quinta-feira, 27 de março de 2014

Um dia atípico

Ontem foi um dia atípico.

Às 21h paramos na avenida do Contorno, logo após a trincheira para comer um sanduíche. De lá, eu ficaria no Hospital Felício Rocho para dormir com meu primo que fez uma cirurgia. Decidimos parar ali  pra que eu comesse algo porque ficava mais fácil, mais simples, é bem próximo ao hospital. 

Antes de fazermos o pedido, o comentário do atendente: –Quebraram o vidro do carro preto do outro lado da rua. Estão levando uma mochila.

Saí em disparada atravessando a avenida entre carros acompanhado do motoboy da lanchonete: –Vai por aqui que eu vou por ali!

Bom, levaram meu computador pessoal. Todos os meus arquivos de áudio dos últimos 5 anos. Levaram as primeiras páginas do livro novo, que demorei 8 meses pra conseguir encontrar a forma de escrevê-lo, levaram a apresentação da palestra que eu darei hoje e que demorei também 8 meses pra que ficasse pronta. Não, não havia backup dessa palestra, ontem era sua finalização, hoje eu faria o backup.

Curioso. A palestra é para os detentos de uma penitenciária de Nova Lima.

Daqui da cama, onde me deito pra tentar dormir depois de uma noite de acompanhamento em hospital, onde só se consegue dormir por umas 3 horas, leio os dizeres de um pensamento escrito carinhosamente no espelho do banheiro: "Lo que buscas te esta buscando también" –Rumi. Penso no meu computador. Penso na minha filha. Penso no trabalho de 8 meses. Penso no trabalho de mais de 5 anos. Penso no valor das coisas. Penso que hoje cedo vi uma reportagem sobre o vandalismo em BH, ruas, praças, obras, prédios, arte, tudo pichado. Penso na paz. Penso no amor. Penso na Dilma e na falcatrua da Petrobrás. Penso nos políticos do mensalão, todos, com suas penas revistas. Penso no coitadinho do Lula, que não sabia de nada. Penso no filho do Lula, que virou ninja nos negócios depois que o pai foi eleito. Penso na educação moral e cívica, que tive na infância. Penso no Instituto Capibaribe, onde estuda minha filha, em Recife. Penso no que disse o policial no rádio do carro de polícia, quando estava perseguindo um fantasma levando um computador cheio de sonhos, de trabalho, de luta, de vontade de fazer boas ações voluntárias. Penso que vou chegar de mãos vazias na palestra hoje a noite. Penso que os detentos serão vítimas de delinquentes de ontem na noite de hoje. Que roubaram deles mais do que uma linha de raciocínio com o objetivo de lhes plantar outra perspectiva, outro olhar. Penso em Jesus Cristo. Penso no advogado de direito de família contratado pelo pai da mãe da minha filha, médico muito inteligente e conceituado, o mesmo que pediu pra não ser cumprimentado dentro da igreja pelos familiares paternos da neta. Penso que esse pedido foi "em nome da paz".

Penso que não devo mesmo saber o que é paz, o que é segurança, o que é certo, o que é justo, o que estou buscando... Quando ontem, dentro da viatura, o cabo não pode atravessar o sinal vermelho para parar o ônibus que tinha o suspeito de roubar a minha mochila, mesmo com a sirene ligada, penso onde vamos chegar. Se até o bom julgamento e a sensatez do homem da lei são colocados em xeque, o que dizer do cidadão comum?

Penso que não há mais o que pensar. Penso que estou errado. Ontem foi um dia típico.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Café com pão, bolacha não.




Redes sociais ou antissociais?

Ela leu uma reportagem dizendo que uma padaria em São Paulo (Alegria Padaria Brasileira) tinha Wi-fi e Fé. Ambas a conectavam ao que era preciso.


Paro. Penso. Me dito.

Decido: quero uma Wi-fé.

– Uai, fé? Sim, por que não?

Quero me conectar às pessoas, mas não desse modo banal. Não quero que a necessidade de aprovação seja a sinapse do qualquer contato. Quero crer que a conexão, seja ela qual for, ultrapasse o “parecer ser”.

Se Shakespeare estivesse vivo hoje em dia, talvez mudasse a grande questão de Hamlet. Em tempo de Redes Sociais em que as tramas dos desejos asfixiam as relações de identidade, imagino que Hamlet diria, perplexo e ensimesmado:

– Ser ou Parecer Ser? Eis a questão!

Se minha fosse, assim perguntaria: Ser ou pare ser? Eis a questão...

