quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para vovô Toi e vovó Lili



Ei vovô Toi, ei vovó Lili,
é Beatiz.
Eu num sei falá direito. Eu tenho têis. Papai falô que eu dei uma rôpa de cama pa cama nova. Eu gosto de durmi. Eu quero durmi na cama nova do vovô Toi e da vovó Lili. Eu gosto de música. Vovô Toi também. Vovó Lili gosta de cores. Igual eu. Eu sei desenhar. Eu quero nadar na banheira do quarto da vovó com o papai. Eu quero.

Filha,
ontem vovó fez 69 anos. Dia 17, vovô faz 70. É uma data especial, quando gostaríamos que estivesse aqui, presente não só em nossos corações, mentes, lembranças, fotos. Quando penso no tanto que vovô e vovó esperam esse contato, o quanto beijam suas fotos, fazem carinho nelas, me dá pena de quem não entende o quanto isso é importante pra você e sua formação, para a construção de uma identidade mais rica e plural.

Sabe filha, tenho muitas graças e muito a agradecer. Sobretudo por você. Mas devo agradecer primeiro a eles, seus avós, nestes dias de comemoração e saudades suas. Porque eles me trouxeram até aqui, e me ajudaram a moldar o pai que você tem hoje. Com muitos defeitos e muitas qualidades. A parte boa é: tem muito, mas muito mais gente que gosta de mim do que desgosta. Isso é sinal que sou mais bom do que ruim. Que tenho mesmo algum valor. E os princípios de Bem, Bom, Belo, Bondade, Igualdade, Fraternidade que espero passar pra você. Nem que tenha que brigar contigo algumas vezes, por mais que isso me doa (muito mais do que você pensa). Foi assim que meus pais fizeram comigo e é assim que vou fazer contigo, doa a quem doer, custe o que custar.

Posso aqui começar a tecer rios de elogios aos seus avós. Porque eles são mesmo gente boa. Do bem. Sempre, em todo tempo, só deram carinho e respeito pra os que com eles convivem e conviveram, muito ou pouco. São cuidadosos com os seres humanos. São respeitosos (e carinhosos) com o próximo. Sabe, filha, a história dos dois é muito bonita. Basta dizer que vovô conheceu a irmã da vovó na França e que ela disse: volta, que você vai se casar com minha irmã. E assim aconteceu. Basta dizer que, de altos e baixos, se formou um lindo caminho florido. Mesmo com um tantão de pedras. Um que, tenho certeza, vão querer revisitar, a qualquer tempo contigo, quando puderem lhe encontrar em seu colo, entre uma brincadeira e outra, entre uma música e outra, entre um carinho e outro. É que o amor dos dois por nós é fogueira da Matinha, que insiste em queimar em noite de lua, quando o crepitar das chamas conduz as estrelinhas que saem desse fogo rumo ao céu que nos envolve noite, enquanto dormimos pra sonhar com dias melhores. Nessa roda de fogueira tem silêncio e tem música, tem acordeón do vovô Toi, tem agasalho da vovó Lili, tem risada da tia Biba e tem o olhar poético do papai. 

Sabe, filha, brincar de escrever por você e pra você é bom, pra exercitar nosso olhar múltiplo que se complementa e que faz parte da paternidade. Porque olho por você, filha. E vejo. Assim como vovô e a vovó olham por nós. Assim, lindos como nessa foto. 

Engraçado. É tão fácil pra mim encontrar a palavra eternidade na palavra paternidade, que talvez por isso eu entenda a promessa de Cristo de outra vida por meio do renascimento, da beleza incontestável de uma ressurreição quando olho para seus avós, quando olho pra você, e quando olho pra dentro. Não se esqueça de agradecer ao papai do céu por seus avós, filha. E seja sempre grata a eles. Como seu pai.





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