quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Papai



O sentido do mundo cabe em uma palavra, dita em voz alta.

–Papai.

Ela, em si, não traz o sentido do mundo. Ela o revela. São dois tapas no rosto e um ai, entregue. Faço uma reverência, para que minha filha me coroe. Pinto, bordo, pulo, imito macaco, quero a todo custo seu amor que já é meu. Quero ganhar o prêmio em morte do pai vivo mais pai do mundo. Vou fundo. Me desdobro, me multiplico, e vou morrer na praia, frente a frente com a vastidão do há mar. Deitado, braços abertos, rosto na areia, sinto o perfume inconfundível trazido com o vento. É Pai, chão. A espuma das ondas trazem o gosto do sal. É pista do tempero do amor, escondido nas profundezas, onde não se pode ir. Nada. É preciso respirar debaixo d’água. Lá, aqui, somente, quando semente e cruzar finalmente a linha fininha de mel do infinito.

Sou grato, meu Deus, pela água que corre em mim.



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lagoo




O silêncio tomou conta de mim
choro, cordas, acorde
entoo lamento
lagoo
me liquefaço enquanto sempre
pedras do rio
bamboo que atravessa
torce, range, folheia
chia e torce, navalhas

O silêncio tomou conta de mim
tomou café
derramou,
escorreu pelas fendas das cicatrizes

Eu sei que você está lendo isso agora
e quero dizer que silêncio
tomou conta de mim
gritava por socorro, gritava por perdão,
gritava pela pele pelada do não
nunca mais

O silêncio tomou conta do bem
O silêncio domou o querer
O silêncio castrou o dever
O silêncio silenciou o amor
O silêncio é o rugido da dor

De manhã, Diamantina
De tarde, enternecido
De noite, noivo
Na madrugada, sequer de vestido

Porque o silêncio tomou conta de mim
Silêncio bordão, silêncio perda
silêncio pé de moleque, sou eu descalço nas ruas coloniais do destino
eu menino,
atravesso
Entraves
Quando
Desatino

O matemático do amor resolve com números quânticos a equação da saudade







sábado, 11 de outubro de 2014

dó-ré-mi-fada



Dorme fada,
sonha fado.
Traduz, mágica varinha: fé e exaltação.
Encanta em seu cantinho, entoa em seu mundinho o drama inevitável.
– Perdão.
É sabida do amor. Saborosa, flor.
Fomos pegos!, somos cegos...
Seu gosto perfume inebria e envolve. Brincante, dormita e desperta.
Fadices.
Olho com olhos melados de paterna idade.
É o amor que escorre em minhas bochechas.
É o amor que escolhe as minhas queixas.
Quentumes.
Vejo os vaga-lumes que chegam com a nossa noite. Revoam em volta da fada.
Povoam minha morada, acendem meu lugar no mundo.
Sou fundo.
E de lá de dentro, grito seu nome, do escuro de mim.
Ecoam sentimentos, súplicas.
Bailam em espiral com os vaga-lumes encantados.
Você: sonho.
Você: banho.
Você, sempre, eu no colo da eternidade.