terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Natal e a Verdade (para a mãe de minha filha)


Há pouco tempo, um amigo me disse: 
– Sabe? Quando ouvimos um lado só de uma história, sabemos muito pouco sobre ela...
E pouco depois me deparei com essa imagem:

Desde então, tenho meditado muito sobre isso. Meditei durante os meus três meses de peregrinação, inclusive.

Quando escrevi um texto sobre o natal desse ano de 2015, que aqui coloco o link, eu não poderia supor que... SIM: o Menino Jesus estava me preparando uma surpresa. O Natal desse ano transcendeu a espera, o sonho, o meu conceito de alegria.

A primeira foto desta página retrata um fragmento disso tudo, que ocorreu hoje, na hora do almoço, quando minha filha e sua mãe almoçavam na casa dos meus pais, em Belo Horizonte. Depois de uma espera de 4 anos, neste natal pude pegá-la sem ser cerceado, com a confiança devida, com o respeito que todo pai e toda mãe merecem. Minha filha vai ficar até o final de janeiro em Belo Horizonte e, finalmente, tenho a oportunidade de sair com ela como o pai que sou...

O quadro acima define bem uma situação como essa, acredito. Fico pensando que nosso mundo está mesmo muito triste, cada vez mais dicotômico, cada vez mais dividido entre certo e errado, bem e mal. O Bom e o Mau podem coexistir em pontos de vistas distintos sobre o mesmo assunto, segundo sua abordagem, seu foco, sua distância, seu ângulo, seu preceito, seu pré-conceito. E, acredito, é sinal de sabedoria subir na mesa como fez o professor da Sociedade dos Poetas Mortos, para exercitar o ponto de vista que nunca foi exercido. É disso que Jesus falava quando dizia sobre "a outra face"...

Não sei se foi isso que fez a mãe de minha filha... Não sei se meu texto de 11 de novembro sobre o natal de espera que eu teria a tocou de alguma forma. Não sei se o milagre de minha peregrinação de 2.500km continua dando sementes ou brotos... Não importa. 

Importa é ter visto, neste natal, minha filha fazendo carinho em minha tia de 90 anos, que é como uma avó para mim. Importa que minha mãe chorou de emoção ao ter a neta presente, finalmente, no almoço do dia 25 de dezembro, quando celebramos a chegada do Menino Jesus em nossas vidas. Importa que meu pai tenha nadado com a neta, a carregado no colo, tocado piano, acordeón, escaleta, marimba de vidro com e pra ela. Importa que minha irmã tenha comprado um presente pra ela com seu namorado no Rio e que eles vão receber a graça de entregar, pessoalmente, e presenciar o brilho inigualável de seus olhos. Importa que eu não sei o que estou sentindo, porque nunca me foi dada a oportunidade de sentir algo igual em toda a minha vida.

A naturalidade e a beleza da alegria plena só são mesmo compreendidos em toda a sua extensão pelas crianças. Há muito deixei de ser criança. Mas a que mora dentro de mim e a que mora fora se encontram e dançam e pulam e fazem festa, finalmente, em meu pequeníssimo viver.

A Verdade tem mesmo a ver com o Natal. O Natal tem mesmo a ver com a Verdade. 
Pude VER NA TAL VERDADE a palavra VER. Tem a ver com um jeito mágico, espiritual e muito amoroso de olhar. Só isso.

Sou grato à mãe de Beatriz. Que deu à minha filha, à ela própria, a mim, às nossas famílias, um natal inesquecível, que ficará inscrito no tempo do Sempre. Pra quando quisermos nos lembrar que o Amor é a única coisa capaz de vencer a morte.

Sou grato, Raquel.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Questões de Linguagem e Tradução






As minhas aulas no mestrado acabaram. Posso voltar para a casa da minha filha, onde moro, em Belo Horizonte. Daqui, da ilha interna de Florianópolis, paro e penso. E elejo a primeira coisa que devo agradecer em minha passagem por aqui: o encontro com Yeo N’Gana.

Costamarfinense, magro, estilo corredor, das cambetas finas e compridas, voz grossa, sorriso maior que o rosto, maçãs do rosto bem salientes, olhos profundos, negro azul-marinho, Yeo é um irmão que ganhei depois de 42 anos de vida.
Moral, ética e inteligência de fazer inveja, Yeo é uma vara de bambu. Resiliente. Forte. Firme e absolutamente natural. Seu silêncio grita:

– “Quando você fala baixinho, nos ouvidos, a pessoa escuta com a alma.”, me disse um dia.

Aprendi muito aqui nesses 4 meses intensos de quase prisão domiciliar. Mas aprendi mais mesmo tentando Traduzir o meu novo irmão Yeo. Pra começar, foneticamente, seu nome é um Koan Zen Budista. Quando o chamo, pergunto por mim: “E eu?” A letra “e” é fechada na pronúncia, da mesma maneira que se pronuncia o “e” presente na palavra “eu”. É como se eu quisesse saber onde estou quando chamo aquela pessoa tão distante e tão próxima de mim...

Minha idiota ignorância não sabe distinguir bem o que precisa traduzir “ser da Costa do Marfim”. Ele mesmo, ao tentar explicar porque não fala tanto de si e de sua terra, disse a mim e a uma colega: – É difícil explicar. Se na Costa do Marfim temos 98 línguas, temos 98 culturas distintas, mesmo que próximas. Na minha ignorância cultural, a primeira coisa que me vem é que ele é africano, o que, segundo a Cadeia de Significantes e Significados Saussurianos começa a puxar um fio em minha mente na seguinte ordem: África, selva, bichos e riquezas minerais, exploração, escravidão, colonialismo, guerra civil, sofrimento, deserto, preconceito, culturas distintas, tribos, Mãe Natureza, ancestralidade, arquétipos, Terra... E eu?

É estranho pensar até em identidade sendo quem sou, morando onde moro, tendo as referências que tenho. Um completo vira latas, eu poderia assim me definir. Do lado da minha mãe, tenho desde suíço (minha avó Neuenschwander) que também tem avô negro, a judeu espanhol (Cabido, Soares de Moura) e do lado do meu pai, índio e português, sobretudo (Coelho). É meio como achar que na Espanha é tudo igual. Bascos, Valencianos, Catalães, Andaluzes, e por aí vai, acabam todos no mesmo saco. Como se no Brasil pudéssemos colocar todo mundo também no mesmo saco... Talvez seja minha vontade de igualdade e justiça que pense todo mundo como seres humanos, irmãos. Mas um olhar um pouco mais atento fragiliza o sonho utópico. É tudo muito estranho e tudo muito difícil de traduzir. E, nesse ponto, é como se chegasse Yeo pra selar paradoxalmente a diferença e a igualdade de um modo muito bonito e a necessidade de continuar percorrendo esse Caminho.

Talvez, porque seja mesmo a única forma de nos compreendermos e nos constituirmos humanos.

– “A vida é uma caixa incolor”, disse Yeo pra mim, na semana passada. Pelo que posso sorver, imagino que ele quer dizer que somos nós mesmos que vamos tentar traduzi-la, à medida que a colorimos. A Tradução é mesmo uma forma de abraço.

Mais sobre meu desconhecimento completo de Abidjã nos outros textos deste mesmo blog.



domingo, 29 de novembro de 2015

Só para quem tem vergonha



Durante 5 anos dei aulas na Faculdade Estácio de Sá. Um período muito interessante, de muita aprendizagem. Onde fiz amigos, onde intensifiquei muitas amizades. Onde ganhei a admiração de alguns alunos e ganhei o ódio de alguns outros. Imagino que minha passagem por lá tenha tido saldo positivo, pelos feedbacks que tive ao longo do tempo.

Certa vez, me vi com um dilema: um dos meus alunos mais simpáticos, de quem me lembro bem o nome, me entregou um trabalho final que a gente chamava de "ctl+c ctl+v". Chupado da internet. O trabalho inteiro era encontrado na universidade fluminense.

