terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dicionámar


Sem letras, não encontro um jeito de encontrar palavras. 
No silêncio profundo, as frases não encontram pouso. 
Me destextifico em lógicas vazias de significados. 
Eu significante mudo: 
de casa, de corpo, de sonhos, de hábitos.
Coisificar a existência é a fuga dos ignorantes obtusos ou medrosos.
Enquanto isso, a socialização do estar conjuga os modos do ser.

***

No vídeo, um breve lembrete pra quem acha que alguns dias por ano com um filho são o bastante.


Parabéns aos amigos que participaram do vídeo. E mais ainda aos que podem compartilhá-lo.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Às vezes






Quanto vale o Amor?

Às vezes, ouço essa música. Às vezes, não. Às vezes, reflito sobre isso. Às vezes, não. Às vezes, canto, às vezes, praça, às vezes, mato, às vezes, caça, às vezes, brinco de esconder. Às vezes, não há esconderijo que me perca.

"Nem sei se gosto mais de mim ou de você" é uma contundente frase de valor atemporal. É um quadro torto na parede, a memória da pele, o sussurro do travesseiro, o escuro do teto, o verso do John. 

Lennon está certo: Life is what happens to you while you're busy making other plans.

While I'm busy, I barely hear. Parce que la vie est beaucoup plus simple en théorie. O no. 

O valor estésico da palavra só transcende a língua quando ela não está colada na pele do outro. 

Nem sempre.




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Papai



O sentido do mundo cabe em uma palavra, dita em voz alta.

–Papai.

Ela, em si, não traz o sentido do mundo. Ela o revela. São dois tapas no rosto e um ai, entregue. Faço uma reverência, para que minha filha me coroe. Pinto, bordo, pulo, imito macaco, quero a todo custo seu amor que já é meu. Quero ganhar o prêmio em morte do pai vivo mais pai do mundo. Vou fundo. Me desdobro, me multiplico, e vou morrer na praia, frente a frente com a vastidão do há mar. Deitado, braços abertos, rosto na areia, sinto o perfume inconfundível trazido com o vento. É Pai, chão. A espuma das ondas trazem o gosto do sal. É pista do tempero do amor, escondido nas profundezas, onde não se pode ir. Nada. É preciso respirar debaixo d’água. Lá, aqui, somente, quando semente e cruzar finalmente a linha fininha de mel do infinito.

Sou grato, meu Deus, pela água que corre em mim.



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lagoo




O silêncio tomou conta de mim
choro, cordas, acorde
entoo lamento
lagoo
me liquefaço enquanto sempre
pedras do rio
bamboo que atravessa
torce, range, folheia
chia e torce, navalhas

O silêncio tomou conta de mim
tomou café
derramou,
escorreu pelas fendas das cicatrizes

Eu sei que você está lendo isso agora
e quero dizer que silêncio
tomou conta de mim
gritava por socorro, gritava por perdão,
gritava pela pele pelada do não
nunca mais

O silêncio tomou conta do bem
O silêncio domou o querer
O silêncio castrou o dever
O silêncio silenciou o amor
O silêncio é o rugido da dor

De manhã, Diamantina
De tarde, enternecido
De noite, noivo
Na madrugada, sequer de vestido

Porque o silêncio tomou conta de mim
Silêncio bordão, silêncio perda
silêncio pé de moleque, sou eu descalço nas ruas coloniais do destino
eu menino,
atravesso
Entraves
Quando
Desatino

