terça-feira, 24 de junho de 2014

Dica de Mochila

foto: Ana Carrapicho

Dia 30 de junho, segunda-feira, faz um ano, exatamente, que cheguei a Santiago de Compostela depois de minha peregrinação de mais de 2.500km a pé.

É preciso me ditar sobre isso. E é o que farei nos próximos dias, até o dia 01 de julho, dia do meu aniversério. Sério mesmo.

Curiosamente, pra quem não está habituado com as coisas relativas ao Caminho, recebi um convite do César Félix, editor da deliciosa Revista Sagarana para fazer um artigo sobre a minha peregrinação. E adivinhe que dia a revista fica pronta e sai para as bancas? Sim, dia 30 de junho...

Eu poderia postar alguma foto aqui sobre o Caminho, dizer algo sobre minha peregrinação, sobre a minha odisséia pessoal, mas está sendo redigido no tempo certo, no tempo do passo, letra a letra, até completar os dois mil e quinhentos tantos de palavras, de parágrafos, de capítulos ou do que quer que seja... Porque o Caminho é assim. Decidi, portanto, postar essa foto, tirada neste final de semana, com meus dois irmãos mais novos, que traz estampado o que encontrei no Caminho e que é difícil explicar em palavras: Amor Verdadeiro. Amor sem cobrança. Amor sem ciúmes. Amor sem maldade. Amor gratuito. Amor fraterno.

Porque esse é o amor de quem escolhe um irmão por afinidade. Eu tenho esses dois. E vou carregá-los pro resto da vida. Não importa quantos passos eu dê. Não importa a jornada. Não importa o terreno, o clima, o rumo, nada.

A melhor mochila que existe é o coração.

Aguardem pela revista Sagarana. Vai ser um bom petisco pra quem quer esperar o livro que vem por aí... Na revista, em primeira mão, seu título.


Eu pensando você




Me acalmando.
Me acalma.
Me acalmaria.
Me acalmario.
Me acalmar.
Me acalmo.
Clamo calmo acalanto alma.
Canto calma cala fala.
Silêncio que me escuta.

E o mar, muitas vezes.






terça-feira, 17 de junho de 2014

Setenta anos





Devo falar sobre escolhas.

Escolho falar do pai? Escolho falar do avô?

Falar sobre o pai da gente é sempre delicado.

Vovô Toi pra minha filha, amigo pra maioria. Pai, pra mim. Posso falar do Seu Nestor, que dá aula de música para os filhos dos caseiros da região de macacos. Posso falar do Nestor Sant’Anna, profissional de comunicação, chefe de cerimonial de mais de um governo, do secretário de ministro, do presidente do Palácio das Artes ou da Rádio Inconfidência, do gerente de relações institucionais da Fiat do Brasil ou do chefe de comunicação da Acesita, da MBR, do profissional que cuida da comunicação da Vallée há mais de 20 anos ou do conselheiro da Secretaria Estadual de Cultura. Posso falar do ex-presidente do Kairoz, entidade filantrópica de São Sebastião das Águas Claras. E posso falar do músico. Do pianista. Do acordeonista. Do que defende o músico mineiro. Do que ama a música acima de tudo, do que deu oportunidade para tanta tanta tanta gente.

Pra gente que não tinha nome e agora tem. Pra gente que tinha nome e estava esquecido. Pra gente de talento que não tem e nunca vai ter nome. Posso falar do profissional de palavra, que vende a própria casa pra pagar produção artística. Posso falar do exemplo. Do caçula de 15 filhos de Dona Fifide.

Posso falar de tanta coisa e posso falar de nada. Posso só me sentar e ouvi-lo tocando com uma foto da minha filha em cima do piano. Posso falar do que carrega água no balaio. Do bom de texto e do cabeça dura. Do osso duro de roer. Do maluco. Do resiliente e do resistente. Do sobrevivente. De quem eu puxei pra não desistir de caminhar mais de 2.500 km. - e de quem eu puxei, pra ter e manter essa ideia de jerico.

Mas escolho não falar de nenhum desses. Vou falar de um que ninguém conhece. Só eu, minha mãe e minha irmã. Um que sábado de manhã colocava o long play Um Banda Um, de Gilberto Gil, a toda altura e convidava a gente pra dançar pelado na sala. Um que acordava a gente criança entrando no quarto escuro, sentando na cama e esfregando as nossas costas. Um que uma única vez montou uma pipa comigo em Brasília e que fez toda a diferença. Um que viajava tanto, que eu apontava pra qualquer avião que passava e dava tchau: – Ó o papai!!! Um que ouvia música clássica em fita K7 no carro, enquanto viajava dirigindo de luvas. Um que viajou comigo sozinho pra Ilhéus e que lá me levou no meu primeiro boteco, pra brindar com os amigos. Um que amava decorar a casa. Que colocava os quadros na parede. Que escolhia os objetos de decoração, porque Casa. Pois Lar. Um que minha mãe me ensinou a amar.

