terça-feira, 3 de junho de 2014

Bernardo e a Porta dos Fundos



Em São Paulo, publicitário mata zelador por causa de desentendimento na entrega das cartas e jornais. 

No Rio, fotógrafo morre do coração na frente do hospital especializado em cardiologia sem ser atendido. 

Em Brasília, jovens são multados em 5.400 reais por dividirem o carro para passear. A multa chegou 4 anos depois.

Em Belo Horizonte, recebo uma declaração de amor:

– Preciso te contar uma coisa. Tenho um filho que está com 7 anos. E ele se chama Bernardo por sua causa. Quando éramos colegas, decidi que se um dia tivesse um filho, teria seu nome. Porque achava você inteligente, divertido, bem humorado. Queria que meu filho fosse assim. Ano passado, contei essa história pra ele. Sabe?, ele é.

Quero conhecer Bernardo. Dizer a ele que não assista jornal todas as manhãs. Que continue inteligente, divertido, bem humorado. Que o mundo é bem melhor do que o que aparece nos noticiários. O mundo mesmo, de carne e osso, é cheio de declarações de amor. Mas o que vende é des-graça. O que vende é tristeza. Vivemos um momento em que me parece sintomático ter um quadro no jornal da CBN com o nome "Boa Notícia CBN". E, geralmente, apresenta alguma notícia internacional relacionada a uma descoberta na área da saúde. Será que não temos, aqui, boas notícias, será que boa notícia não vende? Aliás, será que precisa vender? Será que isso mesmo é que é jornalismo? Ou há um vício da cultura da des-graça?

Sabe, Bernardo, eu quero graça. Não só a da Porta dos Fundos, que me diz que estamos precisando rir mais. Quero a graça do abraço. A graça da diversão. A graça da inteligência. A graça da característica de qualquer criança, que, como eu, brincou na escola, sonhou junto, fez amigos, influenciou sonhos. Como você. Porque crianças são assim mesmo. Todas. Porque diversão não é necessariamente entretenimento. Não quero só me entreter, passar o tempo, não ver o tempo passar. Quero sim, ver o tempo passar, mas em ENTUSIASMO pleno. Em diversão, em humor, em alegria, em inteligência, em graça. Quando não há des-graça na televisão, há quase que só entretenimento. A Porta dos Fundos acerta muitas vezes porque critica com inteligência a des-graça, o entretenimento que tem esse sentido raso, o dito politicamente correto, porque também é voz que muitas vezes pede por alguma mudança.

Sabe, Bernardo, queira também a graça. Porque quando é de graça, não precisa vender. Aliás, encontrei a palavra end no meio do que vende. Quem sabe assim a gente não vê que isso tem que ter fim? 

Agraciado, agradeço a sua mãe que me fez essa declaração de amor fraterno. A mim e a todas as crianças, a todos que querem a graça de graça de sermos entusiasmados por natureza. 

Vamos sair juntos pela porta dos fundos do que aí está, Bernardo. E rir sem medida sentados ao sol, na grama do nosso entusiasmo.






Um comentário:

meca disse...

Sempre procuro pela porta dos fundos. Preciso dela. E encontro... Ainda bem!
Ao longo de 64 anos aprendi a descobrir a porta dos fundos, mais ainda, percebê-la rapidamente e me assegurar de sua existência. Sempre foi através dela que passei para correr ao encontro do abraço, da alegria, da verdadeira vida. Encontrei-a em meus filhos principalmente, mas também em meus amigos,e meus familiares queridos, no amor.
Agora, ela vive escancarada para mim! Bernardo, meu netinho, é esta porta. Minha filha me presenteou com um Bernardo inspirado em outro. Obrigada por sua participação neste presente.
- Deus te abençoe! - (Não posso deixar de dizer como as mães e avós, porque o sou...)