Vamos embora, minha gente... Que o ser para de ser no momento que deixa de ser para parecer ser o que quer que seja... Cadê espontaneidade? Cadê simplicidade? Filosofia à parte, ainda sim, é fácil perceber que rir pra foto é diferente de rir pra vida. Que murchar a barriga e estufar o peito não faz de ninguém mais forte. Quero encontros sem máscaras. Quero conexões de pele: aperto de mão, abraço do lado esquerdo pra alinhar os corações de quem abraça. Quero me conectar com a fé do outro, sua crença, onde o outro tangencia sua verdade. Porque nada substitui o abraço. Porque a melhor rede social é a do pescador que compartilha os peixes. Porque a melhor rede social é a que fica embaixo de dois pés de fruta, a que nos sentamos ou nos deitamos numa tarde de domingo, pra ouvir passarinhos, pra escutar o passo do tempo, pra esperar estrelas ou pra balangar buscando vento... Porque quando conexão como essa cai, é de bunda no chão. Daí, a gente ri pra valer e nunca mais se esquece do outro que bateu a bunda na terra com a gente...

Wi-fé? Por isso. Porque é possível crer que ainda dá tempo de ser. Sem medo de “pare-ser”.

Quando for a São Paulo, sei onde vou tomar café com pão.



quinta-feira, 20 de março de 2014

Para Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque

do facebook de Roberto Guido compartilhado por Patrícia Tavares

Instituo verbo novo: Qurer. 

Proponho desafio a Caetano, Gil e Chico. Que cada um faça uma música com o novo verbo Qurer. Ou, uma música dos três, tanto faz.

Tanto faz.

Proponho esse verbo n'ovo, verbo de resistência, que desconstrói a pura crença edificando-a na vontade. Que tira o verbo ser, conjugado no presente, da palavra querer. 

Verbo de transcendência, que dá desse modo ao querer, o benefício do inefável, da dinâmica do andar com fé, que a fé, como já nos disse Gil, não costuma faiá.

Juntei na bacia da minh'alma o crer e o querer. Pra dizer que eu acredito. Pra dizer que além de acreditar, eu quero. Pra dizer que além de querer, tenho fé. Não me venha com essa história que rir é o melhor remédio. Porque não posso ficar alheio ao que leio como crítica à contemporaneidade da alienação (a foto do Gil tocando violão no mesmo sofá de uma moça que ostenta um novo caro fone de ouvido), nem à piada de "humor negro" (?) dos dizeres da foto de Caetano e Chico (mesmo sendo engraçada).

Porque basta rir da desgraça, que de alheia nada tem. Detesto a palavra que une "graça" ao prefixo "des". Demorei 30 anos para, um dia, ter a sorte de me sentar em um sofá sozinho com Gilberto Gil. Na ocasião do show Tropicália Duo, feito por Gil e Caetano em Belo Horizonte, consegui me reunir com o cantor sozinho em seu camarim. Trocamos impressões, lhe disse de meus sonhos. Para quem cantava Refazenda com três anos de idade, isso foi um querer de muitos anos, que só foi possível pelo crer. Um qurer, é claro. Na ocasião, pasme, Gil me apresentou Caetano Veloso. Fiquei em estado de graça. Sem "des". Só com.

Tenho pena de que tenhamos que enxergar na foto acima uma piada. É piada que tenhamos que enxergar na foto abaixo uma pena.

Quem gostaria de estar em um sofá com Gilberto Gil e seu violão? Me dóem os dedos escrever essa pergunta herética. Não quero crer que haja quem não responda o óbvio pra mim. Não creio que quero mais do que o bom senso pode aferir. 

Há algo que baste aos meios de comunicação de massa? Não há limite para a falta de crítica na produção e veiculação?  O desejo de transformar a cultura média do brasileiro precisa do verbo Qurer. É preciso fé. Com vontade. É preciso querer. Com crença de que não é tarde demais.

Gil, Caetano, Chico, são só exemplos óbvios. Qurero que essa menina tire os fones para se sentar no sofá sem i-Qualquercoisa com o Cobra Coral, com Kadu Viana, com Mariana Nunes, com Pedro Morais, com Flávio Henrique, com Flávio Venturini, com Edu Lobo, com Celso Adolfo, com Vander Lee, com Vinícius de Moraes, com Chico Science, com Elza Soares, com Patativa do Assaré, com Marcelo Jeneci, com Monica Salmaso, com Titi Walter, com Marcus Viana, com Anthonio, com Makely Ka, com Kristoff Silva, com Tabajara Belo, com Toninho Ferragutti, com Roberto Corrêa... ah, pesquisa aí.

Qureio, ainda é possível.

Foto retirada da internet - a pedido de quem tirou a foto (e não devia ter jogado na rede se não queria que fosse usada) pintei o rosto da menina, para que não fosse reconhecida - o que quem tirou a foto deveria ter feito...)