O matemático do amor resolve com números quânticos a equação da saudade







sábado, 11 de outubro de 2014

dó-ré-mi-fada



Dorme fada,
sonha fado.
Traduz, mágica varinha: fé e exaltação.
Encanta em seu cantinho, entoa em seu mundinho o drama inevitável.
– Perdão.
É sabida do amor. Saborosa, flor.
Fomos pegos!, somos cegos...
Seu gosto perfume inebria e envolve. Brincante, dormita e desperta.
Fadices.
Olho com olhos melados de paterna idade.
É o amor que escorre em minhas bochechas.
É o amor que escolhe as minhas queixas.
Quentumes.
Vejo os vaga-lumes que chegam com a nossa noite. Revoam em volta da fada.
Povoam minha morada, acendem meu lugar no mundo.
Sou fundo.
E de lá de dentro, grito seu nome, do escuro de mim.
Ecoam sentimentos, súplicas.
Bailam em espiral com os vaga-lumes encantados.
Você: sonho.
Você: banho.
Você, sempre, eu no colo da eternidade.






segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Surpresa



Trabalhando.

Ando três quarteirões até o restaurante onde almoço.

Quando estava a três passos do restaurante, me deparo com uma amiga, grávida de sete meses, hospedada no mesmo local.

Ela carrega compras.
–Deixa eu lhe ajudar.
Eu disse.

–Mas você não vai almoçar aqui? Você vai voltar lá e levar as compras pra mim?
–Sim, qual o problema?
–Só acho que você vai fazer papel de bobo.
–“Papel de bobo”?!? (Eis o título do post)
–Sim. Não preciso que você volte três quarteirões. Eu estou grávida de sete meses, não estou doente.
–Eu sei que você não está doente. Está grávida. Não achei que isso seria “papel de bobo”. Achei que seria uma delicadeza.
–Então tá: se você quiser andar nesse sol, carregando essa sacola pesada pra mim, por três quarteirões, pra depois voltar pra esse mesmo lugar, fique à vontade...

Fui.

Chegando:
–Vem cá, deixa eu lhe agradecer! (querendo me dar um abraço)
–Não precisa, não fiz nada demais. Só estava fazendo o meu “papel de bobo”.

Caminhando de volta ao restaurante, fiquei pensando, ainda surpreso:
estamos mesmo fodidos.

Sim. Desculpem a expressão. Mas não consegui pensar em outra.

Mulher, artista, amiga, grávida de sete meses, dez quilos mais pesada por causa do neném, três idiomas, formada, pós graduada, visão crítica de mundo, enfim... tudo me leva a crer que o julgamento dela para este dado momento seria o de uma pessoa sensível. Eis o meu “julgamento”. O meu “pré-conceito”...

No entanto, se mesmo para essa pessoa próxima, com essas características, a leitura de uma delicadeza seria o mesmo que “fazer papel de bobo”, aonde vamos parar?

De volta ao restaurante, não conseguia parar de pensar que no país onde se celebra a “esperteza”, educação, cidadania, delicadeza, compreensão, afeto, carinho, cuidado, são sinônimos de “papel de bobo”.

Sabe? Aprendi com minha mãe e com meu pai a fazer papel de bobo. Lá em casa, todo mundo é bobo. Começa pelos meus avós, passando por meus pais, a maioria dos tios e primos... Lá em casa, então, todo mundo é muito bobo.

Quero um país onde as pessoas façam papel de bobas. Mais do que isso: quero um país onde todos sejam bobos. Porque não consigo me surpreender com a bobeira. É a esperteza que me surpreende.

Parece, para esta amiga grávida, que em breve estará dando a luz, cuidando e educando o seu neném, que “esperteza” mesmo seria eu andar menos seis quarteirões ao sol, me sentar tranquilamente no restaurante, enquanto a grávida de sete meses e dez quilos a mais, carrega duas sacola de mais quatro ou cinco quilos e perde a oportunidade de ganhar um afago.

