sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Quem quer mudar o nome da Branca de Neve levanta a mão.

Acho que a gremista Patrícia Moreira merece perdão. Acho que seu erro deve ser punido.

Há muito é necessário perdoar. É preciso que aprendamos o perdão, de forma definitiva e absoluta. Todos nós merecemos perdão. "Quem nunca pecou, que jogue a primeira pedra" - disse o primeiro filósofo a ir às últimas consequências com esta ideia revolucionária.

A verdade é que pecamos, todos. E nem sempre por mal. Ninguém aqui está fazendo apologia ao erro. Ninguém aqui está fazendo apologia ao preconceito, ninguém aqui está fazendo apologia ao esquecimento.

Não: perdoar é muito diferente de esquecer. Coisas distintas. Perdoa-se. O que não quer dizer que se esquece. Não necessariamente.

Já perdoei. Muito esqueci. Mas não tudo. Lembrar o erro, tanto o seu quanto o dos outros, é importante para que ele não se repita. O presidente do Grêmio está certo: se esse episódio servir pra abolir definitivamente esse tipo de atitude nos estádios, o Grêmio terá cumprido um papel histórico importante. Sem dúvida, muito mais importante que qualquer título. Sim, acho que o Grêmio deve ser punido por causa dos seus torcedores. Acho que Patrícia deve também ser punida por causa da bobagem que fez, mesmo que tenha sido no impulso. Triste impulso. Triste do ser humano, que se deixa levar por tristes impulsos. Também.

Sinto compaixão por Patrícia, a moça de 23 anos que se deixou levar pela massa - que teoricamente é destituída de crítica, de juízo. Quando se está em situação de massa, se todos começam a correr pra um lado, você, no meio, pode  acabar correndo também. Teoricamente, é o que justificaria as brigas de torcidas. Acontece que a máxima procede: "isso explica, mas não justifica."

Não dá pra mandar copo de cerveja ou de xixi na torcida adversária, "porque todo mundo está mandando". Não dá pra partir pra porrada, "porque todo mundo" está brigando. Não dá pra se deixar levar pela violência, "porque todo mundo" está deixando. Isso é inadmissível. E precisa de punição. 

Pode parecer um contra-senso. Mas acho que tanto ela deve ser punida, como ela deve ser perdoada. Não. Não conheço a moça. Não sei se ela cometeu esse erro de sacanagem, ou se o fez por fraqueza. Só posso sentar no meu rabo de macaco e falar por mim: sei o tanto que errei querendo acertar. Sei o quanto pequei sem ter tido a reflexão prévia necessária do que meu erro representaria. Infelizmente, imagino que ainda vou errar muito, como imagino que vai errar a gremista Patrícia. Tenho pena da nossa sociedade, onde a intolerância é ainda maior do que as várias formas de preconceito. Por isso, precisamos primeiro aprender o perdão. Sou atleticano, meu time é o Galo. Estou farto de saber que a máxima da relação entre os atleticanos e cruzeirenses é chamá-los de "Viados", "Marias", "Bichonas", enfim. Por mais que eu possa separar as coisas na minha cabeça e justificar a mim mesmo que uma coisa é uma provocação idiota e sem qualquer sentido e outra é o que acredito, esse é um erro constante da minha torcida. Que precisa ser abolido. 

Sabe, eu já estou farto de viver em um mundo que inventou o "politicamente correto". Acho o termo "afro-descendente" uma babaquice. Acho o termo "melhor idade" leviano e preconceituoso. Adoro chamar minha filha de macaquinha e dizer que ela tem pé de macaco. E só eu sei o que isso representa. Acho que tem gente que parece macaco, gente que parece hipopótamo, gente que parece sapo, gente que parece lagartixa, gente que parece girafa e por aí vai. E não necessariamente isso pode ou deve ser visto como preconceito. Há contextos que definem situações, acredito. Eu cresci vendo Os Trapalhões. E via uma inocência na sacanagem que era ali explícita. Hoje, algumas "piadinhas" do pessoal da Porta dos Fundos, sinceramente, me agridem. Não sei até que ponto o limite pode ser sem limite, mesmo no humor, mesmo na pseudo-denúncia travestida de piada... Não sei... talvez a gente precise primeiro entender que o ser humano é só humano. E erra. Não é "filho da puta" quem se esqueceu de dar seta. Não precisamos julgá-lo "filho da puta" e correr lá pra fechar, mandar pra "putaquiopariu", nem à "merda". Vai ver que ele estava pensando nos netos que não vê há muito tempo. Vai ver que foi demitido. Vai ver que está com alguém com uma doença grave em casa, vai ver que... enfim...

A intolerância, sim, deve ser a primeira coisa a ser combatida - acredito. Precisamos dar as mãos. Mesmo - e talvez principalmente - a quem errou. 

Ninguém se reduz somente ao seu erro. Patrícia Moreira, a gremista, é muito mais que um grito infeliz. Ataquemos os erros. Não as pessoas. Acabemos com os erros. Não com as pessoas.

Tem um ditado, se não me engano sueco, que diz: 

"Procure me amar quando eu menos merecer. É quando eu mais preciso."

Acho que é bem por aí.


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