terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Para Yulia Lipnitskaya e Beatriz de Castro Maia e Sant'Anna



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Yulia, somos gratos. Todos.

Posso dizer do seu seu vestido vermelho, significante em consonância com o signo vermelho utilizado por Steven Spielberg em seu filme "A Lista de Schindler".

Posso dizer da música de John Williams enquanto berço, onde nasceram os movimentos de dor, o bailado de redenção, a coreografia de transformação da tragédia.

Posso dizer do filme de Elem Klimov, também da Rússia, "Vá e Veja"(trailer - um dos filmes mais fortes que vi) que retrata belamente a tristeza o que você retratou em dança.

Mas fico pensando se devo. Fico pensando que deve, em algum ponto, existir em seu DNA de menina de 15 anos, um resquício de história, um pilar escondido que é cerne de seu equilíbrio, que lhe faz resiliente a ponto de trabalhar a queda de toda a humanidade com tamanha redenção. Você não viveu os horrores da guerra. Vive, ainda, acredito, seu saldo. Me lembra o menino de 12 anos do filme que, perdido, fica cara a cara com o-que-não-pode-ser. Penso que sua geração e a da minha filha têm esse destino. De fazer limonadas suíças (ou quem sabe russas ou pernambucanas) com nossos tantos limões. De ensinar a paz para quem só vê guerra. De mostrar o bem, não importa a quem. Que, por mais que haja um resquício de dor, toda dor pode transformar-se em amor. Foi o que vi você fazer, milagrosamente na frente de centenas de milhões - imagino.

O que é o ballet no gelo? Não seria isso? Uma pura alegoria da fênix? Como, em terreno inóspito, fazer brotar tão quente movimento? Como voar sobre as águas? Como deslizar, planar, fluir, ventar de modo tão gracioso em tão duro, frio, rígido solo? Que metáfora existencial é essa, que nos chama a migrar do imóvel, do estagnado ao mais perfeito voo? O que pode nos ensinar essa menina de 15 anos e sua coreografia paradoxalmente leve e densa? Yulia, você tem consciência da beleza da sua apresentação? Do que ela pode representar politicamente, da semente que pode ser no jardim da história da humanidade?

Quero crer que sua apresentação seja estudada exemplo nas escolas. Independentemente dos tombos que você teve para chegar até este ponto. Porque esporte, música, ballet, poesia e arte não servem pra nada. A não ser pra nos reafirmar cada vez mais humanos, nos distanciar da bestialidade da guerra e nos vocacionar ao encontro eternamente impossível com os deuses, todos, que habitam sonho em nós, pobres mortais.

A vida pode ser gelo e ballet, Beatriz. Por isso, cabe escolher bem a música, o vestido e a coreografia, minha filha.

Do seu pai que lhe ama.


Um comentário:

Scaldaferri disse...

Lindo texto Peregrino, meu amigo, Pai da Beatriz. ...
É tudo que posso dizer após esta leitura densa, mas deliciosa.
Grande abraço Bê
Alexandre Scaldaferri