segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?




É... Saudade do tempo em que o Zezé do Carnaval era o da cabeleira, não o do Pó Royal. Quando me vestia de bermuda, tênis, camiseta, pegava um troco com minha mãe e ia pro Minas I, de ônibus, brincar no baile. Voltava à pé. Ou ficava horas no vazio ponto de ônibus, no escuro, esperando a condução.

Hoje, na frente do Hospital São Bento, tem o bloco dos Irmãos Metralha, na descida na Nossa Senhora do Carmo tem o bloco do Al Capone, no Gutierrez tem o bloco do Ali Babá e os 40 ladrões, no Santo Antônio tem bloco o ano inteiro dos “Carangos e Motocas” e o bordão “Eu te disse, eu te disse!” não é mais dito por uma motoquinha com cara de boboca. É por alguém que já caiu no esquema do assalto relâmpago, do sequestro relâmpago, do motoqueiro relâmpago. Sem falar no bloquinho da Serra do Cipó, onde o carnaval pega fogo, e no carnaval da periferia, onde é samba de roda o ano inteiro. Top-top. Põe na roda e seja o que Deus quiser... tadinho de Deus: brasileiro, queria um samba-exaltação e nós só soubemos fazer samba-de-breque. 

E, curioso, em nenhum desses quero brincar. Aliás, parei de brincar. Tenho saudade de quando a brincadeira de Polícia e Ladrão da infância era só um espelho dos seriados norte americanos ou um arremedo romântico de Velho Oeste. Acho que a gente sempre queria ser o bandido porque o bandido da infância se misturava à filosofia de Robin Hood, quando legal é tirar dos ricos perversos pra dar pros pobres. Hoje, não. Não quero ser bandido. Bandido hoje mata por um celular. Por cem reais. Põe fogo em casais que só estão querendo descobrir o amor, encontrar a natureza, ver a beleza das plantas, dos bichos, encontrar a paz. Esses são queimados. 

Cuíca pro Black Bloc. Reco-reco não é mais o Recruta Zero, bumbo explode rojão na cabeça de cinegrafista que nem parte com a ideologia da TV que representa tem, só está ali tentando defender o pão dos filhos, a cerveja de domingo, o sambinha na laje. 

A percussão toca fundo meu coração de menino, que acredita que tem jeito, que não quer que a filha sofra as mazelas do fim do mundo que já está aí e fazemos vista grossa. Porque votar que é bom, ninguém sabe. O samba enredo dos vereadores que nos representam pode ser tocado sem que absolutamente ninguém ouça. Você sabe o nome dos políticos que ganharam seu voto? E qual a participação deles durante seus mandatos? Eles costumam fazer sambas, fretes ou leis? 

Sair às ruas pra quebrar é muito fácil. Quero ver sair às ruas para construir. 

Meu samba-enredo não rima. Seu ritmo é fúnebre e silencia com os parentes e amigos dos que perderam seus entes recentemente, dos que estão com medo depois de serem ameaçados dentro de seus carros, suas casas, suas ruas, sua cidade, seu país, seu lugar. Talvez o verdadeiro protesto seria este: as ruas totalmente desertas e silenciosas no carnaval. Porque neste carnaval, quero prestar atenção para ouvir o barulho afiado da tesoura que poda os cabelos do triste Zezé.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ela e sua marcada cara bonita



Não sei bem aonde vamos chegar. Sei a onda que aí está. Tenho birra de certos "novos costumes" que vão se firmando, em detrimento às escalas de valores, que não se sedimentam no Brasil, acredito, por falta de cultura. 

Sou menino e sou velho. 

Velho a ponto de acreditar que devemos respeito aos mais velhos. Que devemos dar nosso lugar a mulheres, senhores, senhoras, grávidas. Acho que machismo é confundido com cavalheirismo, muitas vezes, e muitas vezes por pseudo-feministas de plantão, que não tem peito pra queimar soutien. Gosto de abrir a porta do carro para minha mãe, minha namorada, minha filha, meu pai, minha amiga. Gosto de cozinhar, gosto de unhas bem feitas, gosto de cuidados. O fato do meu escritório ser uma completa bagunça não diminui meu interesse pelo cuidado, pela cama bem feita, pelo mimo significante, significado "eu olho por você". 