Meu pai completa 70 anos hoje, dia 17 de junho.


70 anos atemporais que valeram o adjetivo de SEMPRE. Dele e de muitas vidas. Inclusive da minha. Sou grato, Pai.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Para Fred, Neymar Jr, Thiago Silva e a quem mais servir.


Ontem foi um dia de extrema alegria e de muita tristeza.

Saí às ruas cedo. E meu entusiasmo foi pleno. Ver ondas de carros com a bandeira do meu país é algo que me comove, no sentido mais amplo. Crianças com a blusa da seleção, vocês me representam. Porque acho bonito, porque acho maior, porque tenho em meus conceitos alguns paradigmas relacionados à beleza da construção da identidade ligada à polis, ao senso de comunidade, à comunhão social. Assim, quando vejo as pessoas dispostas a torcer e se manifestar por um mesmo tema, seja ele ideal ou não, acho bonito. Acho bacana. Pra mim, é um significante da seguinte ordem: "se podemos torcer juntos, podemos mudar juntos".

Sei que, historicamente, é mais fácil nos manifestarmos conjuntamente para a festa do que para a mudança. Do que para a disposição social e política relacionada aos direitos e deveres do cidadão. No entanto, somos jovens. O país é jovem. E se emancipa aos poucos. Acredito mesmo nisso.

Acontece que precisamos de ídolos. Por este motivo, precisamos de ídolos. Guias. Quem nos mostre o caminho. Todo jovem precisa de um pai, de um papel de pai, do limite, da construção da definição do certo e do errado.

É por isso que o Fred me deixou extremamente infeliz ontem.

Porque ele está, no momento do jogo, dando o exemplo para milhares de crianças, jovens, adultos que precisam de um ídolo. Não de um crápula. Não de quem finja um pênalti. Não de quem minta pra tirar vantagem da situação. Não no particular, muito menos em rede nacional, em rede mundial.

Que vergonha, Fred.

Sei que foi um ato do jogo. Musashi, o maior samurai de todos os tempos, já usou de artifícios que "não estavam na regra do jogo" para se dar bem em suas batalhas (como chegar muito atrasado para um combate para desestruturar psicologicamente um adversário que estava acostumado com o cumprimento de horários - afinal, era a palavra de um e outro adversários de uma batalha). Mas eram batalhas de vida ou morte. Eram estratégias de guerra. Ainda, sim, questionáveis...

A regra é clara, Fred: as pombas foram soltadas antes do jogo por causa disso. Thiago, você como capitão, deve pedir desculpas por esse deslize. De algum modo. Fred, eu sei que você não é um crápula. Você é um cidadão de bem. Tenho algumas informações sobre amigos seus, de Teófilo Otoni, a cidade feia e quente onde você se criou, terra do meu pai. Você é um cara bacana. Acontece que você deve se lembrar que quem joga não é você. É nosso ídolo. É nosso pai. Acredite, de algum modo, em alguma dimensão, Neymar Jr. é pai da gente quando nos representa. Não precisamos de um pai que faça atitudes que não combinam com o ser humano que você é, Fred. Nem em estratégias de batalha. Afinal, é um jogo. Um jogo de paz, onde é possível dar exemplo pra milhões de brasileiros. Milhões que vão às urnas. Milhões que vão achar que na batalha do dia a dia é possível fazer direito. É possível ser honesto. É possível perder um gol, mas vencer uma copa.

Precisamos de exemplos, caro Fred. Precisamos de ídolos, caro Neymar Jr. Precisamos de pais, Thiago Silva. Mesmo que seja dentro de um campo de futebol. Afinal, é um símbolo fundamental para o jovem Brasil e para os jovens de qualquer idade do nosso amado Brasil...

Oscar, ontem você foi digno de ser chamado de pai. Por todos nós. Não preciso doar para o itaú meus batimentos cardíacos. Já dou meu dinheiro pra ele. Já doei meus batimentos pra quem merece: Fred, Thiago Silva, Neymar Jr, Oscar e todos os jogadores da seleção brasileira. Sejam nossos ídolos de fato. Os ídolos que estamos verdadeiramente precisando neste triste momento político e social.


terça-feira, 3 de junho de 2014

Bernardo e a Porta dos Fundos



Em São Paulo, publicitário mata zelador por causa de desentendimento na entrega das cartas e jornais. 

