terça-feira, 19 de maio de 2015

Amargo que nem jiló




A bandeira do Brasil é verde porque vivemos em um país amargo que nem jiló.

Preciso falar, mesmo sabendo que não há a mínima chance de ser ouvido. Pra começar, esse texto não vai viralizar. Não há cachorros sorrindo nele. Não há neném dançando como se fosse uma prostituta na boite. Não há champagne, não há cidades europeias, praias paradisíacas, mulher pelada, carros importados, sequer uma simples ode ao consumismo. Ou seja, nem meus dois mil e quinhentos “amigos” virtuais vão ler. Muito menos os duzentos que estão na fila pra que eu aceite a “amizade” deles.

Se nem quando pedimos um clique solidário para ajudar uma entidade beneficente conseguimos espalhar a informação, imagine quando não há informação quente.

É só um texto simples dizendo como o Brasil é amargo que nem jiló. Nenhuma novidade.

Essa noite fui furtado (conferi o termo no Google). Furtaram o rádio do carro e o estepe. Não, não foi dentro da garagem porque moro em um apartamento muito antigo, financiado pela Caixa, que comprei pra minha filha e não tem garagem. Não, eu não tenho apartamento. Mesmo com 41 anos, tendo graduação, pós graduação e um mestrado quase completo. Furtaram os itens no carro 1.0, 2008, que dorme na porta do apartamento.

Fico pensando que tenho pena dos ladrões que me furtaram. Sim, só pode ter sido mais de um. Muito provavelmente, eles estão em condições piores que a minha. Muito provavelmente, eles tem um carro mais novo, uma tevê de LED mais bacana, de maior polegada (a minha, de 42 polegadas está desligada faz 2 anos), uma máquina de lavar e uma geladeira mais nova, um tênis mais na moda que os meus. Mas a diferença entre os ladrões que me furtaram e a pessoa que redige é a seguinte: eles devem ter mais dinheiro e eu devo ter mais educação e alguma cultura.

Fico pensando que se eu não tivesse educação e alguma cultura talvez faria a mesma coisa. Afinal, minha rua é esburacada, tenho que pagar plano de saúde pra mim e pra minha filha, mesmo sabendo que isso não me garante nada, tenho que pagar escola particular pra minha filha, aula de esporte e iniciação musical porque o Estado não dá a mínima para o que pago de impostos. Aliás, minto. Dá sim, tanto que ele divide esse dinheiro, coloca na cueca, vai pra fora do país, investe em portos em Cuba, compra triplex no Guarujá ou contrata o Tony Ramos para fazer propaganda. Porque ele, sim, viraliza (me desculpe, Tony Ramos, que também não vai ler este post, sou seu fã).

Se bem que tem outra diferença básica, eu não mexo com drogas. Só a lícita que induz ao reconhecimento social, o álcool. As que os ladrões que me roubaram mexem (provavelmente), não.

Sim, eu poderia estar em uma outra condição. Se em 2010 eu tivesse aceitado a oferta do partido contrário ao que representei nas últimas eleições para virar a casaca, só pensar em mim e ganhar o valor de um lote para fazer a mesma coisa que tinha feito pelo partido adversário, talvez a situação fosse diferente. Mas, como tenho educação e alguma cultura, não foi o que aprendi em casa. Hoje, para metade dos meus “amigos” do facebook eu sou "um coxinha que tem um duplex e bato panelas, um reacionário que não tem a mínima noção da realidade".

Por falar em imóveis, se alguém souber de alguém que queira comprar um sítio - o único bem que meu pai de 71 anos de idade comprou com o trabalho de uma vida inteira - me avise. Ele vai vender porque tem várias pessoas que ele conhece que estão passando aperto: o marido morre e como a esposa não tem condições de pagar os impostos do único bem que eles construíram a vida inteira, a esposa passa aperto e tristeza, justamente quando deveria aproveitar o tempo que resta com alegria e paz. Meu pai não deseja isso para a minha mãe. Mesmo sabendo que meu cordão umbilical e o cordão umbilical da minha irmã estão enterrados naquele pequeno sítio.

Não estamos com pressa. Mas, é melhor colocar à venda. Ninguém sabe o dia de amanhã... Quantas pessoas mesmo você teve notícia nos últimos 5 meses que foram mandadas embora de seu serviço? Quantas empresas mesmo você ficou sabendo nos últimos 5 meses que estão em sérias dificuldades? Vai que o número de furtos aumenta... Ou pior, vai que ao invés de furto, a gente seja surpreendido com roubos? Não sei no seu bairro ou na sua cidade. No meu, a segurança não está exatamente valendo tanto quanto a Brastemp que os rapazes que me furtaram devem ter em casa.

Bom, pelo menos eles devem ter sido bem colocados na última pesquisa do IBGE. O Brasil tá melhorando! Afinal, eles tem poder de furto e de compra.

Decidi. Vou passar o resto do meus dias tentando juntar dinheiro pra ter condições de mandar minha filha morar na Austrália que, inexplicavelmente pra mim, tem uniforme verde e amarelo.

Pensando bem, estou sendo muito injusto. Adoro jiló. O verde da nossa bandeira deve ser a cor do capim que a gente come.



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