Sou assim. E me preocupo com a importância que é dada ao falso reconhecimento gerado pelas redes sociais, sejam elas quais forem. Do Instagram ao Facebook, passando pelo WhatsApp, vendido pro Zuckerberg por bilhões pelo cara que ele não contratou em 2009. Faça um teste: quantas horas por dia você passa usando algum dispositivo social? Depois relacione o que isso quer dizer em dias, meses, ano. Como a assustadora estatística do morador da cidade de São Paulo, que passa mais de 3 meses do ano dentro do carro. 

E tome assunto: BBB é dos mais cotados. Violência, nem se fala. E entre uma violência, um Naldo, uma Anita (coitado de mim, nem conheço a cara dessa moça e acabei de descobrir no google que se escreve Anitta) e um BBB, e outros tantos assuntos de relevância profunda como o box daqui de casa, dá-lhe postagens do quanto somos bonitos, interessantes, viajantes, cozinhantes, amantes, legais, engraçadinhos. 

Afinal de contas, não seria melhor voltar lá e conversar com os nossos pais? E conquistar finalmente a aprovação que nos falta? - ou pelo menos o consolo dela? 

Os Facebooks, os psiquiatras, psicólogos e os políticos estão feitos mesmo. O mercado deles só aumenta. Porque a frustração é melhor abastecida com a possibilidade fantasiada de consumo, seja o consumo que for. Consome-se a esperança de segurança, de bolsa família, de namorado, de fim de crise, de cura, de sanar a depressão que é viver sob a égide da solidão eterna. 

Porque todo mundo, eu já disse isso e repito, só quer um abraço. 

E vivemos com a expectativa de que o filme Ela - absolutamente genial e sintomático - saia das telas e chegue finalmente à vida real. Filosoficamente, uma obra prima. Esteticamente, perfeito. Cinza o céu, cinza o real, maravilhosamente belo, colorido e saturado, o virtual. 

Joaquin Phoenix conduz de forma brilhante a representação do EU. O EU eu, o EU você, o qualquer um EU de nós (ai de nós?) que já nasce marcado no rosto com a imperfeição humana. E que, no espelho de Narciso, tem no bigode uma espécie de Facebook: uma máscara social que no fundo não o torna nem mais bonito, nem mais legal, nem mais cozinheiro, nem mais viajante, nem mais sucesso. O triste é saber que nunca mais vamos deixar de usar bigode. Mesmo sabendo que bigode é tão démodé como creme rinse, dentifrício ou a palavra demodê. Carlos Lyra é quem tava certo: as coisas ditas, quanto mais escritas não se comparam com essa sua cara bonita. 

Triste mesmo é saber que estamos optando pela representação, não pela nossa incomparável e marcada cara bonita.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Para Yulia Lipnitskaya e Beatriz de Castro Maia e Sant'Anna



Clique na imagem.
Por gentileza, assista o link acima antes de ler o texto:


Yulia, somos gratos. Todos.

Posso dizer do seu seu vestido vermelho, significante em consonância com o signo vermelho utilizado por Steven Spielberg em seu filme "A Lista de Schindler".

Posso dizer da música de John Williams enquanto berço, onde nasceram os movimentos de dor, o bailado de redenção, a coreografia de transformação da tragédia.

Posso dizer do filme de Elem Klimov, também da Rússia, "Vá e Veja"(trailer - um dos filmes mais fortes que vi) que retrata belamente a tristeza o que você retratou em dança.

