terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Deus, som.



Morreu ontem, do alto de mais de oitenta, bem vividos, tio Adelson.

Tio Adelson, marido de tia Guigui, pai de Anamaria, Adelsin, Élida, Bau, Rachel. Gúia para os amigos, representante alvinegro de peso, tio Adelson era como um paralelo de minha mãe.

Me explico.

Coração bom como poucos, unanimidade afetiva e efetiva, meu tio, que muito me considerava como neto, comia pelas beiradas.

Mineiro de natureza, tinha no jeito carinhoso e paciente escudo e espada. Quem o conhecia de fato sabia que Seu Adelson era homem dos que vieram com "frichilin": sucesso com a mulherada garantido, quem não gosta de um ouvido, uma palavra amiga, um conselho, um ombro, um sorriso? Cativante - aquilo tem mel na lábia! E os olhos?

Bau foi quem pegou seu jeito amaciado de ser. Se fosse um objeto, seria um ursinho de pelúcia.

Mas era meu tio, Adelson. Durante o meu Caminho, rezou pra mim todos os dias, às 18h. Fã de seresta, fã de Orlando Silva, fã do silêncio, gostava de mandar os outros pra Itinga, que lá de Araçuaí, era longe distante. Incomodado com o calor de Belo Horizonte, com o barulho da cidade, com a falta de políticos como os de antigamente, era sempre ele quem se lembrava do que todos haviam se esquecido. Cultura geral impressionante, sabia como ninguém a importância de quem cruza a bola para que outros possam fazer os gols. Isso, aprendi também com ele. Assim, nunca íamos na casa do Tio Adelson, sempre na casa da Tia Guigui...

Ponto de equilíbrio, pilar, esteio, Tio Adelson sempre foi mais que o termômetro. Era ele quem curava a febre. De mansinho. Sabiamente. Sabiámente. Igual passarinho. E como passarinho, também do Vale, avuô.

É isso! Tio Adelson não era avô. Era Avuô.

Ai de minha filha, que não conheceu Tio Adelson.

Ontem, quando entrei no quarto, me postei aos pés da cama e afaguei os pés do corpo dele, pés de quem nem tava mais ali, sintonizei caminhos. O vi rindo na ponte da Itinga, vontade de banhar no Jequitinhonha, depois de cantar loas à inigualável dama de ouro...

E só pra deixar claro, pra quem praticamente tinha a palavra "adeus" no nome, fica o "som" quando o "Adeus" vai embora, o som do silêncio inconfundível de Deus.

Sou grato, tio. Só seu nome já era a sua primeira lição...



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Como conquistar George Clooney






Mandinga de Ano Novo.

Oxalá, meu Pai, pé-de-pato mangalô trêisvêis. Zuncê qué uma mandinga de ano novo pra curar emprego ruim, muié feia, vidinha máomêno, cunhado pentêio, fazê Charlize Theron tocá a campainha, amaciá o coraçãozin distante do George Clooney em seu nome?

Vô Lhajudá. Tô aí pa isso. É simples. Segue o passo-a-passo do véi, que não tem erro:

Comece acordando mais cedo. Se acordava nove, comece acordando às sete. Num fáia. Se acordava oito, comece acordando seis. Reza um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. E fica sentadin, respirando fundo por vinte minutin. Caladin. É batata. Depois toma um banho e vai trabaiá. Ah, importante: chegando no trabaio, começa pelo mais compricado. Todo dia, começa com o mais compricado. E num sisquece de dá bom dia pra todo-mundo-di-seu-Raimundo, cara-boa, abraço, gentileza, ôi-no-ôi. Faz carinho no tempo, pede ajuda, ferece ajuda. Faiz meió que ontem, pede o chefe ûa dica, pede o sistente ûa dica, desce do cavalo da soberba. Dá parabéns, dá as mão, incentiva, acredita. A crê, dita. Traiz o meió docê, busca o meió do otro.

E respira. Sempre. E bebe mais água. Sempre.

Leva frô pa muié. Trata ela bem. Pega parmoçá, troca a lâmpida do banheiro, que tá quemada tem trêis mêis. Pergunta se hoje qué que busque os menino, se qué saí pra jantá. Carece de restaurante caro não, que o de valô né capim, mas ruma uns ingresso sem avisá, leva no firme pra comê pipoca, pipoca é sempre mió que galinha preta. Logia o vestido, repara nunha. Liga pra mãe dela pra sabê como é que tá a véia. Passa lá ûa vez por semana pra levá um pão sovado ô um biscoito. Só aí, já afasta mal oiado de cunhado e falazada de famía.

Faz ûa pipa po minino. Óia ele no ôio. Diz que tá cresceno e que seu futuro é certo e de amô. Fala que tá forte, mais bunito. Diz que pó contá cupai.

