quarta-feira, 17 de junho de 2015

Para Fernando, Nestor, Manoel e Beatriz.







Em setembro de 1990, depois de nove meses de intensa preparação, 20 músicos, atores, dançarinos, bailarinos, cantores, instrumentistas subiam no palco do Teatro do SESI para a estreia do musical Manoel, o audaz. Com direção geral de Nestor Sant’Anna - meu pai, que hoje completa 71 anos - e roteiro de um de seus parceiros de sonhos e ideais, Fernando Brant.

Dois grandes pensadores e agitadores culturais, Nestor Sant’Anna e Fernando Brant passaram a vida sendo vozes de um mundo que eu ainda não conheci. Um mundo onde a cidadania, a honra, a verdade, a justiça são Valores inabaláveis. A fala dos dois, que vem desse mundo sonhado por eles e por tantos parceiros que comeram juntos a poeira da estrada por onde passou o jipe Manoel, ecoa em meu coração até hoje, e é o discurso que, quero crer, minha filha de 4 anos vai ouvir de mim e vai pronunciar de seu jeito aonde o povo está.

Fernando embarcou em definitivo no Manoel, o audaz. Todos nós embarcaremos.

Em meus sonhos mais íntimos, do alpendre da casa do meu pai - que foi vendida em 91 para custear a palavra firmada com toda a produção do espetáculo, já que o então Plano Collor levou não só a poupança, mas todos os patrocinadores sem palavra -, eu me posto em meditação.

Faço uma oração para o meu pai, que hoje completa mais um ano de vida e tem o presente de poder me ajudar a construir o discurso que ainda podemos fazer juntos pra minha filha.

Faço uma oração para o povo brasileiro, que passou os últimos 25 anos ainda sem compreender que cidadania é mais importante que poder de compra de eletro doméstico e faço uma oração para o Fernando Brant, pra que, tendo finalmente passado pro lado de lá de suas estradas poéticas, nos abençoe verso, nos abrace rima, nos perdoe ritmo, por sermos tão lentos em cadência e por termos sim, “medo de amar”.

No jornal (foto acima) que divulgava o espetáculo, a palavra de Fernando, que falava não de 2015, do que viveríamos 25 anos depois, mas do que acontecia em 1990. Vale ler pra refletir sobre o pó da estrada, enquanto você escuta a música acima.

Parabéns, Pai vovô.

Somos gratos, Fernando.

Com a palavra, Fernando Brant (1990):



“Nosso dia-a-dia é ler os jornais
testemunhar a miséria das ruas
ouvir a voz suína dos poderosos
conviver com o coro uníssono dos que declaram inevitável a predominância da ignorância, da corrupção e da falsidade.
Contra esse tipo de ideia cimentada na inconsciência nacional é que Manoel, o audaz (o jipe, a música, o musical) levanta sua poeira.
Que Brasis se escondem atrás da visão oficial?
Que pessoas, que corações e sentimentos pulsam nas casas e nas ruas, o que se passa no interior da gente deste país?
Ligar os motores do Manoel - além de musical ato de coragem - é interrogar tempo e espaço
mundo real e mundo interior.
É procurar conhecer nossa vocação, nosso destino.
Mas afinal, Manoel, o audaz o que será?
É viagem, é cor, é ventania.
São vozes e corpos que cantam dançam falam.
São pessoas no palco, na vida
brasileiros de qualquer idade, homens e mulheres,
percorrendo vários caminhos que levam a várias verdades.
A verdade é plural.
Muitos países, muitas músicas, muitas culturas
desabrocham desta longa estrada de pó e esperança.
A liberdade tem quatro rodas
e um motor de não sei quantos cavalos.
O povo é sábio, é simples, é bom
mas precisa se descobrir cidadão, senhor de direitos
senhor de seu nariz.
Quanta vida corre além dos escritórios e das cidades;
quanta dignidade existe além dos conchavos de gabinetes;
quanta honra, quanta generosidade brota do peito
da maioria dos brasileiros.
“Quanto mais economia, mais ditadura;
quanto mais cultura, mais democracia”: a reflexão de Betinho deságua
na trajetória destes jovens
que no teatro encenam a realidade.
A realidade tem dentes
mas com trabalho e sonho podemos domesticá-la.
Ainda mais quando o sonho vem em forma de música e dança,
esses dons humanos de cativar os deuses. Esses dons
que os brasileiros, com maestria, cultivam para explicar o mundo.
Com música e dança nós manoelamos.
Manoelar é não aceitar o prato feito, o pré conceito
a história oficial, a versão pronta e acabada. É ir lá.
É perguntar, experimentar, duvidar.
Ver e ouvir.
Conversar, aprender. Tentar.
É viagem de qualquer geração que tenha sonho nos olhos e no coração.
É inventar caminhos, conhecer pessoas
procurar a alma do homem e das coisas.
E descobrir no fim da estrada que existe um país e um povo
que merecem mais respeito.”


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