À época, eu dava aulas de redação publicitária para mídia eletrônica, e produção em rádio e tv. Quem lida com textos todo dia, escritor por paixão, leitor razoável, sabe muito bem o que representa um estilo. Com um ou dois trabalhos se tinha a noção exata de quem sabia escrever, quem tinha bom domínio da articulação, quem possuía alguma técnica clara, quem tinha dificuldades, quem tinha facilidade nisso ou naquilo. É como pedir a um cozinheiro pra provar uma comida que ele não fez. Antes de provar, olhando o prato, já dá pra ele tecer várias informações sobre as técnicas culinárias utilizadas, formas de cortes, escolhas de tipos de preparo etc. É bem isso.

Pois bem, eu poderia ter dado zero no trabalho dele, abrir um inquérito interno na faculdade com as provas mais do que evidentes que eu tinha. Afinal, foi muito óbvio. Quando li o primeiro parágrafo do trabalho, uma luz vermelha acendeu: não tinha sido ele quem havia escrito aquilo ali. Estava longe, muito longe da escrita dele. Daí, foi só pegar um simples parágrafo qualquer do trabalho, copiar e colar no google, e todo o trabalho, ipsis litteris, estava lá. Bonitinho. Provavelmente ele não seria expulso porque sua mensalidade pesaria na balança da análise da ética, acredito. Esse é o mundo triste em que eu vivo.

Ele partiu do pressuposto de que eu não lia os trabalhos. Que eu pegava, e dava a nota, conforme gostasse ou não do aluno. Ou, pior ainda, que eu não tinha noção nenhuma do que eu ensinava. Porque, se eu dava aulas de redação... como não conhecer características primárias de um texto? 
Eu cometo muitos erros no blog. Principalmente porque não reviso o que escrevo. Ele é concebido como um exercício de cachoeira textual, apenas. Mas daí a não ter conhecimento sobre a matéria que dava aulas, a distância é bem boa.

Sabe o que fiz? Dei total pra ele. E fiz um discurso na sala sobre ética durante a entrega dos trabalhos. E coloquei no quadro o endereço eletrônico do trabalho encontrado da universidade fluminense. Não era o que ele queria? "Tirar total"? Ele conseguiu o que queria. Eu expliquei pra ele e pra turma, sem expô-lo, sem delatar quem tinha feito aquilo, que eu não precisava "selecionar" ninguém. Que o mercado faria isso. E que era uma pena que alguém utilizasse desse artifício imoral para "se dar bem". Aliás, é estúpido pensar que a pessoa tenha compreensão do meu conceito de "se dar bem", da mesma forma que eu. "Se dar bem", pra mim, seria "aprender". "Se dar bem" pra ele, seria "levar vantagem matemática na pontuação, baseado no engano do próximo". 

Fico imaginando o que leva uma pessoa a fazer isso. No caso do filho do ex-presidente Honoris Causa, que tenta explicar pra Polícia Federal com trabalhos "ctl+c ctl+v" como ele ganhou 2,5 milhões de reais, é mais interessante ainda. Note: ele não tentou explicar pra um professor desavisado e distraído, com cara de bobo. Foi pra Polícia Federal. Acho, sinceramente, que na Polícia Federal eles devem ter acesso à internet. Desconfio.

E desconfio também que nem meu ex-aluno e nem o filho do ex-presidente ficam envergonhados com isso. Porque isso pressupõe ética. Moral. Educação. Algum caráter. Não vou nem discutir se o filho do ex-presidente é um talpídeo ou alguém que acha que suas costas são tão largas que não sejam pegas num abraço justo ou tão quentes que queimem ao se tentar tocar. Como professor, eu fiquei muito triste por meu aluno. Se eu fosse o policial federal que apurou os fatos eu teria ficado muito puto (desculpe, não achei nada mais próprio) por mim mesmo e pela maioria dos brasileiros que ralam uma vida inteira pra não ganhar nem perto disso. Também acho que quem pode sentir vergonha é quem foi responsável por cada uma das indicações de Honoris Causa ao pai do educador físico que ganha 2,5 milhões desse jeito. 

Sugiro que esse "educador" procure na Wikipedia da mesma forma os conceitos de "escárnio" e "cinismo". Quem sabe ele não dá uma sugestão de alteração nos conceitos, já que a plataforma aberta da enciclopédia colaborativa dá margem a isso?

Hoje não vou postar música. Melhor fazer um minuto de silêncio.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quero Amanhecer Mijado


Eu era ainda um garoto de pouco mais de 17 anos. Talvez 20. Isso foi há uns 22 anos, portanto. Participei, não me pergunte exatamente porquê, de uma reunião de uma associação de músicos mineiros que se encontravam para lutar pelos direitos autorais. Eles continuam se encontrando, essa é uma questão sem fim, quanto mais em tempos de internet, DJ’s, mp3, e de uma época pós Napster. 

Determinada hora, um deles, bem mais velho do que eu, fez um comentário sobre um associado "audaz" - pra homenagear o Grande Fernando Brant, que também fazia parte da associação e depois veio a presidir uma outra de muito maior envergadura e soluções pros músicos - que me deixou muito incomodado: 

– Tá vendo? Mexer com menino dá nisso, a gente amanhece mijado. 

Fiquei incomodado por três motivos básicos: 



Primeiro é que a ação do associado audaz tinha sido unicamente audaz. Apenas uma ação feita sem consultar o reclamante, com o objetivo de dar solução a uma questão qualquer, e de ser proativo. Unicamente. 


Segundo porque achei deselegante e agressiva a forma como foi dita, sem que o “menino audaz” estivesse presente. E na minha frente, que mal conhecia o menino, à época. 
Terceiro que eu também era um menino e queria fazer a diferença. 

Resultado: tomei as dores do outro. Me simpatizei com o fragilizado, tomei birra (até hoje tenho birra) do dono da verdade à minha frente. Músico experiente, compositor reconhecido, mas de muito pouca habilidade no traquejo social. Aliás, isso é comum em grandes músicos. 

Essa semana, tive a grata surpresa de saber que o “menino audaz”, que queria fazer a diferença, foi convidado para assumir a presidência da Rádio Inconfidência. Como músico filiado a Ordem dos Músicos do Brasil, como compositor filiado a UBC, como filho de ex-presidente que sanou uma série de problemas da Rádio por amor à Música e aos músicos, fiquei extremamente feliz. Por vários motivos. 

Um forte candidato a novo Visconde de Sabugosa da Música de Minas, Flávio Henrique é bem articulado, pensa pra frente, sujeito digno, músico ímpar e pessoa do Bem. Valoroso. Fica indignado com a quantidade de sacanagem que vê por aí e transforma em arte, seja ela popular, nas marchinhas premiadas do Carnaval, seja no trabalho refinado de compositor, arranjador e até parceiro de grandes nomes da Música como Milton Nascimento e de tantos outros como o delicioso grupo Cobra Coral, Marina Machado, pra ficar apenas com alguns exemplos. Sua audácia foi o que o levou até a Rádio. Seu ímpeto e sua indignação foram pauta e acordes maiores que soaram bem ao longo de sua carreira. Particularmente, nossos poucos contatos profissionais, sempre profícuos, fizeram com que eu selasse seu conceito. Mesmo sabendo que ele milita por um partido que eu não acredito. Que eu acho que era maior quando era de oposição. Na vida existem prateleiras. Acho que o Flávio e eu sabemos colocar umas coisas em prateleiras distintas das outras. 

Hoje, pelos meus cálculos, com a mesma idade do músico “bem mais velho” que eu citei acima, penso que seria bom amanhecer mijado, porque quando se está ao lado de meninos audazes é mais fácil ouvir e compreender o refrão da canção do Visconde Maior. 

Equilíbrio e sucesso, Flávio. Vai nessa: “Vamos aprender, vamos lá...” 




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

É Natal, filha.


É muito difícil quando chega o natal. 

O natal sempre foi uma época difícil em minha vida. Como meu pai foi o décimo quinto filho de uma família pobre de Teófilo Otoni, seus natais foram marcados pelas diferenças dos sobrinhos que tinham condições e meu pai que não tinha. Na família da minha avó, aquela história de comprar um sapato pra dois filhos e um ir com um chinelo e uma atadura no pé esquerdo e o outro ir com o chinelo e a atadura no pé direito pra aula foi verdade. 