No Rio, fotógrafo morre do coração na frente do hospital especializado em cardiologia sem ser atendido. 

Em Brasília, jovens são multados em 5.400 reais por dividirem o carro para passear. A multa chegou 4 anos depois.

Em Belo Horizonte, recebo uma declaração de amor:

– Preciso te contar uma coisa. Tenho um filho que está com 7 anos. E ele se chama Bernardo por sua causa. Quando éramos colegas, decidi que se um dia tivesse um filho, teria seu nome. Porque achava você inteligente, divertido, bem humorado. Queria que meu filho fosse assim. Ano passado, contei essa história pra ele. Sabe?, ele é.

Quero conhecer Bernardo. Dizer a ele que não assista jornal todas as manhãs. Que continue inteligente, divertido, bem humorado. Que o mundo é bem melhor do que o que aparece nos noticiários. O mundo mesmo, de carne e osso, é cheio de declarações de amor. Mas o que vende é des-graça. O que vende é tristeza. Vivemos um momento em que me parece sintomático ter um quadro no jornal da CBN com o nome "Boa Notícia CBN". E, geralmente, apresenta alguma notícia internacional relacionada a uma descoberta na área da saúde. Será que não temos, aqui, boas notícias, será que boa notícia não vende? Aliás, será que precisa vender? Será que isso mesmo é que é jornalismo? Ou há um vício da cultura da des-graça?

Sabe, Bernardo, eu quero graça. Não só a da Porta dos Fundos, que me diz que estamos precisando rir mais. Quero a graça do abraço. A graça da diversão. A graça da inteligência. A graça da característica de qualquer criança, que, como eu, brincou na escola, sonhou junto, fez amigos, influenciou sonhos. Como você. Porque crianças são assim mesmo. Todas. Porque diversão não é necessariamente entretenimento. Não quero só me entreter, passar o tempo, não ver o tempo passar. Quero sim, ver o tempo passar, mas em ENTUSIASMO pleno. Em diversão, em humor, em alegria, em inteligência, em graça. Quando não há des-graça na televisão, há quase que só entretenimento. A Porta dos Fundos acerta muitas vezes porque critica com inteligência a des-graça, o entretenimento que tem esse sentido raso, o dito politicamente correto, porque também é voz que muitas vezes pede por alguma mudança.

Sabe, Bernardo, queira também a graça. Porque quando é de graça, não precisa vender. Aliás, encontrei a palavra end no meio do que vende. Quem sabe assim a gente não vê que isso tem que ter fim? 

Agraciado, agradeço a sua mãe que me fez essa declaração de amor fraterno. A mim e a todas as crianças, a todos que querem a graça de graça de sermos entusiasmados por natureza. 

Vamos sair juntos pela porta dos fundos do que aí está, Bernardo. E rir sem medida sentados ao sol, na grama do nosso entusiasmo.






segunda-feira, 2 de junho de 2014

A volta dos que não foram





Poeira em alto mar.

É que partimos sem perceber. E, de repente, nos perdemos. Parece que fica o gosto da saudade. De nós mesmos. Desencantados?, perdidos?, não sabemos onde estamos... Escancarados, de portas e janelas abertas para o mundo, que entra todo, parece que sem pedir licença. Duvidamos de nós mesmos. Sou eu mesmo na carteira de identidade?

O mundo gira, e com ele, a gente. O Tempo faz fila. E quando acordamos, estamos lá, onde quer que seja, levados por Ele. Na comédia romântica O Casamento Grego, o irmão da noiva diz a frase que nos faz calar: “não deixe que seu passado decida quem você é, mas deixe-o fazer parte da pessoa que você será”.

É que há sempre escolha. É que há um Haikai meu, do livro V ENTE: Haikai do Livre Arbítrio. “Quem planta, escolhe”.

Acho que é bem isso mesmo. Sempre é possível escolher entre subir ou não no trem que parte. Quantas vezes não sabemos seu destino final? Acontece que há muitas estações. Nelas, possibilidade de baldeação. Quem acha que “voltar” é sinônimo de perda de tempo, não sabe a importância de se viajar com a chave de casa no bolso. Sabe, quando parti para minha odisséia pessoal, minha mãe disse:

–Filho, você está levando o que precisa?

Eu disse:

–O principal está aqui, mãe. A chave de casa.

De tempos em tempos, todas as células do meu corpo mudam. Meu nome, não.