terça-feira, 7 de abril de 2015

Um pau pra chamar de seu





É preciso que algum estudioso faça um artigo de fundo sobre o pau de selfie. Eu não sou estudioso e nem tenho conhecimento para isso.

Aliás, nem pau de selfie eu tenho. Meu pau é outro. Oco.

O pau de selfie é o falo contemporâneo. A ereção compartilhada. 

Se dá assim: o pau de selfie fecunda o anonimato. Nasce o reconhecimento. 

Filho legítimo do indivíduo com a sociedade, morre à míngua porque sua mãe é desnaturada. Ela não quer dar de mamar. Por isso, morre dias, horas, minutos depois, sem atenção, sem carinho, sem cuidados. Coitado.


É preciso que alguém discorra sobre o pau de selfie. Coisinha fina que não faz canoa. Não bóia, não cutuca, não é pra toda obra, não escorrega, não protege, não faz calar. Não consola. Nem goza. Mas tá aí, pra cima e pra baixo pra todo mundo ver. Pau enorme, nosso pai?



Eu tenho pena do pau de selfie. Porque de self ele me parece ter muito pouco. Não sei (mais) qual o limite do particular e do coletivo. Talvez essa questão remeta à análise social e política, à pesquisa sobre a construção do indivíduo no mundo contemporâneo balizado pelo consumismo, às questões éticas entre o público e o privado, entre a importância que damos à coletividade e ao ser social. Mas o compartilhamento é esse mesmo?

Nada mais egoísta do que compartilhar? 

Eis a charada contemporânea. Quase um koan zen budista a ser revelado em busca da iluminação. Eu não sei. Mas imagino que seja triste pensar na coletividade corrompida. Numa espécie de quebra do fundamento primitivo socialista que não reparte o bem. Reparte o individual inacessível. Nada que ver com a verdade da partilha. 

Quem, afinal, pode comer aquele prato? Olha que bom a festa que não estou. Olha como é importante quem não sou eu. Veja como é bonito, aceito, rico, in, divertido, descolado, audaz, esportista, interessante, destemido, só. A foto do outro mostra um momento que não é, já foi. A foto do outro marca o lugar da individualidade mostrada, não repartida. 

Se Jesus fizesse uma foto do pão e do vinho e tivesse 2,7 milhão de partilhas no Twitter, como a famosa foto do Oscar da apresentadora Ellen DeGeneres, ninguém ia comer seu corpo e beber seu sangue, como seus 12 discípulos. Não é exatamente isso, o repartir. Ou agora é?

Quem parte e reparte, fica com a melhor parte? Não nesse caso. Fica com tudo. E não compartilha, mostra. Eu tenho dó do verbo compartilhar. Foi usurpado. E a banalização do verbo curtir esvaziou seu valor. Curtir não significa mesmo muito hoje. 

Sinto muito, mas não consigo ver o pau de selfie como um artifício do Mané, mas sim, como um dispositivo de Foucault. No entanto, ele não dá poder a quem usa. Só empodera a contemporaneidade consumista que estende seu domínio subjugando o indivíduo.

O pau de selfie é a espada do grande Outro Lacaniano. E coitados de nós, continuamos sem abraço.



Um comentário:

Vitoria Castro Alves disse...

... Meio a meio o rio ri
Por entre as arvores da vida
O rio riu, ri ....