Meu pai foi marcado pelo palpite de vários e vários irmãos acima dele, cunhados e cunhadas que tinham idade pra serem seus tios e pais que já tinham idade para ser seus avós. Isso fez com que ele escolhesse o caminho da individualidade. Para virar o adulto (maravilhoso) que é.

Acontece que o natal não tem a ver com individualidade. Não tem a ver com a escolha da partida. Tem a ver com a escolha da partilha. 

E um dia, ele chega, podemos escolher: vamos ter natais marcados por nossas dores, ou natais marcados por nossos amores?

Eu, apesar das escolhas dos outros, e de tantos natais marcados por dores, escolhi natais marcados por meus tantos amores.

Na foto acima, vemos a casa da minha filha, Beatriz, de 4 anos e oito meses, enfeitada para o natal pelo amor que mora comigo. É o quinto natal que Beatriz passa entre nós, um na barriga da mãe, quatro fora da barriga. Até hoje, não me foi permitida a presença da minha filha em nenhum natal em minha casa. Ontem, fiquei sabendo depois de insistir, que a mãe de Beatriz vai com ela para Belo Horizonte passar a próxima semana. 

E eu não vou estar lá. Infelizmente.

Mais uma vez, não vou poder passar o natal com minha filha. Nem fora de época. Há um ano e meio, quando a juíza nos chamou e fez uma rodada com uma psicóloga indicada pelo poder público, ficou constatado, provado, aconselhado, que ela já deveria passar seus momentos comigo sozinha. Que isso, segundo o laudo, seria importante para o desenvolvimento dela. Mas a mãe desconsidera tanto isso, quanto o mais importante: o Amor que temos guardado para Beatriz.

A alienação parental se exerce de várias formas. Entre elas, a mais traiçoeira de todas: Ela manda fotos, deixa que falemos com ela, eu encontro com minha filha, mas exclusivamente na presença da mãe. Como se eu fosse alguém que devesse ser cerceado. Sou como um cachorro que deve permanecer na coleira. Um passarinho que deve permanecer na gaiola. Um pai que não merece brincar com sua filha sem os olhos persecutórios da mãe. Mesmo tendo o aval da justiça. Mesmo dando exclusivamente amor à minha filha. Mesmo fazendo de tudo para a mãe dela.

Não, não vejo problema algum da mãe estar junto. Até incentivo e acho ótimo. Mas não todas as vezes, sem excessão.

A "guarda compartilhada", neste caso, é exercida nesta balança:

  • A mãe da minha filha quis levá-la ao exterior para passar 10 dias com ela na ocasião de um casamento. Esta é a única situação, em nossa justiça que se diz igual, em que o pai é consultado. Eu prontamente disse sim. No mesmo dia fui com ela em um cartório e dei minha permissão, amorosamente. De verdade. 
  • Eu peço a ela que minha filha vá dormir uma única noite na casa dela de Belo Horizonte, no quarto que preparei pra ela com todo amor, com todo carinho, onde fiz com minhas mãos os desenhos na parede e ela não permite. Eu convido a mãe que vá dormir lá também, pra que o principal seja preservado, e eu ouço um inquestionável "não". Avesso ao bom senso. Avesso ao amor. Avesso à justiça divina e à justiça dos homens.


Acredito que é assim que se constrói uma alienação parental velada. Talvez eu esteja errado. Talvez não. A mãe de minha filha acha que o amor da família do pai deve ser dado homeopaticamente à nossa filha, em gostas. E que isso basta. Tenho tios que morreram sem conhecê-la. Tenho tios que já estão sem condições de saúde e não vão conhecê-la. 

A recordação maior e única que tenho da minha avó, mãe do meu pai, data da minha primeira infância. Quando eu era menor que minha filha. E carrego essa lembrança pro resto da vida. Penso que ela não vai ter a recordação familiar de muita gente que foi importante pra mim e que faz parte de sua história. Nada disso tem volta. 

Hoje cedo, pedi ao meu pai que tocasse ao piano a valsa Subindo ao Céu, que aqui coloco na gravação de Luiz Gonzaga, curiosamente, do ano do nascimento do meu pai. Era a música que minha avó tocava pra ele ao telefone para amainar a saudade. Ele, que aprendeu a tocar piano estudando em uma mesa com as teclas pintadas e aos 11 anos já dava aulas de acordeón, tocou essa música muitas vezes na noite quando não pode ir ao enterro de sua mãe, à época. Morávamos em Brasília e as condições não o permitiram chegar. Foi uma noite triste, de dor imensa. A última recordação que trago de minha avó foi ela pegando um papai noel de chocolate e me entregando, com amor e carinho profundos. Depois disso ela subiu ao céu. Como eu poderia não amar o natal? Apesar de tudo e de todos?

Fica a música. Fica o amor de minha avó. Fica o desejo de diminuir as distâncias e as incompreensões do mundo e das pessoas, que estão presas nas gaiolas da mágoa e do dissabor. Fica o desejo de minha filha poder curtir o natal que sempre sonhei pra mim e pra ela. Quero dar a ela, um dia, de presente o natal que sempre sonhei. Ela merece. 





domingo, 8 de novembro de 2015

Vale tudo





Estou destituído. Estou detonado. Estou possuído, arrasado, subvertido, arruinado, falido, afundado.

Enlameado.

Não quero mais o mármore branco com veios champagne, não quero mais a cozinha gourmet associada a la joie de vivre, o vinho caro e o untuoso opulento foie gras. Nem tinto vinho.

Vem. Preciso me lavar primeiro. Estou sujo de barro.

Como vou poder entrar em casa e limpar meus pés no tapete persa? Como vou me deitar na cama de roupa de cama de linho egípcio 3.000 fios comprada na Trusseau? Como vou abrir os armários para pegar as vasilhas Le Creuset para fazer o almoço?

Eu pingo lama. Nas minhas veias correm um barro sujo imundo, de minério, sangue ferroso que um dia me orgulhou. São minas, mas não são gerais. É pra poucos. É para o governante que não se compadece, e tem dozinha de empresa que nem imaginava que isso podia acontecer... É para o que não teve seu filho desaparecido, não teve seu pai afundado, atolado, esmagado, espremido, afogado, sem ar, sem força, sem vida dentro da boleia de um imenso e forte caminhão. Como?, se esse pai é o herói desse filho?

Há ninhos com ovos que nunca mais verão a luz do dia. Há peixes tentando a todo custo respirar terra vermelha, cor de casebres singelos. Há quem durma essa noite na espera. Há quem nunca mais vai dormir sem ser na espera.

Espera, e não vamos fazer absolutamente nada?

Vamos. Já sei. Quem sabe se vale batermos umas colheres de pau numas panelas? Sim, vale, vai mudar muita coisa. Ou, quem sabe, se vale eu deletar do meu facebook quem não concorda comigo? Sim, vale, teria efeito imediato. Vale, sim. Vale, mesmo.

Vamos. Vamos dar umas seis garrafas d’água pet de dois litros, pra ajudar as vítimas do meu voto. Do seu voto. Vítimas que também não sabem o nome dos vereadores, dos deputados estaduais, dos deputados federais em quem votaram em quase todas as eleições. Talvez só se lembrem para sempre do que não tem nome, agora, já que está debaixo de metros e metros cúbicos de barro, caldo grosso e espesso, silêncio e dor absolutos.

Vale da morte: o vulcão da ganância e a explosão de descasos fizeram de Bento Rodrigues a Pompéia mineira. 



Gostaria de pedir ao Governador do Estado para fazer outro depoimento. Dessa vez com o nariz tapado e uma colher de sopa de terra enfiada na boca.

Claro: escuro. Calo.






quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sóis



Vivo na ausência.
Escuto mais do que falo,
calo porque silencio,
calo porque silêncio.

É que dói.

Pressência.

Vive no sentimento.
vive nu sem ti: minta.
Mate. Arde.
Devore.
Devo. Ore.
Faça o que fizer, anuncie.
Anule o que anelar.

Sois o segredo do analema.
Dilema:
Moro no silêncio escondido em cada palavra.