Qual será o peso da minha sacola?







sábado, 20 de setembro de 2014

No Lago Negro sonhando com minha neta



Com pai, chão.
É o que sinto. É o que sei.
Ninguém que lê sabe mesmo por onde andei.
Senti Caminhos. Sobrevivi. Mesmamente.
O onde virou quando, o ontem se eternizou. Nas águas do Lago Negro, profundezas.
Sento-me à sua margem. Olho de soslaio a foto que me deságua. É bica. É pranto.
As marolas do desejo vem cá fazer margem. A grama não molha. O céu que emoldura a foto está impresso na superfície das águas. Às vezes, vemos. Às vezes, não vemos. É o Vento que fustiga a compreensão da gente. Mas está lá, escondido no movimento silente das parábolas líquidas.
Áquo-me enquanto percebo a presença gárcica do meu pai.
Ele espera imóvel a chegada de sua neta, enquanto observa o céu das águas. Calmo.
Calma alma ama. E respira.
Nada.

E o Vento não tarda a nos surpreender.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Telescópio




Minha irmã, Gabriela, me fez um carinho difícil de colocar em palavras. Tento.

Minha filha mora há 2.222km da minha casa. Lá, foi onde passou o dia dos pais. Gabriela pediu à mãe dela que gravasse: fala pra tia Biba o que você quer que ela compre pro papai de presente de dia dos pais.

– Tia Biba, eu quero que você compre um telescópio pra papai!

Disse ela, com apenas três anos e meio.

Me espanto.

Esse pedido é cheio de proximidade. Esse pedido é cheio de referências muito minhas que talvez ninguém ainda saiba. Quando eu tinha cerca de 10 anos de idade, Beto Bomfim, meu amigão – amigo do meu pai que me adotou como uma espécie de afilhado – me deu de presente uns binóculos. E isso marcou pra sempre a minha infância.

Me marcou porque não pedi isso a ele. Me marcou porque, já naquela idade, intuí todo o simbolismo referente a um presente como esse... Me marcou porque foi meu amigo querido que morreu ferido com carvão em brasa pela palavra sexo, pela palavra amor, pela palavra liberdade, pela palavra dor.

Eu, menino, queria olhar nos meus binóculos e ver o lá, na frente, onde amorte já não estava, quente, pergunta sem resposta, distâncias.

Foi quando entendi que a única coisa capaz de vencer a morte seria mesmo o AMOR.

Quase 30 anos depois, nasceu a minha filha. E eu ainda lembrando da música de Cláudio Nucci, que diz:

“Velho companheiro/ que saudades de você/ onde está você/ choro nesse canto a sua ausência/ seu silêncio/ e a distância que se fez tão grande/ e levou você de vez/ daqui/
Velho companheiro/ algo em mim também morreu/ desapareceu/ junto com você/ e hoje esse meu peito/ mutilado/ bate assim, descompassado/ que saudades de você”...


Minha filha, distânsias. Minha filha: proxintimidades únicas.

Penso telescópio, presente que ganhei. Penso no lá, no outro tempo onde, no que a minha filha quer que eu veja. Einstein tem mesmo razão. Descubro que o sempre agora é presente cheio dela. Onde aqui realizo, no quando compreendo, finalmente, que amor não tem fronteiras. Porque não há tempo, espaço, distância, medo ou morte, que impeça o invisível. Que pra olhar o invisível, basta olhar no telescópio mágico da minha filha, que faz ver, faz crer, esperança de óculos.

Já brinquei várias vezes com minha filha, via FaceTime, com uma lupa. Com ela, amplifico meu sorriso presente. Meu olhar presente. Meu olfato, nariz presente. Com ela faço meu beijão, faço uma piscadela sem tamanho, faço-me mais um tiquinho em busca do seu olhar de amor.

E mesmo quando dói muito quando ela não quer conversar comigo, saber que ela dorme com um pedacinho meu me cala o peito. Há crianças que dormem com bichinhos de pelúcia. Minha filha dorme segurando uma lupa.

Quando sonhamos, revelamos os detalhes escondidos, amplificados na simplicidade ubíqua de sermos um, sendo completamente dois.

Meu amor: lente ao sol, filha.



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O dia do voto



Voto. Nunca consegui ouvir ou ler essa palavra como um substantivo. Sempre ouço ou leio como um verbo. E na primeira pessoa do singular.

