quinta-feira, 9 de abril de 2015

Perdão Pascal




Meu ovo de páscoa é de torresmo de barriga. Com recheio de Heineken. Que eu saiba, é só uma pessoa que vende ali no Padre Eustáquio e ele não é barato. Acredito que isso se deva ao mercado consumidor que é, de certo modo, restrito. Talvez por falta de conhecimento. Além do quê, imagino que a possibilidade da escolha da cerveja seja, no fundo, um empecilho à parte, que, segundo o rapaz que faz as encomendas, “isso defeculteia e muitcho”.

Imagino que usar o verbo “defecultar” na mesma frase que “ovo de páscoa” é mesmo coisa defécil.

Torresmo não é a felicidade em si. Mas é o que mais se aproxima no que se refere a excessos possíveis, tirando o sexo. No entanto, talvez não seja prudente relacionar o sexo à Páscoa, por mais puro que possa ser. Por mais que se trate de morte e ressurreição no ato em si, e de vida e crescimento pós ato, em alguns casos conceptivos. Já o sexo em si não é excesso. Mas em excesso, quando bem feito, ainda representa a felicidade possível. Uma espécie de Páscoa individual momentânea.

Assim como pururuca não é torresmo de barriga, sexo não é amor. Apesar dos dois também chegarem bem perto. No caso da pururuca, falta a carne e sobra a gordura. No caso do sexo, sobra a carne e falta a gordura. O que dá o gosto ainda mais gostoso ao torresmo é a gordura. O que dá o gosto ainda mais gostoso ao sexo é o amor. Assim, pela lógica, o amor só pode ser uma espécie de gordura.

Aplicando essas ideias coerentes e bem fundamentadas na Páscoa, Jesus é a gordura em si. Curioso, se pensarmos naquela imagem do Cristo com as costelas aparecendo de tão magrinho. Aliás, apesar de forte e justificada, essa imagem não combina com o Cristo que trago em mim. Meu Cristo é o renascido. É o que mais se aproxima dos olhos de uma criança abrindo o ovo de páscoa, ressuscitado no pai que pode abraçar sua filha, ressuscitado na mãe que dá a luz, ressuscitado no avô que recebe a graça da saúde, ressuscitado no irmão que encontra a paz, ressuscitado no amigo que serve o copo lagoinha da cerveja gelada e pede uma porção de torresmo, no encontro esperado. Brindemos.

Talvez o mais importante a ser tratado na Páscoa não seja enfim a morte e a ressurreição, mas, acredite, o Perdão. A ressurreição só é possível se houver perdão. A morte virá. Ela vem, sempre. Ela é o princípio inexorável da vida. Assim como o avião está constantemente em queda livre em uma parábola controlada, estamos morrendo a cada fração de segundo, gastando a vida com torresmos, pururucas, sexos, amores, brindes, abraços, ovos de chocolate e cervejas geladas e quentes.

Sabe? Nessa Páscoa, mais que chocolate, desejo que você aprenda o perdão. Seu torresmo, sua cerveja, seus abraços, seus chocolates e seu renascimento vão ficar muito mais gordurosos. Cristicamente falando.

Feliz torresmo.


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