segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Surpresa



Trabalhando.

Ando três quarteirões até o restaurante onde almoço.

Quando estava a três passos do restaurante, me deparo com uma amiga, grávida de sete meses, hospedada no mesmo local.

Ela carrega compras.
–Deixa eu lhe ajudar.
Eu disse.

–Mas você não vai almoçar aqui? Você vai voltar lá e levar as compras pra mim?
–Sim, qual o problema?
–Só acho que você vai fazer papel de bobo.
–“Papel de bobo”?!? (Eis o título do post)
–Sim. Não preciso que você volte três quarteirões. Eu estou grávida de sete meses, não estou doente.
–Eu sei que você não está doente. Está grávida. Não achei que isso seria “papel de bobo”. Achei que seria uma delicadeza.
–Então tá: se você quiser andar nesse sol, carregando essa sacola pesada pra mim, por três quarteirões, pra depois voltar pra esse mesmo lugar, fique à vontade...

Fui.

Chegando:
–Vem cá, deixa eu lhe agradecer! (querendo me dar um abraço)
–Não precisa, não fiz nada demais. Só estava fazendo o meu “papel de bobo”.

Caminhando de volta ao restaurante, fiquei pensando, ainda surpreso:
estamos mesmo fodidos.

Sim. Desculpem a expressão. Mas não consegui pensar em outra.

Mulher, artista, amiga, grávida de sete meses, dez quilos mais pesada por causa do neném, três idiomas, formada, pós graduada, visão crítica de mundo, enfim... tudo me leva a crer que o julgamento dela para este dado momento seria o de uma pessoa sensível. Eis o meu “julgamento”. O meu “pré-conceito”...

No entanto, se mesmo para essa pessoa próxima, com essas características, a leitura de uma delicadeza seria o mesmo que “fazer papel de bobo”, aonde vamos parar?

De volta ao restaurante, não conseguia parar de pensar que no país onde se celebra a “esperteza”, educação, cidadania, delicadeza, compreensão, afeto, carinho, cuidado, são sinônimos de “papel de bobo”.

Sabe? Aprendi com minha mãe e com meu pai a fazer papel de bobo. Lá em casa, todo mundo é bobo. Começa pelos meus avós, passando por meus pais, a maioria dos tios e primos... Lá em casa, então, todo mundo é muito bobo.

Quero um país onde as pessoas façam papel de bobas. Mais do que isso: quero um país onde todos sejam bobos. Porque não consigo me surpreender com a bobeira. É a esperteza que me surpreende.

Parece, para esta amiga grávida, que em breve estará dando a luz, cuidando e educando o seu neném, que “esperteza” mesmo seria eu andar menos seis quarteirões ao sol, me sentar tranquilamente no restaurante, enquanto a grávida de sete meses e dez quilos a mais, carrega duas sacola de mais quatro ou cinco quilos e perde a oportunidade de ganhar um afago.

Qual será o peso da minha sacola?







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