Se fô sortêro? Bebe menos. Faiz mais exercício, vai na missa. Nem que seje n’hora vaga, sem ninguém pro perto. Conversa qu’Ele. Para de falá que vai saí c’as moça, liga pra sabê se precisa de arguma coisa, dá atenção, carin. Faz carin. Sorri prélas. Cuida. E se cuida. Lembra que sapecá é bão, mas sê amigo! Num fáia. Pega a lista de telefone, sai do feicebuque, liga e marca de encontrá. Óia no ôio. Num fáia.

Senta num banco de praça e ove os passarin. Num fáia.

Lembra que antes só, qui mau acompanhano. Ove os mais véi. Conversa quês. Sai quês. Trata bem quem te trata bem. E trata bem quem te trata mal. Num fáia. Num se muda papió por causa do otro ruim. Reza. Dá exempro.

Quanto ao Clooney? Faiz primêro o de cima. Dispois vorta pra eu dizê o resto. Quanto a Chalize Theron? Essa pó demorá. Éque cabô de chegá quim casa...

Feliz novocê.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

falamar



preciso falar sobre muitas coisas, sobretudo das que ardem. preciso falar da pontuação, do baile, do vício, do medo, do simples e do complexo, do bem, do bom, do belo, do mau, do caminho e do meu pai. preciso falar da minha mãe. preciso falar da minha filha, da saudade dela, do meu analista que me aguarda voltar, da necessidade de falar e da necessidade de calar. preciso falar a respeito. preciso falar do galo, da madrugada, dos amantes, todos, nenhuns, alguns específicos e nenhum dos que você esperava. preciso falar do amor. preciso falar de amar, do sonho da paz, da paz de sonhar, do sonhador em paz, rapazsonhador. preciso falar baixo, sussurrar, messurrar, meamar. preciso cindir, preciso saber, saberincisivamente sobre o que dizer nossilêncio de nós. preciso falar sobre os pedidos de perdão, sobre as desculpas, sob as desculpas de quem de fora ouve qualquer discurso, fala, palavra. preciso palavra. precisavra. preciso, imprecisamente disso tudo e disse nada, disso nada, disse tudo. é que preciso. é que quando dá a hora da lua e ela vem nos sentidos todos dos mares das células, todo o corpo vira mar e mar é moto, move, muda, muta, mata de amar. há mar. e esse é o fundamento todo, ou quase, do que preciso falar.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ro meu, Juli êta!




Ama quando esconde. Revela só pra si.

Sopra-se.

É vento da alma, sorriso esperança, fé que cura dodói. Limpou os cantinhos da alma, pode mover-se, lubrificada, oleosa clama por um abraço quente. Um de suspiro.

Quer que segure suas mãos, quer que aperte firme suas mãos, olhe em seus olhos, afague só com a existência dos sentidos, contemplação mútua, orvalho do querer. Cursor pulsando na folha em branco.

Entrega desistência, rendição plena, as máscaras venezianas afundam finalmente em seus canais. De lá nunca deveriam ter saído.

O diabo pede pra contar em trovas o sucesso de Shakespeare. Frei Lourenço agora é outro: o veneno do amor é o tempo, senhor do equilíbrio e razão. Que um dia, quando pular da ponte, tenha aprendido finalmente a voar.





sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

QUEM SABE?


Colaboração do Jornalista Nestor Sant'Anna

Quem sabe?

Pois é, gente do nosso tempo. Continuar assim?

Li que o governo brasileiro vem adotando uma política externa de opção 
preferencial por ditaduras caloteiras. No ano passado, Brasília perdoou 
dívidas do Congo, Sudão, Gabão e Guiné Equatorial, países que têm à frente,  há décadas, governantes acusados em tribunais internacionais de crimes de desvio de dinheiro público, enriquecimento ilícito, corrupção, lavagem de dinheiro e genocídio. Importaram do Brasil cerca de R$1,9 bilhão de reais e não pagaram. Por decisão solitária da “presidenta”, cada brasileiro TEVE DE FAZER UMA DOAÇÃO COMPULSÓRIA de R$9,50 a esses líderes africanos de péssima reputação mundial. Está também nas páginas que, com o nosso dinheiro de impostos pagos com trabalho e suor, vai ser reinaugurado em breve o novo porto de Mariel, Cuba, cuja reforma, de 682 milhões de dólares, foi financiada pelo BNDES. 

Isso mesmo... e atenção: não foi financiado com recursos do Banco do Desenvolvimento de Cuba não, minha gente. O autor da proeza foi o nosso Banco do Desenvolvimento Econômico e Social, brasileiro, fomentando a recuperação da infraestrutura portuária da Ilha dos Castro. E a nossa infra, vai bem? 