Nas ditas,
não ditas,
malditas.



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sapoti



O sapoti é uma fruta difícil de definir. Carnuda, do tamanho de uma laranja pequena, tem uma coloração, cor e sabor muito característicos. Minha amiga da França me perguntou como é. Eu pelejei pra definir e fiquei dias pensando com o que se parecia, para que ela tivesse uma ideia aproximada do que é um sapoti. Curioso. Fazendo mestrado em Tradução, isso faz todo o sentido pra mim.

Não há como traduzir o sapoti. Como bem disse Rubem Alves a respeito de um poema, “o poema é como uma árvore. A gente não explica uma árvore. A gente se deita à sua sombra”. Pois bem. A gente não explica o sapoti. A gente parte ele no meio e come. E, se for esperto, planta as quatro sementes.

Foi isso que eu fiz com o primeiro sapoti que minha filha me deu, do quintal dela, onde ela mora, em Recife.

Marrom por fora, marrom por dentro. Por dentro, um pouco mais claro. Por fora, mais próximo à cor de terra, mas não terra negra, nem terra vermelha. Terra marrom. O sapoti tem como casca, um couro. Parece um couro. É como o kiwi. Mas sem aqueles pelinhos. A consistência do couro da pele é bem similar à do kiwi. Mas dentro não. A minha maior dificuldade foi essa. Definir a parte de dentro. Primeiro, fiquei pensando como definiria a consistência. Fiquei pensando em me expressar dizendo que o sabor era uma mistura de melão como morango, mas achei uma ilação sem muito sentido. E pensei muito, até que me lembrei que a carne do sapoti parece um caqui mais firme. Quem comeu vários caquis sabe o que estou falando. Tem caqui que é mole, tem caqui que é mais firme. Pois bem, é desse mais firme que eu estou falando. Tem uma espécie de fibra, de carne fibrosa, que não se parece nem com a aquacidade do melão, nem com a firmeza do morango e do kiwi, muito menos é uma massa como a banana, ou uma pasta como o abacate. É isso, se parece bem com o caqui, no que se refere à consistência e à matiz do sabor.

Calma, veja se entende o que estou querendo dizer, com relação ao sabor. O caqui não é ácido como uma fruta cítrica, tipo limão ou laranja. Também não tem um sabor presente como o do maracujá, por exemplo. Nem a suculência óbvia do melão, melancia ou abacaxi. O caqui é assim, mais brando. Mais equilibrado. Acho que o sapoti é bem isso, uma fruta mais equilibrada. Fazendo uma pesquisa besta na internet, vi logo que na Índia tem cerca de 20 variedades de sapoti. Fiquei com muita vontade de experimentar...

Concluí que o sapoti é a minha maçã. Minha nova fruta do amor. Na idade em que estou, não sou mais arrebatado pelo morango. Nem me comovo tanto com o maracujá. Já tenho um pouco de preguiça da uva, óbvia. Tenho preferido o sabor austero e improvável de uma fruta marrom, que mais se parece com o cerrado, com o sertão de Guimarães Rosa, com os segredos escondidos em uma vereda que se acha, depois de passar sede por dias num agreste seco e duro, árido, espinhoso. É onde tenho andado. E descobrir o sapoti assim, entregue por minha filha, é uma espécie de recado. Que a carne saborosa está lá, sob o couro, que o suco nutritivo me espera sabores, escondido no que não parece ter cor, no que não chama a atenção, no que não causa alarde, mas vai virar semente pro que vem pela frente...

Mais sobre botânica aplicada em outros textos deste mesmíssimo besantanna.blogspot.com.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Templo do Outro



Vou montar uma igreja. Seu nome vai ser Templo do Outro. Primeiro vou comprar um lote, construir um anfiteatro de cimento, octogonal, com oito níveis de degraus, com oito pilares em cada um dos seus vértices, coberto de piaçava.

Este lote não vai ter muros. Este anfiteatro não vai ter paredes. Entra-se por qualquer um dos oito lados, sai-se da mesma forma, por qualquer um deles. No centro, no nível mais baixo, um altar. Que não terá esse nome porque, conforme a etimologia da palavra, não vai ficar no lugar mais alto. Vai ser no mais baixo, símbolo da humildade humana.

Podemos chamá-lo, portanto, de Coração. Na entrada (ou saída) norte, vamos escrever e inscrever, ainda com o cimento molhado, a letra Z significando Zehut, Retidão.

Nosso norte vai ser a Retidão.

No oeste, onde o sol se põe, colocaremos a letra M, significando Mehilá, o Perdão.

Em seu lado oposto, no leste, onde o sol levanta, colocaremos a letra B, significando Beraca, ou seja, Bênção.

E ao sul, colocaremos a letra H, Hayim, a Vida.

Nos outros quatro lados, entre os pontos cardeais, colocaremos quatro símbolos importantes: a Lua e a Estrela do islamismo, a estrela de Davi, do judaísmo, o OM do hinduismo, o Tau, a cruz de São Francisco de Assis, que bem representa o cristianismo.

Nesta igreja, só há um espaço. A igreja só será um lugar. Lugar do encontro, lugar do amor, lugar do saber, lugar da partilha, lugar de espera, lugar de esperança. Onde se medita. Onde se sonha. Onde se canta. Onde se deita. Onde se levanta. Lá, levaremos um bolo de chocolate para fatiar e dividir. Vou levar o que a vovó Lili faz, que é o melhor bolo de chocolate do mundo. Uma jarra de suco de caju para compartilhar com todo mundo, que é o que eu mais gosto, uma rama carregadinha de lixia, pra cada um comer a sua e levar a semente pra casa - símbolo de amor familiar.

No Templo do Outro, vou me sentar para ver o sol nascer.

No Templo do Outro, vou dividir minha comida.

No Templo do Outro, vou brindar com o outro. Com o diferente e com o igual.

No Templo do Outro vou ler poemas, vou escutar parábolas, vou traduzir textos de outras línguas, vou ouvir músicas de outros povos.

No Templo do Outro, vou descobrir quem sou.

Quando o dia se for, no Templo do Outro, vou esperar a lua nascer. E bater palmas quando isso acontecer. Vamos dar as mãos e cantar cirandas de crianças no Templo do Outro. Vamos brincar de desenhar e fazer aviões de papel. Vamos jogar amarelinha, cinco Marias, pular elástico, e moldar argila. No Templo do Outro, vamos ser nós mesmos.

Vai ter três banheiros no Templo do Outro. Um pra meninas, um pra meninos, um pra meninas e meninos. No Templo do Outro vai ter um chuveirão na parte de fora, perto dos três banheiros pra quem quiser tomar uma ducha e se refrescar da vida. Todos os passarinhos do mundo vão poder ir visitar o Templo do Outro. E quem quiser levar flores, pode levar. Vai ficar ainda mais bonito o Templo do Outro florido.

Sabe? Quando esse tempo chegar e o Templo do Outro estiver pronto, vou convidar você que ainda está lendo pra ir se encontrar comigo. Tenho certeza que você vai gostar de lá.

Mais sobre templos internos e externos em outros textos deste mesmíssimo besantanna.blogspot.com





segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Amor depois dos 35.





O cursor pula na tela. Como escrever? O que dizer sobre o Amor escolha?

És. Colha.

Já usei muito essa poesia semântica. Aliás, quando eu morrer, talvez façam uma notinha de jornal com esta epígrafe: “morre um dos criadores da poesia semântica”. Sim, quando a gente passa dos 35, começa a pensar na morte. Porque de alguma forma, você já se deu conta que “...podia ter subido mais montanhas...” ah, sei lá. Não vou ficar aqui citando poema dos outros, porque isso não leva a lugar algum. Depois dos 35 começa a pensar na morte e a vida vira um tesão. Fazer 35 não é brinquedo não. Quanto mais quando você descobre que você espirra e tá com 42. E ainda fingindo ter 35. Ou querendo ter...