A singularidade do voto é interessantemente bela. Porque nos fala da inserção social. Porque nos lembra da beleza de um grão de areia. Porque dignifica a gota no oceano.

Não há como eu pensar essa imagem e não me lembrar de um filminho manjado, se eu não me engano da década de oitenta, do rapaz jogando as estrelas do mar que estavam na praia de volta no oceano. E quando perguntado:

– São milhares!, você acha que jogando de uma em uma vai fazer a diferença?

E o rapaz responde:

– Fiz a diferença pra cada uma delas que joguei de volta...

É mais ou menos isso... É que no caso do voto, cada um de nós é a estrela do mar. E não há ninguém que nos jogue pro oceano. Depende de cada um de nós, pro oceano ficar estrelado...

Você já viu como um só grão de areia é lindo? Não temos a dimensão de um, até o separarmos do resto na ponta do indicador. E verificarmos sua característica por vezes translúcida, brilhante, por vezes cristalina, vítrea...

Um ponto do todo. O todo num ponto. A dimensão de completude de um só grão de areia é pouco percebido. Mas experimente tirar os grãos de areia de uma praia.

Talvez por isso, há de se refletir o que significa o “voto útil”. “Ir com a boiada” é bem diferente de fazer o seu papel enquanto grão de areia. “Ir com a boiada” significa alguém escolher por você. E, nesse caso, tomara que você não seja “boi de piranha”... Porque aí é como se você fosse a estrela do mar que não decide se vai pular pro oceano ou ser jogada pro meio do mato.

Quando você vota nulo ou em branco, você simplesmente deixa que outros escolham por você. Quando você decide, você abre as portas pra dimensão mágica de ser praia sendo um só grão de areia. Quando você decide, você é capaz de deixar o oceano estrelado.

Quando temos a sensação de pertencimento podemos ser parte, fazer parte e modificar, se quisermos, o todo. Assim, pense bem. Deixe o voto substantivo e conjugue o verbo votar na pessoa mais importante: a primeira, singular.



terça-feira, 9 de setembro de 2014

Código Morse



Morro de amores.

Montanha, mesmo.

Talvez cadeia. Cumes. Picos.

Amar não tem sido um verbo muito conjugado.

Talvez amar venha sendo conjulgado.

Réus algozes, tribuna de todos, juízes facebookiânus que jogam pimenta refresco.

As mazelas da convivência digital. O desrespeito social. O limite, quando virtual, deixa de ser físico, palpável, táctil. Con-fundem-se liberdades. Con-fundem-se fronteiras.

O romantismo do Rouba-bandeira mora na infância. Lá, sentidos.

Fui postar um coração numa foto. O carinho dos meus dedos na tecla nunca se fizeram sentidos. O toque nos cabelos da menina não exalaram perfume. Os beijos no rosto não molharam o tempo. A banalização do afeto diminui o significado do encontro.

E, triste, escrevo no blog: "morro de amores".



*imagem: mantiqueirista.blogspot.com

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Quem quer mudar o nome da Branca de Neve levanta a mão.

Acho que a gremista Patrícia Moreira merece perdão. Acho que seu erro deve ser punido.

Há muito é necessário perdoar. É preciso que aprendamos o perdão, de forma definitiva e absoluta. Todos nós merecemos perdão. "Quem nunca pecou, que jogue a primeira pedra" - disse o primeiro filósofo a ir às últimas consequências com esta ideia revolucionária.

A verdade é que pecamos, todos. E nem sempre por mal. Ninguém aqui está fazendo apologia ao erro. Ninguém aqui está fazendo apologia ao preconceito, ninguém aqui está fazendo apologia ao esquecimento.

Não: perdoar é muito diferente de esquecer. Coisas distintas. Perdoa-se. O que não quer dizer que se esquece. Não necessariamente.

