terça-feira, 16 de setembro de 2014

Telescópio




Minha irmã, Gabriela, me fez um carinho difícil de colocar em palavras. Tento.

Minha filha mora há 2.222km da minha casa. Lá, foi onde passou o dia dos pais. Gabriela pediu à mãe dela que gravasse: fala pra tia Biba o que você quer que ela compre pro papai de presente de dia dos pais.

– Tia Biba, eu quero que você compre um telescópio pra papai!

Disse ela, com apenas três anos e meio.

Me espanto.

Esse pedido é cheio de proximidade. Esse pedido é cheio de referências muito minhas que talvez ninguém ainda saiba. Quando eu tinha cerca de 10 anos de idade, Beto Bomfim, meu amigão – amigo do meu pai que me adotou como uma espécie de afilhado – me deu de presente uns binóculos. E isso marcou pra sempre a minha infância.

Me marcou porque não pedi isso a ele. Me marcou porque, já naquela idade, intuí todo o simbolismo referente a um presente como esse... Me marcou porque foi meu amigo querido que morreu ferido com carvão em brasa pela palavra sexo, pela palavra amor, pela palavra liberdade, pela palavra dor.

Eu, menino, queria olhar nos meus binóculos e ver o lá, na frente, onde amorte já não estava, quente, pergunta sem resposta, distâncias.

Foi quando entendi que a única coisa capaz de vencer a morte seria mesmo o AMOR.

Quase 30 anos depois, nasceu a minha filha. E eu ainda lembrando da música de Cláudio Nucci, que diz:

“Velho companheiro/ que saudades de você/ onde está você/ choro nesse canto a sua ausência/ seu silêncio/ e a distância que se fez tão grande/ e levou você de vez/ daqui/
Velho companheiro/ algo em mim também morreu/ desapareceu/ junto com você/ e hoje esse meu peito/ mutilado/ bate assim, descompassado/ que saudades de você”...


Minha filha, distânsias. Minha filha: proxintimidades únicas.

Penso telescópio, presente que ganhei. Penso no lá, no outro tempo onde, no que a minha filha quer que eu veja. Einstein tem mesmo razão. Descubro que o sempre agora é presente cheio dela. Onde aqui realizo, no quando compreendo, finalmente, que amor não tem fronteiras. Porque não há tempo, espaço, distância, medo ou morte, que impeça o invisível. Que pra olhar o invisível, basta olhar no telescópio mágico da minha filha, que faz ver, faz crer, esperança de óculos.

Já brinquei várias vezes com minha filha, via FaceTime, com uma lupa. Com ela, amplifico meu sorriso presente. Meu olhar presente. Meu olfato, nariz presente. Com ela faço meu beijão, faço uma piscadela sem tamanho, faço-me mais um tiquinho em busca do seu olhar de amor.

E mesmo quando dói muito quando ela não quer conversar comigo, saber que ela dorme com um pedacinho meu me cala o peito. Há crianças que dormem com bichinhos de pelúcia. Minha filha dorme segurando uma lupa.

Quando sonhamos, revelamos os detalhes escondidos, amplificados na simplicidade ubíqua de sermos um, sendo completamente dois.

Meu amor: lente ao sol, filha.



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