P.S. nada contra "Luan" ou quem quer que seja. O que vemos são a ponta do iceberg que quero derreter. Não, não é preconceito. Clique AQUI pra ver que lindo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

À margem da vida



É fácil reclamar da vida.

É fácil colocar a reclamação como moeda de troca. Um dia, disse ao meu psiquiatra e analista que a imagem que eu tinha era a minha, em pleno inverno rigoroso, no meio de um lago de gelo que não conhecia. Me faltava um corrimão.

Demorei 35 anos para compreender que é possível patinar e sentir a brisa: o carinho que o Vento faz na gente quando é decidido ir ao Seu encontro, quando é decisivo ir ao seu encontro. 

Aprendi que quanto mais duro o gelo, mais deslizam os patins. Quanto mais duro o gelo, mais reflexo ele dá. Mais posso me ver. Quando patino, sei que estou em queda livre, como os aviões em parábolas perfeitas. Eternamente controlando a queda, pesados que são, até seu pouso majestoso e improvável. Para pousar, foi primeiro preciso acreditar.

Ouso patinar. 

Reclamar é jogar a culpa pra plateia, na espera de que o julgamento não venha, inseguros que somos. Acontece que a limitação está em quem é julgado na mesma medida de quem julga. Julgar sentado na arquibancada é comodo. Da beira do lago, é possível ver as quedas e invejar o ballet de qualquer movimento. Talvez seja necessário parar um pouco, tanto no meio do lago quanto na borda, na terra, pra meditar a palavra CLAMAR. 

Encontrei o verbo amar em quem chama. Encontrei o verbo amar em quem clama. Quando se ama de novo, pode-se amar melhor, mais intensamente, mais certa e assertivamente. O que é o Amor, se não um fim de tarde patinando no gelo? Paramos e é fácil o desequilíbrio. Corremos e é certa a queda, é certo o gelo frio no rosto. É triste a criança que, no rinque de patinação, fica (só) agarrada à borda. É isso. A reclamação é só a margem da vida.



No vídeo, Daniel Gonçalves dá aulas práticas de patinação no gelo. É uma das nossas tantas Yulias Lipnitskayas. Sou grato, Daniel, pelo exemplo. Seu nome já diz, não teme a cova do tombo nem mesmo o leão do medo. Clamemos.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Para Norma e Giovana



Estou novamente no Campo das Estrelas. 

Daqui do alto, vejo as Três Marias. Vejo constelações que não sei o nome. Vejo o breu que se traduz em nada, vejo o nada que se traduz em breu. Vejo as nuvens bem abaixo do avião, que sacode um pouco voltando pra casa. 

Hoje, fiquei 4 horas e quinze esperando para conversar com uma juíza. Alguém que nunca vai ter a dimensão do meu amor por minha filha. E que se julga julgadora, julgadora que é. 

No prédio do Ministério da Justiça em Brasília, uma das tantas fontes que adornam a fachada é desligada. São várias, uma não funciona. É uma sábia e triste alegoria que diz da imperfeição da justiça dos homens. Há três anos me encontro nu, embaixo dessa fonte, com minha filha, esperando a água que não vem. Uma promotora de Justiça de nome muito justo, "Norma", achou finalmente estranho o fato de ter um pai e uma filha pelados em plena praça dos três poderes, e decidiu intervir. 

Perguntou ela: será que passado tanto tempo, não era hora da água vir? Há tanto esse pai passa sabão como pode, procurando limpar o que estava sujo, procurando lustrar o que já estava limpo e nem uma gota é permitida a ele? Será que isso é mesmo julgamento justo? Será que não é hora de perceber que a água que sai de seus olhos, por mais que saia dia após dia, nunca será capaz de cuidar da grandeza de um pai e da plenitude de uma filha? 

Talvez eu não escute nunca as respostas das perguntas de Norma. 

Norma não sabe, mas recentemente liguei pra minha filha via FACETIME. Lá, brincando, ela pegou um celular de brinquedo. A mãe disse: vamos ligar pra quem? Pra Giovana, disse ela. E falo o quê pra Giovana?, perguntou a mãe. Fala pra ela não bater na Beatix, disse minha filha, com 3 anos de idade.

A mãe percebeu o que estava por trás da fala da minha filha, sensível que é.

Norma não sabe, mas ontem, ao querer despedir da minha filha, ela entendendo que eu iria pra não sei quando voltar, me ouviu pedindo: Dá um abraço no papai que ele vai embora. Não! Veementemente e com cara de choro. Não! Repetiu. A mãe tentou intervir: vai lá dar um abraço no papai... Não! Vai você! Você que vai dar um abraço no papai!