Mas tem faltado dinheiro para nossas estradas, escolas, para a saúde, os portos e aeroportos e etc. e tal, não é o que todo mundo sabe? Não é o que nossos produtores demandam para escoamento das safras de grãos e produtos variados? Fico imaginando que importar médicos de Cuba custa uma nota preta. Aí aquele jornalista solta o seu bordão: ISTO É UM ABSURDO!!!!!!

Então eu penso que li a maior parte dessas informações em revista declaradamente contra o governo atual; penso que há distorções políticas e ideológicas convenientes, orquestradas e patati patatá. Ainda assim, distanciar tais dados da verdade não pode ser tão gratuito nem totalmente inconseqüente da parte de veículos líderes na imprensa nacional, meu povo. 

Vamos falar sério... E piora se a gente pensar que coisas do tipo, são apenas o rabinho do rato, aquele que Joãozinho e Maria, trancafiados para engorda, apresentavam pelo buraco à bruxa, quando esta pedia para mostrarem os dedos que, se gordinhos, já estariam prontos para ser consumidos como especiaria requintada. O escondido, isso sim, deve estar muito mais gordo, apetitoso, desfrutável. Sei não, mas aí fico pensando no futuro da minha netinha, tão linda, graciosa, inteligente, bem educada, prendada, quase gente grande aos quase três anos. E aos 13, aos 18, aos 23, que tipo de Brasil vai sobrar para ela e seus contemporâneos se a gente não acordar e continuar passivamente conivente com a bandalheira institucionalizada? 

Qual a saída? Só uma: a gente precisa pegar em armas. Não as mesmas que serviram à ditadura militar ou aquelas clandestinas também disparadas pelos atuais “donos do poder”. Não, outras armas, muito mais poderosas, quimicamente letais, produzidas nos laboratórios das palavras, dos diálogos, da educação, da inteligência, dos votos, das responsabilidades cidadãs, da arte e da cultura, do espírito franciscano, da consciência livre do massacre da propaganda oficial. E por falar nele, que tal a transposição do São Francisco? O Rio está morrendo à míngua, sem tolerar o quanto já o maltratam e exploram. Como são maltratados e explorados os ribeirinhos que passam sede e fome a poucos quilômetros à direita e à esquerda, nas suas margens. Inventaram, ou melhor, inventou, o antecessor da dona, também em solitária arbitrariedade, não obstante todas as opiniões técnicas que comprovaram sua inviabilidade, inclusive as do BID, do Banco Mundial, outras, forçar o doente a doar sangue antes de sua recuperação, como bem disse o cidadão Luis Flávio Cappio, com um Dom incorporado no bispado de Barra - BA. “O resultado todos conhecemos: uma obra sem fim, que deve ter destino equivalente ao da Transamazônica dos militares”. Canais que nos custarão o olho da cara, o leite de muitas crianças, o atendimento de muitos enfermos, a educação de milhares de vítimas que se contentariam felizes com a rapa do tacho, inicialmente orçado em qualquer coisa perto dos 6 bilhões. 

O custo final? Acompanhemos, se final houver e choremos, como Drummond, as ÁGUAS E MÁGOAS DO RIO SÃO FRANCISCO.

NS

Enquanto isso, o Brasil comemora a chegada do ano da copa.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

The lone ranger




2014, página em branco.

A se definir. A se escrever. A ser deixada em branco. A ser lida daqui há alguns anos.

2014, página em branco.

Meus dedos correm o teclado e não escolhem nada inusitado. Talvez queiram dizer que o ano do cavalo vai ser assim. Trote. Casco na terra, clop clop clop clop. Como um tic tac de um relógio. Um mantra do tempo. Um ano com copa, com eleições importantes, com inflação em alta, insegurança no mercado, restrição financeira. "Cavalo dado não se olha os dentes", diz a sabedoria popular.

Não queremos que nosso cavalo precise de dentista.

Queremos nosso cavalo relinchando, galopando, crina ao vento. Corcel, se possível. Puro sangue, de preferência. Cavalo de banho tomado, escovado, que brilha luz da lua, pasto verdinho, menina de vestido e laço no cabelo pendurada na cancela.

Cavalo força, cavalo trabalho, cavalo fidelidade. Encontrei o imperativo do verbo ir no meu cavalo.

Vou com ele. E não vou montado. Vou lado a lado do cavalo ano, carinho na testa dele, torrão de açúcar pro afago, coçada na barba do queixo. Tapa firme no pescoço, estalo de 3 beijos pra chamar:

– Vamos juntos, caro amigo, cavalando. Bora nessa Cruzada.

Que seja Bom, no Bem, que seja Belo. E que seu cavalo abaixe a cabeça quando lhe ver finalmente, em sinal de respeito e amizade. Um cavalo é uma boa companhia em qualquer Caminho.