o fim da feira a mãe ficar com o cãozinho e com o whatsapp enquanto a babá fica com o bebê. Não são dois bebês. É um só. Mesmo que fossem. Já sei, vou ser linchado pelas mães a favor das babás a qualquer tempo e lugar. A coisa tá tão séria que já vi uma babá pra cada filho. Mais a chamada “folguista” (ou duas, pro fim de semana). O argumento que normalmente ouço é o seguinte: ah, a mãe trabalha a semana inteira, precisa descansar no final de semana.

Ok, e até agora o pai não entrou na equação.

Estou cansado (e triste) de ver pais que trabalham demais, em busca de um melhor futuro pros seus filhos. Um futuro que teoricamente não existe. Não, não existe, por mais que você queira. Por mais que você pense que eu sou apenas um provocador. O passado é o presente da lembrança. O futuro é uma ilação. O melhor presente que se pode dar a um filho é a presença rica e edificante dos pais. Da mãe e do pai. Há um limite tênue entre “o possível e o excesso”. Minha mãe, sábia, muito sábia, sempre me falou uma frase que faz todo o sentido: “tudo de exagero é chato, meu filho”. E isso serve pra tudo. Não adianta seu filho ter uma gorda poupança e um pai que morreu de tanto trabalhar. Não adianta seu filho ter uma puta previdência privada e a lembrança dos presentes que viveu somente com a babá. Desde que o mundo mudou e os pais tem que deixar de conviver com seus filhos para trabalhar e ganhar mais dinheiro em busca de maior conforto, oportunidades ou acumulação para si e para seus filhos, que as referências tem se perdido... Hoje em dia, quem tem limite é município. Jovens se esquecem do por favor, obrigado, com licença, de nada, desculpa e por aí vai. A ideologia do consumo contamina as relações interpessoais a ponto de: estragou, joga no lixo. Troca. Por um modelo mais novo: de mulher, de marido, de namorada, de desejo...

Hoje, a descarga não é por que é certo, não é o mínimo a ser feito, não é por educação básica, primária. Nível elementar. “Para seu conforto e higiene e como cortesia ao próximo usuário”? Cortesia pra mim é outra coisa, está um degrau acima. Descarga e argumento nem tinham que estar na mesma frase. Nem no mesmo texto, ou no mesmo contexto.

O professor de filosofia da USP Clóvis de Barros Filho se viu em um dilema quando seu FIAT Doblô estragou: já famoso por suas inúmeras e caras palestras, poderia trocar seu carro finalmente por um SUV importado, último tipo, bacanão, que fosse mais adequado à sua importância agora adquirida. Lápis e papel na mão, percebeu que a diferença entre um Doblô idêntico ao dele 0km, que o levava e buscava confortavelmente e os tantos importados chiques que seus amigos o indicavam, dava pra manter um asilo de velhos por um ano no interior de São Paulo, na cidade onde tem relações familiares e afetivas. Não foi preciso ser filósofo renomado pra tomar a decisão que equalizava justamente “o possível e o excesso”.

Quando a descarga do tempo me levar para sempre, espero que minha filha tenha a cortesia de se lembrar dos presentes que foram meus momentos junto a ela. E que minha escolha do possível seja pra ela a compreensão do que significa amor em excesso.


Mais sobre exceções incômodas em outros textos deste blog.


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