Já perdoei. Muito esqueci. Mas não tudo. Lembrar o erro, tanto o seu quanto o dos outros, é importante para que ele não se repita. O presidente do Grêmio está certo: se esse episódio servir pra abolir definitivamente esse tipo de atitude nos estádios, o Grêmio terá cumprido um papel histórico importante. Sem dúvida, muito mais importante que qualquer título. Sim, acho que o Grêmio deve ser punido por causa dos seus torcedores. Acho que Patrícia deve também ser punida por causa da bobagem que fez, mesmo que tenha sido no impulso. Triste impulso. Triste do ser humano, que se deixa levar por tristes impulsos. Também.

Sinto compaixão por Patrícia, a moça de 23 anos que se deixou levar pela massa - que teoricamente é destituída de crítica, de juízo. Quando se está em situação de massa, se todos começam a correr pra um lado, você, no meio, pode  acabar correndo também. Teoricamente, é o que justificaria as brigas de torcidas. Acontece que a máxima procede: "isso explica, mas não justifica."

Não dá pra mandar copo de cerveja ou de xixi na torcida adversária, "porque todo mundo está mandando". Não dá pra partir pra porrada, "porque todo mundo" está brigando. Não dá pra se deixar levar pela violência, "porque todo mundo" está deixando. Isso é inadmissível. E precisa de punição. 

Pode parecer um contra-senso. Mas acho que tanto ela deve ser punida, como ela deve ser perdoada. Não. Não conheço a moça. Não sei se ela cometeu esse erro de sacanagem, ou se o fez por fraqueza. Só posso sentar no meu rabo de macaco e falar por mim: sei o tanto que errei querendo acertar. Sei o quanto pequei sem ter tido a reflexão prévia necessária do que meu erro representaria. Infelizmente, imagino que ainda vou errar muito, como imagino que vai errar a gremista Patrícia. Tenho pena da nossa sociedade, onde a intolerância é ainda maior do que as várias formas de preconceito. Por isso, precisamos primeiro aprender o perdão. Sou atleticano, meu time é o Galo. Estou farto de saber que a máxima da relação entre os atleticanos e cruzeirenses é chamá-los de "Viados", "Marias", "Bichonas", enfim. Por mais que eu possa separar as coisas na minha cabeça e justificar a mim mesmo que uma coisa é uma provocação idiota e sem qualquer sentido e outra é o que acredito, esse é um erro constante da minha torcida. Que precisa ser abolido. 

Sabe, eu já estou farto de viver em um mundo que inventou o "politicamente correto". Acho o termo "afro-descendente" uma babaquice. Acho o termo "melhor idade" leviano e preconceituoso. Adoro chamar minha filha de macaquinha e dizer que ela tem pé de macaco. E só eu sei o que isso representa. Acho que tem gente que parece macaco, gente que parece hipopótamo, gente que parece sapo, gente que parece lagartixa, gente que parece girafa e por aí vai. E não necessariamente isso pode ou deve ser visto como preconceito. Há contextos que definem situações, acredito. Eu cresci vendo Os Trapalhões. E via uma inocência na sacanagem que era ali explícita. Hoje, algumas "piadinhas" do pessoal da Porta dos Fundos, sinceramente, me agridem. Não sei até que ponto o limite pode ser sem limite, mesmo no humor, mesmo na pseudo-denúncia travestida de piada... Não sei... talvez a gente precise primeiro entender que o ser humano é só humano. E erra. Não é "filho da puta" quem se esqueceu de dar seta. Não precisamos julgá-lo "filho da puta" e correr lá pra fechar, mandar pra "putaquiopariu", nem à "merda". Vai ver que ele estava pensando nos netos que não vê há muito tempo. Vai ver que foi demitido. Vai ver que está com alguém com uma doença grave em casa, vai ver que... enfim...

A intolerância, sim, deve ser a primeira coisa a ser combatida - acredito. Precisamos dar as mãos. Mesmo - e talvez principalmente - a quem errou. 