Com trinta e cinco você se lembra de uma cacetada de filósofo foda que com 35 já tinha resolvido a vida e inscrito seu nome no tempo do sempre. Com 35 você pensa que Jesus viveu só 33 e você já tá no lucro, e ninguém vai se lembrar de você daqui 200 anos, quanto mais daqui 2015. Daí, você meio que manda tudo à merda e decide que Puatz!, eu vou mais é ser epicurista (no sentido clássico comum e errôneo, devo dizer) e pensar no meu prazer, porque se eu não fizer isso, quem vai?

Se você é mulher, fica meio assim achando que tá fazendo a curva, virando o Cabo da Boa Esperança, mas descobre logo (com 42) que isso não passava de mito. De balela. Que modelinho pra ser feliz a gente encontra no pote de margarina, não na vida real. Aliás, o grande lance do amor ideal é que descobrimos que podemos pensar na semântica da parada: se é I-DE-AL é porque mora no mundo das... das... das... isso, ideias! Tá vendo? Com 35 agente fica até inteligente. E descobre que “foda-se” é uma “palavra” mágica. Uma expressão redentora, uma espécie de bênção própria.

Porque o mundo está aí, de carne e osso, e a única coisa que pude entender dessa baita zona até agora, é isso: és. Portanto, filhão, colha. 

Colhemos o que somos. Somos o que escolhemos. 

Tem um Haikai meu que diz isso bem, tá no meu segundo livro: 

“Quem planta, escolhe”.

Pode parecer uma brincadeirinha simples e sutil, mas pare um pouco. Pense. 

Aos 35 você já sabe escolher. E pode, se quiser, dar ouvidos ao equilíbrio. Ao que te faz bem. Às amizades verdadeiras, não às amizades de conveniência. Porque os filhos da puta dos Beatles é que estavam certos: All We Need Is Love. E se o Love for de mentirinha, caro leitor, cara leitora, ... enfim... você entendeu. Porque passamos mesmo dos 35. Quem realizou o sonho de ter uma criança, sabe que o que o espera pela frente é o SEMPRE. Porque “criança é bom, mas dura muito”, como disse um amigo meu. Dura a SUA eternidade. Então, tem que ter cu pra aguentar, filhão. Porque não tem férias de paternidade e maternidade (Desculpa, não achei um jeito mais polido e fofinho de dizer isso...). Em contrapartida, se você não realizou esse sonho, o mundo é seu. Ligar o foda-se é só uma questão de escolha. Amar com consciência é só uma questão de escolha. Fazer o bem é só uma questão de escolha, gozar e ser feliz, dar prazer ao outro e a si mesmo, é só uma questão de escolha... sabe, com 35 a gente tem que ter descoberto o que é, o que representa, o que re-presente escolher. Porque é um presente mesmo que Deus, a vida, a natureza, a maturidade nos dá. 

Ah, ... sei lá. São só umas poucas divagações de uma madrugada, quando escolhi estar sozinho, em um lugar onde não conheço ninguém, estudando uma coisa que dificilmente vai me dar dinheiro, porque resolvi que minha felicidade não tem preço e que o Caminho só vale quando tem Valor.

Depois que fiz 35 anos. E um pouquinho.

All we need is love mesmo, a verdade é essa.

Mais sobre segredos óbvios nos outros posts desse mesmíssimo blog. É só procurar.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para quem tem prateleiras.



Essa é mais uma tentativa de fazer alguma diferença na vida de alguém.

Hoje cedo, recebi de um amigo (dos mais antigos que tenho) um comentário irônico sobre o 4 a 0 do Santos no Clube Atlético Mineiro, time que torço, time que foi presidido por meu avô, o delegado de polícia Hélio Soares de Moura, na época que o Kafunga jogava.

Fiquei curioso: o Cruzeiro teria ganhado de quanto, para que meu amigo viesse me sacanear? Não, ele empatou em casa, com o lanterna do campeonato brasileiro.

O que quer dizer: o prazer do meu amigo - e digo amigo porque sei que ele é - era simplesmente com a minha “desgraça”. 

Podemos analisar de um modo simples, como atitude corriqueira e sem nenhum fundamento. Acontece que quando deixamos essas coisas passarem e viram coisas corriqueiras, simples, estamos fazendo a nossa parte para que se perpetue a condição que queremos mudar, acredito.

Não acho que o brasileiro é filho da puta por natureza. Não acho que a malandragem tá no sangue desse povo miscigenado. Acho que isso é uma questão cultural que precisamos combater, mais até do que combater mandiocas ou coxinhas. 

Minha análise é puramente achismo. E meus fundamentos são puramente sensíveis. E não sou nenhuma Eliane Brum ou Gregório Duvivier pra que minhas letras tenham voz. Só tem voz quem é celebridade no Brasil. Mas, assim mesmo, continuo a escrever, como aquele catador de estrelas do mar, que pegava uma por uma e jogava ao mar, num documentário meio auto ajuda (não devia ter essa qualificação) que vi na década de 90.

Penso se a malandragem e a filhadaputagem não vieram justamente com o colonialismo e a dicotomia Trabalho X Chicote, ao invés de Trabalho X Justiça Social. Porque, imagino eu, trocar trabalho por justiça social seja edificante e estimulante. No entanto, trocar trabalho por “não ganhar chibatadas” cria uma inversão de Valores. Se temos Valores invertidos, como vamos cultuar o Bem, o Bom e o Belo?

Você deve conhecer a experiência feita com macacos. Resumindo e simplificando: 5 macacos na jaula. Um cacho de banana em cima da escada. Toda vez que um macaco tocava a escada, todos tomavam ducha de água fria. Em pouco tempo todos aprendem que não podem tocar a escada e começam a bater nos que tentam. Daí, vai se tirando os macacos um a um, e o mesmo processo continua. O que chega, que não está acostumado, tenta pegar a banana, até que aprende que não pode tocar na escada, não por causa da água fria, mas de tanto apanhar dos outros. Até que todos os macacos são trocados, de forma que nenhum deles tomou a ducha de água fria, mas aprenderam que se tocarem na escada, todos os outros vão cair de pau em cima.

Pois bem, acredito que estamos nessa condição. E acredito que o macaco do meu amigo me mandou a sacanagem via whatsapp, mesmo sem nunca ter tomado uma ducha de água fria. Acredito que tem muito político que age da mesma maneira, como acredito que a malandragem e a filhadaputagem no Brasil acontece por causa disso. Essa semana, coloquei uma crítica ao post do Diário do Centro do Mundo em que o Gregório Duvivier fazia uma foto dele com um suposto cigarro de maconha prestes a acender (na outra mão um fósforo aceso) e, em sua pretensa genialidade, ele usava a máscara da discussão sobre a legitimação das drogas, passando pelo caso bizarro e sem resposta do helicóptero do senador cruzeirense, pra dar uma ferrada nos contrários ao governo, chegando à conclusão de que já há descriminalização da maconha. Que “o que continua criminalizada é a pobreza.” 

O ponto de vista dele tem sentido, é claro. Mas ele o defende com uma triste inversão de valores, acredito. Quando eu postei, comentei o fato dizendo que não sabia o que era mais interessante (interessante = gera interesse), o post do Duvivier ou o banner da Petrobrás que patrocinava o blog. Aliás, o post dele saiu na mídia golpista, ou seja, na Folha de São Paulo. Quer dizer, "golpista" quando ataca o governo. Quando não ataca, enchem a boca pra falar: “na Folha de São Paulo.”

O que me deixa mais triste é que tem muita gente que apoia o governo que continua batendo nos outros macaquinhos, sem nunca ter tomado ducha de água fria. Assim como existe muito batedor de panela que não sabe o que defende ao atacar o governo com um post de apoio ao lado cego de uma bancada evangélica, ao lado sub reptício de uma bancada ruralista ou com um jactancioso post de apoio aos governos militares...

Estou triste.

E estou mais triste ainda porque estamos num momento onde todos nós, macacos secos, continuamos a nos digladiar secos e sedentos. Porque é melhor apontar o dedo pro outro (ou enche-lo de tabefes) do que dar as mãos pra tentar salvar o Brasil. Recentemente um petista de carteirinha me escreveu “gostaria que nos encontrássemos mais, independente de Dilma, galo e cruzeiro”. Morri. Morri porque nunca imaginei que isso poderia ser motivo para afastar uma amizade, como se o Bom Senso não fosse maior do que esse tipo de disputa. Bom Senso e Valores. 

