terça-feira, 24 de março de 2015

Estátua


– Raio congelante!

E meu coração se aquece. Eis o mistério da fé.

Coitada da Elsa. Mal sabe ela que pode congelar e ao mesmo tempo aquecer o coração de quem se ama. Minha filha adquiriu essa habilidade.

Zap! E pronto. Viro estátua.

O Tempo ali não resiste. Kairoz toma conta de tudo. O mundo automaticamente entra em modo Stand By. Os passarinhos param no ar, o lixeiro para no ar, a bigorna para no ar, a fonte congela na foto.

Para, Tempo! Por favor, não me deixe ir embora! Faça alguma coisa! Que vontade que nunca mais ela me fizesse a cosquinha ou o Boo-libertador...

Não coloco bateria nos meus relógios. É minha forma de protesto.

E Beatriz a dizer ao Tempo que nos dê uma folga, que é preciso que ele não passe, pra ficarmos ali, sempreando, juntos, sorrindo, ou melhor, risando – como ela gosta de dizer. – Papai tá risando!, admira ela. E ri entusiasmo.

Quando Deus dentro, paraíso fora. Elo.

Daí ela pega a estátua, não importa o lugar que esteja, e começa a moldá-la. Mãos, pernas, braços, pés, rosto, espírito: me curvo bamboo frente à sabedoria de minha filha. Jesus estava certo sobre as criancinhas. Jesus está certo sobre a minha filha.

Minha bênção, meu Amor.

E o coração explode em fractais de esperança. Vagalumo.

Estão faltando estátuas de pais nos shoppings do mundo.



domingo, 22 de março de 2015

Para Vó Fide


Na foto Tia Yara - que fez ontem 90 anos "do joelho pra baixo", diz ela.


Como se fosse hoje: a minha única lembrança de Vó Fide. Na varanda da casa da Rua Padre Virgulino, já com a entrada da casa pelo lado esquerdo, Vó Fide pegando um Papai Noel de chocolate no vaso de planta que servia de árvore de Natal pra me dar.

De vovô eu me lembro muito mais. Mas de Vó Fide eu só tenho essa lembrança, desse dia, bem vívida em minha memória. E consigo sentir saudades. Muitas. 

Outro dia, uma amiga me disse: “se houver saudades, quer dizer que houve amor”. Acho que ela tem razão. A única lembrança da minha amada Vó Fide eu passei meus 41 anos recheando com pedacinhos de amor que fui colecionando da saudade dos relatos sobre minha avó. 

“–Bê-Bê-rê-Bê-Bê-de-vo-vó!”, ela dizia. E eu retrucava: “– De mamãe!”

Gosto de pensar na alegoria da vida eterna como algo perfeitamente palpável por nós, hoje, em vida. Em cada filho, em cada neto, em cada descendente de Vó Fide um pouquinho dela, um traço, uma característica - seja um olhar, um sorriso, um jeito de brincar (queimando com um pinguinho de café ou não...). É uma espécie de comprovação empírica da vida eterna que, semeada em cada descendente por meio do DNA e da memória saudosa, desses pedacinhos de amor, faz crescer e nasce, e se pode viver, alastrando. 

Vovó virou muitos.

E se Tia Milu estivesse aqui da maneira primeira como a conhecemos, certamente eu iria pedir a ela auxílio nesta parte do texto específica, para que me explicasse através de seu conhecimento sutil por que o mesmo acontece com Tia Yara, mesmo não tendo descendentes legítimos.

Eu procuraria essa ajuda para que pudesse embasar o que vivi nos dois Caminhos que percorri, tanto no de Santiago quanto no de Roma a Santiago de Compostela, o que me deu a certeza do empirismo do que aqui tento – talvez sem sucesso – explicar com palavras.

Existe, sim, algo mais que se pode provar... Mas ainda não cientificamente. 

Uns chamam de acaso. Outros, de coincidência. Outros, de natureza. Outros, de Deus. 

Sabe? Deus é o ninho do eu. E quando o eu cresce, planta, rega, colhe, frutifica, luta, ri, chora, dói, sente, sofre, ama, perde, ganha, acumula, doa, ajuda, escolhe, reza, encontra, deseja e faz 90 anos, pode ser chamado de Yara. A mesma que espalhou tanto amor e memória afetiva nos descendentes de vovó, que às vezes nos confundimos se as características que temos dela são só pedacinhos de amor, que vêm em forma de saudade, ou se o mais puro e inequívoco DNA. 

Eu sabia. Tia Yara, afinal, virou avó de todos nós. 

Somos gratos, Vó.



sexta-feira, 6 de março de 2015

Foice



Acordou triste.

Tinha perdido o entusiasmo. Estava cheio de tudo. Precisava calar, precisava ouvir o silêncio, precisava descoisificar-se. A cheiísse de tudo não guardava espaço pra Deus entrar.

Precisou cavar. Foi necessário jogar tudo fora, todos fora, conceitos fora, ideias fora, problemas e soluções fora, soluços fora, mágoas fora, sorrisos fora.

Foram dias. Meses. Anos.

Nós.

Fomos, foram-se. Foi-se. Foice. Decepou tudo.

Varreu.

Passou pano.

Deixou secar.

Abriu a janela da alma.

Abriu a porta do coração.

E um dia, depois de muito tempo Nada, descoisificou-se finalverdadeiramente. E pode ouvir seu sangue, sentir-se pele, respirar o vazio do ar, descobrir-se inspiração e expiração.

Coraçificou-são.

Hoje, ouve passarinhos e escuta crianças.



Na foto, Bê Sant'Anna no Caminho de Santiago em 2009