Ninguém se reduz somente ao seu erro. Patrícia Moreira, a gremista, é muito mais que um grito infeliz. Ataquemos os erros. Não as pessoas. Acabemos com os erros. Não com as pessoas.

Tem um ditado, se não me engano sueco, que diz: 

"Procure me amar quando eu menos merecer. É quando eu mais preciso."

Acho que é bem por aí.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Volta



Dorme silêncio. Vou-te escuta.
Sigo presença, falta medida, encanto esperança.
Dança.
A flauta do meu Amor soa apito de navio.
Canta distâncias. Desbrava mares.
Ondas de querer que me atormentam saudade.
No voal da janela, o Vento brinca baile. 
Sopra cama. Inspira sonho. 
O caracol do cabelo enlaça o dedo do Vento.
Sou sentimento, sou, sem ti, mentira do momento.
Sou infante, infame. Mas sigo. 
Inflame. 
Quando crepitarem as estrelinhas da nossa fogueira, 
pai chão,
o terreno por onde andarmos vai deixar de existir.
E seremos no colo do Vento. 
Estaremos, mãos dadas com o Tempo.
Encantados, nosso mútuo peito travesseiro.





sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dia dos Pais

Não quero quebrar o voto de silêncio em nome da PAZ. Acredito que este post tenha tudo a ver e, só por isso, escrevo essas linhas:



Mais um dia dos pais que vou passar com a minha filha do jeito mais perto que existe: DENTRO. 

Nesse dia dos pais, quero lembrar a todos os pais e todos os filhos que AMOR não tem fronteira. Nem distância. 




sexta-feira, 25 de julho de 2014

VOTO DE SILÊNCIO



A partir de hoje e durante o mês de agosto de 2014, o blog fará um voto de silêncio em nome da PAZ

Se você puder, compartilhe uma foto como esta com seus amigos e conhecidos.

Se você acreditar, isso pode fazer a diferença.

O Caminho da PAZ é sempre o melhor caminho.

Basta de "Cultura da não-violência", isso não nos leva a lugar algum.

Diga SIM à Cultura da PAZ.
Diga SIM à Cultura do AMOR.
Diga SIM à Cultura do PERDÃO.
Diga SIM à Cultura do AFETO.
Diga SIM à Cultura do CARINHO.

Nada é mais importante do que a VIDA em AMOR.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Rubem Alves, Berenice Menegale e o meu relógio do Mickey



Vago espaço no Tempo: sou eu a observar o Sempre. 

Tempo amigo, tempo perigo, tempo abismo inexorável. Tempo jardim. Busquei um tempo pra mim. E me tornei seu amante.

Ontem, recebi de presente do tempo um espaço: estive com a querida Berenice Menegale no sítio, em São Sebastião das Águas Claras. Queria poder chamá-la de Mestre. Mas seria injusto com ela. Assim, ouso chamá-la, simplesmente, de "querida" e "exemplo". Ela é exemplo pra mim e pra tanta tanta gente... 

Sentei-me no sofá, atrás do piano. E ela disse ao meu pai:

–Nestor, vou começar com uma que você gosta. E começou a fazer carinho no piano.

Então, eu pensei na paz. No amor profundo. Na saudade que tenho do abraço apertado e longo que nunca dei em Rubem Alves e no carinho que ele já fez em mim, tantas vezes, com todas aquelas palavras: espaço no tempo. O rosto do Sempre. 

E enquanto Berenice fazia carinho no piano, ele solfejava, agradecido.

A medida que as lágrimas iam transformando, pouco a pouco, o meu olhar, se revelava a menininha da foto da matéria que li na Revista Ecológico, com o título: "Dois Olhos Profundamente Azuis". E os meus olhos eram novamantemente os de Rubem. E vi no tempo a velha beleza. A fusão da beleza do broto que rompe a semente, com a do velho tronco de árvore, marcado pelo sabor das tantas estações. 