Eu não sei. Mas coloco os Valores e o Bom Senso em uma prateleira mais alta. Imagino que eles não podem estar na mesma prateleira da minha escolha partidária. Porque, se não, eu acabo pegando em armas por causa do meu partido! Viro simplesmente massa de manobra! Já votei no PT: no Patrus. Porque julguei que ele era o mais sensato, o candidato melhor à época. Mas não aceitei ganhar uma baba pra virar a casaca e defender a Dilma em 2010 depois de ter saído do terceiro lugar e eleger o Anastasia com quase 70%. Porque, pra mim, essas coisas tem que estar em prateleiras diferentes...

Volto ao meu amigo. E queria abraça-lo agora. Dizer que sei que ele passou mais de 20 anos em São Paulo sendo obrigado a escolher entre Trabalho X Chicote. E que isso, invariavelmente, obliterou sua visão. Preciso mostrar a ele que estamos secos, que juntos podemos abrir a merda da gaiola em que estamos e ir tomar banho, mas de mar, numa praia qualquer, enquanto comemos nossa banana abraçados, e brindamos o fato de sermos diferentes e torcermos pra times diferentes. Afinal, se houvesse só um time, não haveria o prazer do futebol... E depois, quem sabe voltar e, de mãos dadas, reformar juntos nossa gaiola de nome Brasil?

Dica: leiam Eliane Brum. Ela tem artigos interessantíssimos, bem escritos e importantes.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

Quero Despedir




*Na foto, o "Portal Grande Sertão" do artista plástico Léo Santana.

Bem disse Guimarães Rosa: “Despedir dá febre”.

Pois bem, eu quero a febre. Quero despedir. Quero o não querer, quero o que vier, quero a natureza plena, toda, simples. Quero a mais pura verdade. Não quero pedir nada, quero despedir. Despido de desejo, despeço.

Pedido cobrança, pedido lembrança, pedido ciúme. Pedido questão, pedido perdão, pedido súplica. O pedido é o perdido que quer se encontrar. Mas não. Despeço, despido, despedido.

Nu que não aguarda roupa. Sem emprego que não espera trabalho. Quem parte. Quem despede pode partir em paz. Partir sem pedir é a liberdade total.

Amigo meu tem um caso de amor com Londres. Ele está na porta do prédio e joga uma moeda. Cara, esquerda. Coroa, direita. Assim ele vai, se perdendo, perdido, encontrando a inusitada presença do desconhecido, do não desejo, do que pode surpreender efetivamente. Quando não expectativa, o novo real se apresenta. Quando pedimos, ou somos atendidos, ou não. Ou vivemos em espera, ou em saciedade desestimulante.

O peito que sai pela primeira vez do sutiã, a primeira vez que seu corpo mergulha no mar, o primeiro olhar de encanto, o primeiro dia de aula, o primeiro cume, o primeiro lume, o primeiro suspiro.

Eu fui primeiro na vida de alguém?

Quais foram as primeiras vezes não pedidas, não perdidas, em que me encontrei presença, em que me encontrei presente, embrulho do destino, laço de fita do acaso, pitada do tempero de Deus?

A febre esquenta as partes quentes do ser que anuncio. Caminho sem tudo pedir. E o Nada se faz presença, nadamente sendo, humos da arrebatação, terra arada dos sonhos realizáveis, janela aberta dos passarinhos do mundo, veredas que acolhem borboletas, quero-queros, peixes e catitus.

O amor que despede é o único amor feliz.





quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ponto





cursor pula na tela

que palavra escrever?

nenhuma

cabe

todas

escorrem no papel eletrônico

cabe

nenhuma

nada vazio

inunda a gente

como no conto de luz do Garcia Marquez


não invento

a roda

vou

barulhinho de aro

tec tec tec tec

limpa o líxico

barulhinho polifônico

trago em meu silêncio

límbico


lâmbido

os méis soníferos

doces viagens

despertam sonhos

cá estou

cavou

não tem pressa de voltar


Deu-se

estrada infinita

fé se frases

crensentença

têxticamente

Folha Branca

envolve

tudos


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A gente só quer um abraço, Dave Grohl.




Você conhecia Cesena?

Eu ia perguntar se você conhecia o Foo Fighters, mas aí eu fiquei com medo da resposta.

Engraçado isso. Na faculdade, uma amiga começou a namorar um cara e fomos passar o final de semana no meu sítio, esquema casais. Vinho vai, vinho vem, sou surpreendido com essa pérola que regurgitou da garganta do porquinho:

– “Elis Regina? Quem é essa dona?”

Minha taça quase caiu, em ato de estupefação preconceituosa. Sim, acredito que somos assim. Muito preconceituosos. No meu caso, devo dizer, meus preconceitos são de outra ordem que não os mais comuns, passíveis de penalidades na legislação. Ainda assim, dignos de serem trabalhados. Por que cargas d’água eu deveria achar que todo ser humano habitante do Brasil com idade (hoje) de 40 a 45 anos, tem obrigação de conhecer, ou pelo menos ter alguma referência sobre Elis Regina?

Me lembrou aquele ato preconceituoso contra o Zeca Camargo - um apresentador da Rede Globo - que fez uma crítica à comoção nacional pela morte de um cantor sertanejo, que ainda não havia graduado, de nome Não Faço a Mínima Ideia.

Ninguém nasce sabendo p nenhuma. Ou melhor, ninguém nasce conhecendo... porque “saber” é outra coisa. Ou, pelo menos, deveria ser.

Pra quem ainda não viu as High lights da semana que passou, especificamente do dia 30 de julho, um habitante de Cesena na Itália ficou com vontadinha de ver o Foo Fighters tocando na cidade. E gastou mais de um ano com um projeto duca: juntar 1.000 músicos pra cantar um hit dos caras, viralizar na rede, e tocar o coraçãozinho dos cinco integrantes da banda de rock.

Eu conheço o Foo Fighters mais ou menos como o meu amigo conhece hoje a Elis Regina. Não tenho um CD (eu ia dizer disco) deles. Acho que não tenho uma música deles no meu Ipod, apesar de gostar dessa que rola no viral da internê. Não sei se conheço outras músicas do Foo (to quase íntimo). É que na minha adolescência meu pai não me colocou rock pra escutar. Me entupiu lavagemcerebralmente de bossa nova, MPB, clássicos eruditos, samba (que alguém inventou que essa categoria agora é “de raiz”, pra não comprometer a honra pagodeira).

Claro que podemos pensar que o mesmo habitante de Cesena poderia ter pedido um quilo de alimento não perecível pra cada um dos mil músicos pra acabar com a fome mundial, ou algo mastigável do gênero. Mas, podem ser preconceituosos com meu post, os sonhos são tão importantes quanto os alimentos. Ainda bem. É o que nos torna muito humanos. Cabe aqui a reflexão sobre um novo poder de mobilização mundial. Que ainda não foi tão explorado quanto poderia... Nem por religiões, nem por políticos, nem por líderes, nem por sonhadores... Não, não foi. Ainda não foi como poderia ser. Mas vou deixar a reflexão pra você.

Eu conhecia Cesena, porque minha namorada já morou lá. Só por isso. Porque passou a fazer parte do meu repertório. O repertório é como uma espécie de umbigo social. Dele temos orgulho e preconceituosamente não queremos que cortem nosso cordão umbilical. É aí que mora o perigo. Porque tanto o cara de Cesena merece um abraço, quanto o Zeca Camargo, quanto meu amigo que eu sacaneei chamando de porquinho - pra evocar a passagem bíblica citada por Mateus 7.6.

Pera aí... você não sabia que “pérolas aos porcos” tinha vindo daí? Tudo bem. Ainda assim, eu deixo você ir pra Cesena receber um abraço do Dave Grohl. Mais sobre abraços e preconceitos nos outros posts desse mesmíssimo blog.


terça-feira, 21 de julho de 2015

Preciso mostrar a língua?




Os modernos já usaram “vou bater um fio pra você”. “Disca pra mim”? Era usual.

