segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Cheiuras




Há um livro escondido nas teclas do meu computador. Ele espera, pacientemente, os mais de dois milhões e quinhentos mil passos que dei chegarem para se fazer, em memória, história, perdas e danos.

As verdades re-veladas se turvam nas noites insones, mal dormidas. Os cacos, juntados, se colam em mosaico. No ano que passou, fui roubado. Roubaram o moleskine com todas as minhas anotações sobre o Caminho, as pessoas, os endereços, as reflexões poéticas, os lembretes.

Lembretes roubados se tornam esquecimentos no desespero da perda. Nada há a fazer. Desfazer expectativas como desfaço minhas malas. Descobri, desde o primeiro Caminho que preciso de Nada. E só. E hoje, pesarosa mente que mente ao não me deixar dormir.
Vá, se levante, abra sua mochila. Você vai encontrar o que procura.

Sim, o Nada estava lá. Bem juntinho da responsabilidade pela escolha de todas as teclas a serem desveladas em códigos irresponsáveis que nos tragam a Verdade.

Hoje, sem querer, vi uma foto que trazia um quadro pintado na parede da mente. Ele mentia. Retratava uma ideia, que só morava no campo das ideias. Sim. Talvez o livro escondido deva ficar assim, no lugar da mentira. Porque a mentira entre o significante e o significado é mesmo tudo aquilo que provoca dor, perda, dessabor, esquecimento, cheiuras.

Só mesmo no vazio do Nada mora a paz, fonte de toda paciência, pulsão de todo passo, silêncio de toda existência.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sistema Solar


foto: mamãe


Há uma dor sobreviver. É que o sorvete de creme derrete. 

O mundo não se parece com o sanduíche da foto da lanchonete.

Sabe? Escutei uma canção cantada por minha filha. Entendi a etimologia da palavra entusiasmo. Deus presente, com laço de fita e surpresa, bolo de chocolate e parabéns pra você pra mim. A semiótica é só soma na multiplicidade desconcertante, e complexamente simples, da infinita definição de amor trazida por minha filha.

Há tantas pessoas no mundo que precisam conhecê-la...

Seus quadros são mais lindos do que os de Matisse. Sua voz soa mil vezes mais linda do que a voz de Joss Stone. Sua primeira composição (que fez aos 3 anos e sete meses) deixa Jobim no chinelo. Sua graça faz de Didi Mocó um triste pierrot que chora. Sua presença ilumina tudo à sua volta. Ela cura enfermos, traz de volta a vida, colore flores e faz o Vento ventar. Marmente. 

Desconfio (com base empírica) que ela tenha influência sobre a tábua das marés. De uma coisa eu tenho certeza: a Lua é influenciada por ela (e o céu tem mais estrelas desde que chegou).

Minha filha é uma seta amarela. Rumos.

Acordo. Lambo o sorvete do canto da boca.

E constato, sem surpresa, que não é sonho. É sonho.