Mas fico pensando se devo. Fico pensando que deve, em algum ponto, existir em seu DNA de menina de 15 anos, um resquício de história, um pilar escondido que é cerne de seu equilíbrio, que lhe faz resiliente a ponto de trabalhar a queda de toda a humanidade com tamanha redenção. Você não viveu os horrores da guerra. Vive, ainda, acredito, seu saldo. Me lembra o menino de 12 anos do filme que, perdido, fica cara a cara com o-que-não-pode-ser. Penso que sua geração e a da minha filha têm esse destino. De fazer limonadas suíças (ou quem sabe russas ou pernambucanas) com nossos tantos limões. De ensinar a paz para quem só vê guerra. De mostrar o bem, não importa a quem. Que, por mais que haja um resquício de dor, toda dor pode transformar-se em amor. Foi o que vi você fazer, milagrosamente na frente de centenas de milhões - imagino.

O que é o ballet no gelo? Não seria isso? Uma pura alegoria da fênix? Como, em terreno inóspito, fazer brotar tão quente movimento? Como voar sobre as águas? Como deslizar, planar, fluir, ventar de modo tão gracioso em tão duro, frio, rígido solo? Que metáfora existencial é essa, que nos chama a migrar do imóvel, do estagnado ao mais perfeito voo? O que pode nos ensinar essa menina de 15 anos e sua coreografia paradoxalmente leve e densa? Yulia, você tem consciência da beleza da sua apresentação? Do que ela pode representar politicamente, da semente que pode ser no jardim da história da humanidade?

Quero crer que sua apresentação seja estudada exemplo nas escolas. Independentemente dos tombos que você teve para chegar até este ponto. Porque esporte, música, ballet, poesia e arte não servem pra nada. A não ser pra nos reafirmar cada vez mais humanos, nos distanciar da bestialidade da guerra e nos vocacionar ao encontro eternamente impossível com os deuses, todos, que habitam sonho em nós, pobres mortais.

A vida pode ser gelo e ballet, Beatriz. Por isso, cabe escolher bem a música, o vestido e a coreografia, minha filha.

Do seu pai que lhe ama.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Desatino de Deus



Quando nascemos, Deus nos coloca no mundo com um destino: descobrir as três músicas que vão fazer parte de nossa vida, que vão contar em versos ou em melodia a nossa história, que irão fazer carnaval com nosso arquétipo, que virão definir nosso Caminho. Três apenas.

Quando nascemos, Deus nos coloca no mundo com um destino: descobrir as três pessoas que vão fazer parte de nossa vida, que vão contar em versos e transformar a nossa história, que irão fazer carnaval em nosso arquétipo, redefinindo Caminhos, colocando-nos à prova ou nos salvando, simplesmente, da total perdição.

Quando nascemos, Deus nos coloca no mundo com um destino: descobrir os três livros que vão ser parte em nossa vida, que traduzem em segredo os versos da nossa história, que são alegoria em prosa e verso do arquétipo que somos, pergaminho do nosso Caminho, testamento, epitáfio.

São três as músicas do meu destino. Três as pessoas do meu Caminho. Três os livros que me revelam em palavras.

Agora falta pouco.

Já descobri duas músicas, as ouvi.
Já conheci duas das três pessoas, as senti.
Já me fiz palavra em dois dos três livros que me contam sonhos.

Impossibiletradamentamalgamado.

Só falta uma a uma a uma. E todo universo particular pode se refazer partículas, átomos, vazios espaços cheios do eu que Deus definiu sozinho, nada multifacetado, picolé de chuchu sem palito, mosquito que ama, choro contido, sétima maior.

O tempo que resta em fatias é saboreado com café quente e amor em pedaços.





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CHUVA








A Chuva está aí.

O que não está, mas pode voltar, 
é a sua capacidade de se maravilhar com ela toda vez que ela vier.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu tinha muito a dizer



  1. Hoje, tentei, sem sucesso, falar com minha filha. 
  2. Ela não quis falar comigo. 
  3. Dizem que criança aprende com o exemplo. 
  4. Só estudei um semestre de lógica no curso de Filosofia. 