Há 150 anos, praticamente, não existia o telefone no mundo. Hoje, praticamente, ele também não existe mais.

Não, não existe, praticamente. Existe a função de ligar para outra pessoa em um dispositivo, mas quase não se vê mais o telefone telefone.

Dispositivos móveis. Poderiam muito bem ser chamados de computadores de bolso. Porque nem telefone de bolso são mais, bem da verdade. E, sem falar nas outras funções, a função híbrida, o contato de voz, o de imagem, o de voz e imagem, o de texto, o de texto e voz e imagem se misturam e se completam, recadamente falando, cutucalmente existindo. Presencialmente virtuando-se.

Aliás... Virtual ou virtuoso?

Máscara social, muleta semântica, válvula de escape, encontramos um modo matemático de resolução da ubiquidade.

Me lembro de Santa Clara. Que virou santa (também) porque, entre seus milagres, a visão do que acontecia com São Francisco em outro lugar, quando ela não pode acompanhá-lo. Sim, isso foi um milagre. Ela viu o que estava acontecendo em outra vila, mesmo estando enferma, de cama. Hoje, faço isso quase todos os dias com minha filha no Facetime. Ou, pelo menos, tento. E vejo.

De BH, vejo seu quartinho em Recife. “Desenho com ela”. “Recebo seus beijos”. “Fungo seu cangote”. Sim, me reporto. Inteiro, em pensamento e palavras, expectativas e sonhos, eu percepção, todo lá, a 2.222km de distância.

A velocidade da luz que experimento.

Quando o eu percepção penetra o dispositivo, o que fica é um corpo meu que nem é meu mais. Tanto que... tem gente que vai e quando quer voltar, nem tá lá mais. Morre, porque bateu o carro. Ou mata, porque seu corpo sem percepção passou por cima de outra pessoa. Ou de outras pessoas...

Na verdade, temos muito pouca consciência da inteireza da união corpo e mente e espírito. Sim, juro. É o que trabalham os que seguem a filosofia zen. 100% pre-sen-tes. Mas não somos assim (na maioria das vezes).

Não tomamos banho. Enquanto nosso corpo toma banho, resolvemos problemas mentais. Estamos escolhendo a roupa, discutindo com o chefe, montando o discurso, estruturando o que vamos dizer com pais, filhos, amigos, amantes, subordinados, desconhecidos. Fantasiamos tão facilmente não estar ali que... não estamos. E perdemos a água molhada. O cheiro do sabonete. A textura do shampoo. O calor da água em contato com o íntimo que habita em mim... Ou, pelo menos, que habita o meu corpo.

Somos seres descolados. E ainda assim, a dramatização da perda do corpo - ou de parte dele - fere fogo. Dói. É preciso uma reflexão sobre o desapego versus o encontro. Consigo mesmo. Comigo mesmo. Eumente falando. Eumente calado. Euxistindo somente. Inteiro em presença, ou melhor, em pressência.

Da próxima vez que eu for à padaria, vou pensar se vou eu mesmo ou meu corpo. E de lá, ligarei dispositivamente pro mim mesmo que fiquei pra trás, perguntando se eu quero alguma coisa.

Mais sobre a relação espaço temporal quântica a qualquer momentum em besantanna.blogspot.com


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Hosana



Moro no arqueio das sobrancelhas de Beatriz.

Vivo sua explicação da vida, sinto sua admiração compreensão duvidosa da existência, seivas suas simples verdades: “sou diferente, papai”.

É sim, filha. Come mesmo a salsicha do cachorro quente antes. Deixa o pão pra comer depois. A gente bobo é que faz tudo junto, bobamente esperdiçamos o Tesouro de Kairóz comendo tudo junto, barulho que acorda Chronos, matalmente.

Isso, sim, é desperdício do ócio do amor, é querer que a planta cresça logo, sem respeitar o Vento, a Chuva, o Sol. A natureza das coisas franze a testa de Beatriz. Eu, riacho de mim.

Enquanto a chuva chove águas líquidas e molhadas na superfície aculturada de Recife, olho. Molho. Observo. Escorro me todo em poças pra Beatriz pular de alegria, espalhando águas e afetos, botas de borracha, gritinhos entusiasmados de aventureira menina. Me nina na rede. Me em todos os cantos, canta, cantilena sutil. É ave, é Maria, passarinha. Hosana, filha.

Sou tão pequeno, sou só um acorde na música sofejada por Beatriz, que orquestra a minha existência.

Eu, incenso. Ela, essência.

A felicidade plena é um minuto nos braços de Beatriz.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Pegadinha do Faustão




Parece pegadinha, tal é o absurdo que foge à lógica da compreensão. Mas não pode ser considerado nem piada de péssimo gosto: o adesivo criado que coloca a Dilma de perna aberta no reservatório de combustível dos carros é triste retrato da violência que desintegra nosso país deixando nódoas difíceis de serem apagadas. Não tenho vergonha alheia. Tenho vergonha, eu mesmo, por mim mesmo, de fazer parte de um país que chega a esse ponto. Não consigo acreditar que isso seja manobra nem da oposição, nem de uma atitude guerrilheira perversa do partido da situação, que tenha como estratégia a disseminação do ódio e de uma ideia dicotômica de país, de partidos, de bem e de mal. Estamos mal. Todos. A indignação deveria ser geral. E, evidentemente, não só por isso. É claro que isso fere as mulheres. Mas nós, homens de bem, que tivemos oportunidade de educação e cultura, igualmente nos indignamos. Ou deveríamos. 

Estupra-se o ser humano. 

Não só a Dilma, o cargo que ela ocupa ou a pessoa que ela é. Não me interessa, nesse momento, que eu não acredite nela e que seja contra sua ideologia política. Achar que ela é ou não corrupta nesse momento nem faz sentido pra mim. Faz sentido eu defender o correto. A cidadania. O que nos faz (ou deveria fazer de nós) humanos, e não bestas. Somos seres sociais e precisamos preservar nossos valores a todo custo. 

Quero pedir desculpas pra Dilma. 

Não, eu não pregaria um adesivo desses, evidentemente. Mas alguém da minha espécie o fez e isso me envergonha. Diminui a todos nós. Um poeta e escritor amigo meu, Tonico Mercador, comentou: “e coloque no rol da estupidez que assola o país, o imbecil que vociferou contra a presidente Dilma, se achando porta-voz dos indignados. Ele é mais um dos garotões que agridem professor e mandam pai e mãe à merda. Nem Collor foi tão desrespeitado assim. Impressionante como a estupidez ganha adeptos com facilidade.” Acho que meu amigo tem toda a razão. Nada justifica a violência. Nem a indignação. Se não, faremos igual ao ETA, grupo separatista basco, ou a AL Quaeda, que explode a estação de Atocha matando quase 200 inocentes e ferindo mil e setecentas pessoas, achando que os fins justificam os meios... A briga de pais na frente de uma escola essa semana, em Belo Horizonte, não importa o motivo inicial, nem quem estava com a razão, é outra, de uma estupidez sem limites... Tenho certeza que nesse grupo alguém conhece um dos envolvidos. Eu conheço e isso não me faz querer defendê-lo. Em BH todo mundo conhece todo mundo... Se eu fosse dono dessa escola, pensaria seriamente em medidas cautelares exemplares e estruturaria uma série de ações pró pacíficas. Como as crianças julgarão este “exemplo” que tiveram? Alguém já pensou nisso? Como estará se estruturando a discussão em torno do acontecido nessa escola? Isso é muito mais sério (no caso, grave) para a formação dessas crianças do que a matéria de matemática do semestre, acredito... Enquanto insistirmos em veicular e reveicular a violência em todas as mídias, incluindo essa, só vamos colocar lenha na fogueira. 

É sintomático a CBN ter um quadro de nome "Boa Notícia CBN". 

