terça-feira, 17 de junho de 2014

Setenta anos





Devo falar sobre escolhas.

Escolho falar do pai? Escolho falar do avô?

Falar sobre o pai da gente é sempre delicado.

Vovô Toi pra minha filha, amigo pra maioria. Pai, pra mim. Posso falar do Seu Nestor, que dá aula de música para os filhos dos caseiros da região de macacos. Posso falar do Nestor Sant’Anna, profissional de comunicação, chefe de cerimonial de mais de um governo, do secretário de ministro, do presidente do Palácio das Artes ou da Rádio Inconfidência, do gerente de relações institucionais da Fiat do Brasil ou do chefe de comunicação da Acesita, da MBR, do profissional que cuida da comunicação da Vallée há mais de 20 anos ou do conselheiro da Secretaria Estadual de Cultura. Posso falar do ex-presidente do Kairoz, entidade filantrópica de São Sebastião das Águas Claras. E posso falar do músico. Do pianista. Do acordeonista. Do que defende o músico mineiro. Do que ama a música acima de tudo, do que deu oportunidade para tanta tanta tanta gente.

Pra gente que não tinha nome e agora tem. Pra gente que tinha nome e estava esquecido. Pra gente de talento que não tem e nunca vai ter nome. Posso falar do profissional de palavra, que vende a própria casa pra pagar produção artística. Posso falar do exemplo. Do caçula de 15 filhos de Dona Fifide.

Posso falar de tanta coisa e posso falar de nada. Posso só me sentar e ouvi-lo tocando com uma foto da minha filha em cima do piano. Posso falar do que carrega água no balaio. Do bom de texto e do cabeça dura. Do osso duro de roer. Do maluco. Do resiliente e do resistente. Do sobrevivente. De quem eu puxei pra não desistir de caminhar mais de 2.500 km. - e de quem eu puxei, pra ter e manter essa ideia de jerico.

Mas escolho não falar de nenhum desses. Vou falar de um que ninguém conhece. Só eu, minha mãe e minha irmã. Um que sábado de manhã colocava o long play Um Banda Um, de Gilberto Gil, a toda altura e convidava a gente pra dançar pelado na sala. Um que acordava a gente criança entrando no quarto escuro, sentando na cama e esfregando as nossas costas. Um que uma única vez montou uma pipa comigo em Brasília e que fez toda a diferença. Um que viajava tanto, que eu apontava pra qualquer avião que passava e dava tchau: – Ó o papai!!! Um que ouvia música clássica em fita K7 no carro, enquanto viajava dirigindo de luvas. Um que viajou comigo sozinho pra Ilhéus e que lá me levou no meu primeiro boteco, pra brindar com os amigos. Um que amava decorar a casa. Que colocava os quadros na parede. Que escolhia os objetos de decoração, porque Casa. Pois Lar. Um que minha mãe me ensinou a amar.

Meu pai completa 70 anos hoje, dia 17 de junho.


70 anos atemporais que valeram o adjetivo de SEMPRE. Dele e de muitas vidas. Inclusive da minha. Sou grato, Pai.


2 comentários:

Paula Lorentz disse...

Espetacular Bernardo o seu post em homenagem ao seu pai...Meu pai o admirava muito e nós todos daqui de casa também o admiramos. Adorávamos recebê-lo em Teófilo Otoni juntamente com a Tia Liginha em nossa casa...Um grande abraço a todos aí e nossas saudades de conviver mais!!! Paula Lorentz

Miranda JÚLIO disse...

Bê,

Conheço uma pequena parte desses 70 anos do Nestor. Conheço uns vinte dos 70, mas tempo suficiente para admira-lo (Ele, o Nestor. Tá bem, você também). Fico muito feliz em ser aceito como amigo dele e de toda a trupe. Parafraseando o Thiago de Mello, " setenta anos nada são para quem coloca sua existência na fundação de um milênio", e o próximo milênio será melhor pelas contribuições do Nestor. Abração.