Vai aí o que eu gostaria de lhe dizer hoje, Beatriz:

Filha, 

quando você tiver quarenta anos, quais serão suas questões? Será que você já vai ter filhos? Será que terá constituído família? Será que família ainda será uma instituição como nos dias de hoje? Será que a valorização da família vai ser novamente importante? Ou será que não, que não existirá mais tal coisa, será que também a igreja, a crença, a fé, as virtudes terão mudado a tal ponto que não daremos mais valor aos pais, aos filhos, aos irmãos? Será que o conceito de humanidade vai sobrepor o conceito da família, tornando-nos todos partícipes da raça humana de uma maneira fraterna e igualitária? Ou será que nem este conceito será de possível apreensão, dado o caminho que percorremos hoje, quando o individualismo e o consumismo tomam proporções assustadoramente tristes e os desejos individuais sobrepõe os coletivos?

Será que vou estar vivo para responder eu mesmo a esta pergunta? 

Me pergunto se você vai se casar. Me pergunto se terá filhos. Se fará uma opção sexual condizente com sua felicidade plena. Se terá respeito aos mais velhos. Se gostará de crianças, se saberá dar valor ao Bem, ao Bom, ao Belo. Se será ligada em filosofia, em música, se gostará de boa música, ou se só fará a opção pelo que é ditado pelos meios de comunicação e a cultura de massa. Penso se a globalização não vai ter finalmente tornado possível a morte das identidades locais e se a pasteurização cultural não terá feito desse mundo um lugar mais pobre, mais triste, mais óbvio, mais feio. Fico em dúvida se as monoculturas, de forma geral, não tendem a propiciar não só a extinção de espécies vegetais e animais, mas lembro que no fundo, no raso, somos animais, sujeitos às novas bactérias, aos novos vírus. Penso que a diversidade faz com que uma bactéria não mate tudo. Penso que quando formos todos iguais, estaremos mais sujeitos a uma bactéria que ataque nossa espécie única.... mesmo que seja a bactéria do empobrecimento estético, filosófico, artístico e cultural.

Será que estarei vivo comemorando seus quarenta anos, filha? Será que você vai conhecer seu pai? Será que vai reconhecer seu pai?

Hoje, vivemos um tempo onde as pessoas só querem um abraço, filha. Quero que quando você tiver a minha idade, todos se sintam abraçados. Você, eu, todos. Se estivermos no mesmo abraço, melhor. Se não, será como hoje. Hoje, lhe abraço sozinho. Todos os dias, todas as noites. Todas as horas. Para um pai que sabe dos segundos e dos minutos, que tem o infinito tatuado em sua perna direita, a eternidade é um quarto conhecido. Um canto reconhecido.

Não me importa ser eterno, filha. Importa marcar eternamente o meu Caminho nos encontros que fizer, buscando o melhor de mim para ser doado em reflexão, atitudes, palavras, afeto. Porque para o universo, minha filha, um pé de alface e um boi são a mesma coisa. Para o universo, minha filha, seu pai, Fernandinho Beira Mar e o Papa são um só nada. Só posso ser melhor ou diferente, filha, para mim. Nem pra você não posso. Por que o “para você” não depende de mim. Depende de você. Por isso, sigo meus valores, acreditando em meu conceito de verdade e de justiça, de bem, de bom, de belo. Sigo pensando que paz é paz dentro ou fora de uma igreja. Coisa que você não pode aprender agora. Que certo é certo estando em Belo Horizonte ou Recife. E que errado é só uma escolha triste, às vezes sem saber, mas que pode transformar para sempre um Caminho de amor. 

Porque a vida é só a vida, Beatriz. Um nada oceânico com tormentas e calmarias em busca de um farol que nos dê a ilusão de esperança. O que importa mesmo é tentar navegar junto, aproveitando o sol quando vier, a descida de cada onda que fizer cosquinha em nossa barriga, o resquício de sal que fica nos lábios e nos fala do tempero daquilo que não provamos, mas sabemos que está lá.

As espumas das ondas adornam o mar com colares de pérolas fictícios e fugazes. Mas veja, são lindas. 
Há mar, filha. E só.

Do seu pai, que lhe ama em silêncio.