Sintomático e triste. A Sociedade do Consumismo venceu. Enganou a todos se auto proclamando "Sociedade da Comunicação" e propagou seu modus operandi. Estragou, joga fora. Perdi o tesão, troco. O velho não presta, o novo é que é bom. Só o hedonismo tem sentido. Não me dá prazer nem curtição? Dispenso. Assim nós vamos. Tristes e infelizes. É preciso que as pessoas escutem as palavras teoricamente simples de um filósofo e pensador, dos que mais influenciaram o mundo contemporâneo e que tem uma profundidade não percebida pela maioria: “amai-vos uns aos outros como a ti mesmos”. Isso, sim, faria toda a diferença.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Para Fernando, Nestor, Manoel e Beatriz.







Em setembro de 1990, depois de nove meses de intensa preparação, 20 músicos, atores, dançarinos, bailarinos, cantores, instrumentistas subiam no palco do Teatro do SESI para a estreia do musical Manoel, o audaz. Com direção geral de Nestor Sant’Anna - meu pai, que hoje completa 71 anos - e roteiro de um de seus parceiros de sonhos e ideais, Fernando Brant.

Dois grandes pensadores e agitadores culturais, Nestor Sant’Anna e Fernando Brant passaram a vida sendo vozes de um mundo que eu ainda não conheci. Um mundo onde a cidadania, a honra, a verdade, a justiça são Valores inabaláveis. A fala dos dois, que vem desse mundo sonhado por eles e por tantos parceiros que comeram juntos a poeira da estrada por onde passou o jipe Manoel, ecoa em meu coração até hoje, e é o discurso que, quero crer, minha filha de 4 anos vai ouvir de mim e vai pronunciar de seu jeito aonde o povo está.

Fernando embarcou em definitivo no Manoel, o audaz. Todos nós embarcaremos.

Em meus sonhos mais íntimos, do alpendre da casa do meu pai - que foi vendida em 91 para custear a palavra firmada com toda a produção do espetáculo, já que o então Plano Collor levou não só a poupança, mas todos os patrocinadores sem palavra -, eu me posto em meditação.

Faço uma oração para o meu pai, que hoje completa mais um ano de vida e tem o presente de poder me ajudar a construir o discurso que ainda podemos fazer juntos pra minha filha.

Faço uma oração para o povo brasileiro, que passou os últimos 25 anos ainda sem compreender que cidadania é mais importante que poder de compra de eletro doméstico e faço uma oração para o Fernando Brant, pra que, tendo finalmente passado pro lado de lá de suas estradas poéticas, nos abençoe verso, nos abrace rima, nos perdoe ritmo, por sermos tão lentos em cadência e por termos sim, “medo de amar”.

No jornal (foto acima) que divulgava o espetáculo, a palavra de Fernando, que falava não de 2015, do que viveríamos 25 anos depois, mas do que acontecia em 1990. Vale ler pra refletir sobre o pó da estrada, enquanto você escuta a música acima.

Parabéns, Pai vovô.

Somos gratos, Fernando.

Com a palavra, Fernando Brant (1990):



“Nosso dia-a-dia é ler os jornais
testemunhar a miséria das ruas
ouvir a voz suína dos poderosos
conviver com o coro uníssono dos que declaram inevitável a predominância da ignorância, da corrupção e da falsidade.
Contra esse tipo de ideia cimentada na inconsciência nacional é que Manoel, o audaz (o jipe, a música, o musical) levanta sua poeira.
Que Brasis se escondem atrás da visão oficial?
Que pessoas, que corações e sentimentos pulsam nas casas e nas ruas, o que se passa no interior da gente deste país?
Ligar os motores do Manoel - além de musical ato de coragem - é interrogar tempo e espaço
mundo real e mundo interior.
É procurar conhecer nossa vocação, nosso destino.
Mas afinal, Manoel, o audaz o que será?
É viagem, é cor, é ventania.
São vozes e corpos que cantam dançam falam.
São pessoas no palco, na vida
brasileiros de qualquer idade, homens e mulheres,
percorrendo vários caminhos que levam a várias verdades.
A verdade é plural.
Muitos países, muitas músicas, muitas culturas
desabrocham desta longa estrada de pó e esperança.
A liberdade tem quatro rodas
e um motor de não sei quantos cavalos.
O povo é sábio, é simples, é bom
mas precisa se descobrir cidadão, senhor de direitos
senhor de seu nariz.
Quanta vida corre além dos escritórios e das cidades;
quanta dignidade existe além dos conchavos de gabinetes;
quanta honra, quanta generosidade brota do peito
da maioria dos brasileiros.
“Quanto mais economia, mais ditadura;
quanto mais cultura, mais democracia”: a reflexão de Betinho deságua
na trajetória destes jovens
que no teatro encenam a realidade.
A realidade tem dentes
mas com trabalho e sonho podemos domesticá-la.
Ainda mais quando o sonho vem em forma de música e dança,
esses dons humanos de cativar os deuses. Esses dons
que os brasileiros, com maestria, cultivam para explicar o mundo.
Com música e dança nós manoelamos.
Manoelar é não aceitar o prato feito, o pré conceito
a história oficial, a versão pronta e acabada. É ir lá.
É perguntar, experimentar, duvidar.
Ver e ouvir.
Conversar, aprender. Tentar.
É viagem de qualquer geração que tenha sonho nos olhos e no coração.
É inventar caminhos, conhecer pessoas
procurar a alma do homem e das coisas.
E descobrir no fim da estrada que existe um país e um povo
que merecem mais respeito.”


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Desligue o seu celular e sapeque enquanto é tempo



A música desse texto foi escolhida em homenagem a Fernando Brant,
Viajante do Manoel, o audaz, que partiu essa semana para fazer poeira em outras estradas, nas estrelas do sempre.

***

Se você tem menos de 35 anos, por favor, não leia este texto. Depois não diga que não avisei.

“O sonho acabou. Quem não dormiu no sleepin- bag nem sequer sonhou”, como diria Gilberto Gil. 

Digo isso porque sapecar é maravilhoso. Digo isso porque trepar (me desculpem os pudicos) revigora. Digo isso porque fazer safadezas sexuais livremente com consentimento do seu parceiro é contundente e transformador. Desliguem a CENSURADO do celular.

Sexe-se. 

Não, não errei o substantivo, não errei o adjetivo. Verbeio a existência do agir, imploro a substantivação do ser sexual, pelemente falando, líquidamente existindo, cabelamente puxando, suormente apertando. Pause-se. Respira, vai. 

Começa de novo. E depois para. Porque isso é bom, mas termina aí.

A música dos anos setenta encontra respaldo só na inconsequência da paixão, no embrião do desejo que rompe semente, arromba virgens pensamentos e eclode em relações que não podem dar certo. A juventude capa e espada sonha castelo, princesa, cavalo e batalha mas o dragão não pode ser mesmo visto... É que as garras do real aniquilam a existência da paixão. A Odisseia dos lençóis termina em naufrágio antes de podermos voltar às ilhas renascidos, renovados, renoivados de desejos pulsão. 

A paixão não sobrevive ao amor. Lamba enquanto é tempo.

Pescoços, curvas, sussurros, gritinhos histéricos e lágrimas (que sem querer são libertadas no fim do início de tudo) nada são frente à descoberta de um outro tipo de amor.

O amor parental.

(Não me xingue não fui eu Quem inventou isso)

Mães ficam com dozinha de seus príncipes, maridos, amantes, namorados, ficantes. Pais ficam com peninha de suas esposas, amantes, namoradas, rainhas. A crueza do desejo, a infantilidade da paixão não pode com a maturidade e a velhice do amor parental. 

O amor de um pai é um grosso e robusto carvalho de trinta metros frente à fragilidade rameira da paixão, pimenteira de época... Nos olhos dos outros arde, na boca da gente queima mas, se febre, passa. E como passa.

Quando o avião decolou de Florianópolis ontem, chorei. Não de paixão, não de desejo. De agradecimento por Deus ter me dado a graça estupidamente gigantesca de ter uma filha como a minha. Que é maior que tudo e que todos, que faz o tempo parar, a noite acender, o mundo girar e o sol aquecer, finalmente. Preciso, urgentemente, me tornar muito muito muito maior do que sou pra ter a honra de ser pai de minha irritantemente filha.

Mais sobre como comparar figos e LEGOS, displicentemente por escolha, em besantanna.blogspot.com