A mãe não percebeu o que estava por trás da fala da minha filha, sensível que é.

Nem a Norma não ouviu, não estava nos autos, mesmo sendo sensível.

Diz a norma, que pai que é pai, merece se banhar na vasta e volumosa cachoeira do há mar. Sendo ou não ela do lindo e bem cuidado prédio pomposo do Ministério da Justiça. E que essa água não cessa nunca, nem em período de seca. 

Diz a norma, que o bem vence o mal, que a verdade prevalece, que só o amor vence a morte, que a paternidade é um direito sacralizado. Normalmente sim. Daqui, pelo menos, agora, onde as estrelas me confidenciam que nada foi em vão, percebo que nenhum breu é capaz de apagar as luzes das estrelas, nenhuma escuridão de dúvida, raiva, rancor, inveja, mágoa, apaga o brilho do olhar e do sorriso de uma menininha linda, que fica feliz pelo pai dar duas bicicletas de presente: uma pra ela (é minha!!! diz ela) e outra pra quem insiste em ver o breu, e não a beleza redentora e consagrante das estrelas.


quinta-feira, 6 de março de 2014

RECEITA PARA SER FELIZ




Para ser feliz...”. Começa a frase e eu já me lembro da abertura do Programa Infantil de domingo, do Sílvio Santos, e da música tema: “há um mundo bem melhor / todo feito pra você / há um mundo pequenino / que a ternura fez”. Versão gravada primeiramente pelo intermidiático Moacyr Franco para “It’s a Small World”, um dos temas mais emocionantes de Richard & Robert Sherman para a Disney.

Curioso saber que o eterno Rolando Lero, Rogério Cardoso, é quem foi o pai da versão brasileira desta música que marcou gerações.

Afinal, qual a receita para ser feliz?

Segundo Rogério Cardoso, acho que influenciado pela máxima que “o Brasil é um país do futuro”, a felicidade está em algum lugar e em algum tempo que não este. Afinal, “há um mundo bem melhor, todo feito pra você”. Pelo visto, não este.

E você, o que acha? A felicidade está em algum outro lugar?

Quer saber? Aproveite. Seja feliz agora. Não estou querendo tangenciar o niilismo ou o hedonismo, nada disso. Tem muito mais a ver com a filosofia Zen, mesmo. Viver o agora como só pode ser vivido. 100% presente. Por isso, puxe a ponta do laço, desembrulhe. Curta a expectativa do que está embrulhado. O presente é um só, e precisa ser desembrulhado com o amor consciente, reverente, consistente, vivo. Viver qualquer coisa que seja com foco, carinho, atenção e (sobretudo) doação completa é fórmula mágica. Para ser feliz.

Sabe? Ser feliz é estar estando feliz ao longo e largo da jornada. E isso é exercício que demanda aprendizagem, mas que pode ser aprendido e apreendido, acredite. Acredito. No Caminho, encontros. Em cada um, doação de amor. E aí se vai, e aí nós vamos a compartilhar amor em seu sentido mais terno, interno, pulsante. Tenho vivido por isso, para isso, assim. Gosto de pensar que por mais que o mundo puxe meu tapete, a hora, então, é de deitar no chão e curtir a relva, a grama, o cimento queimado. Se não há tapete, o solo faz as vezes do aconchego. Aproveito pra trocar energia com a mãe terra. Porque se estou na fila de banco, posso me encontrar com alguém sensacional que pode mudar a minha vida para sempre. Porque se estou no avião em turbulência posso descobrir que o piloto é o Pai. Porque se estou nu posso curtir o frio ou o sol e se estou agasalhado posso curtir o conforto ou o calor.

Já reparou? Quando falamos de um caso triste, mesmo que tenha passado, sintonizamos em alguma medida com um sentimento de tristeza. Quando falamos em algum caso que nos deixa nervosos ou indignados, sintonizamos em algum ponto o mesmo sentimento de revolta ou enfezamento. Quando falamos sobre algo engraçadíssimo que nos aconteceu, acabamos por rir, às vezes, às gargalhadas... o que isso ensina?

Devo sintonizar, atrair, falar sobre, contar, relembrar, coisas boas, alegres, engraçadas, divertidas, amorosas, ou... ruins, tristes, pesadas, chatas, difíceis?

Acho que precisamos encarar finalmente o fato de que é muito mais fácil ser feliz do que pensamos, do que dizemos, do que vivemos, do que esperamos. Ter medo de ser feliz é fácil. Difícil é entender que corajoso não é o que não tem medo. Corajoso é o que, apesar do medo, decide tentar.

Que se dane, vou tentar ser feliz. Hoje. Agora.

Pronto: sou.