As mãos de Berenice eram as dessa árvore velhamenina que balançavam suavemente ao sabor do vento soprado pelo piano, que solfejava em êxtase e agradecimento Clair de Lune, de Debussy.

Me vi do meu tamanho. E agradeci a Deus por estar vivo e ser só um tatu bolinha nesse imenso jardim. 

Na segunda gaveta do meu escritório tem um velho relógio de menino do Mickey. Um que os bracinhos marcam as horas. Resolvi nunca mais colocar bateria nesse relógio. No tempo do sempre, o Mickey permanece de braços abertos enquanto eu abraço Rubem e me sento aos pés do piano agradecido de Berenice.




segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pare, olhe, escute


Encontrei essa foto compartilhada pelo querido amigo meu e das letras e dos sonhos, Fernando Fabbrini. Ela veio a calhar. Na verdade, encaixou como dedo no nariz.

Estou farto. E não é de comida. Os Titãs é que estavam certos. A gente não quer só comida. Ouvi a discussão de um casal e isso me deixou intrigado. 

Ela: – Porque eu sei que você já teve um relacionamento com A, B e C. Eu pesquisei (no google, claro) e descobri que fulana, beltrana e cicrana blablablá, ticotico, nheconheco. 

Aliás, acho que ela falava mais do nheconheco.

Ele: – (       ).

Fiquei pensando: sou antigo. Eu era do tempo em que essa pesquisa era feita no tête-à-tête, na pergunta e resposta, no olho no olho. A verdade era verificada na palavra. Mas não na palavra escrita na tela do computador por sei-lá-quem. Porque o olho no olho importava mais. Porque o olho no olho tinha mais valor.

Talvez você já tenha presenciado a seguinte situação: uma pessoa quer lembrar algum nome em uma mesa de boteco. Ou uma pessoa tem dúvida sobre algum dado. Do tipo: qual é mesmo a capital do Nepal? OK, você pode não ter pestanejado sobre "Katmandu". Mas se alguém na mesa tivesse dúvida, ao invés de confiar na palavra do outro, sua atitude imediata seria conferir no google.

O google nos tira a credibilidade? O google nos tira as certezas? O google nos tira a informação precisa? Ou vai acabar por nos tirar a cultura? A sabedoria? A ponderação?

Qual o tempo da incerteza? Por quanto tempo aguentamos ficar ignorantes? Será mesmo que a resposta com a profundidade de um box de banheiro nos redime e nos tira da escuridão? Ou será que confiar na palavra do outro, aprender com o semelhante, aprender a ouvir está mesmo fora de uso?

Onde vai parar a sabedoria dos griôs? Onde vai parar o conselho dos mais velhos? Onde vai parar a palavra do pai, da mãe, do irmão mais velho? Ou... onde vamos parar? O mundo muda, é verdade. E a dinâmica do mundo depende de toda mudança, de todo movimento. Sabiamente, imagino que tenhamos que ouvir os índios norte-americanos. Que de tanto em tanto paravam as caravanas. Questionados pelo homem-branco, respondiam: temos que parar um pouco e esperar. Andamos muito. Paramos para que nossas almas nos alcancem.

Acho que eles têm razão. Nossa alma está mesmo ficando pra trás. Talvez, por isso, eu tenha decidido andar bem mais do que correr.






quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sagarana



Na Revista Sagarana deste mês, você confere uma matéria sobre um ano da minha peregrinação que uniu o Caminho de São Francisco de Assis ao Caminho de Santiago. Saindo do Vaticano, percorri mais de 2.500km rumo a Santiago de Compostela cruzando 3 países por três longos meses. 

Agradecimentos a Cezar Félix, editor da Revista Sagarana, Rachel Murta e Élida Murta, revisoras talentosas, aos hospitaleiros Acácio e Orietta e a todos que fizeram parte dessa cruzada. Em breve, notícias sobre o livro que será lançado.

Bom Caminho!





segunda-feira, 7 de julho de 2014

É tão lindo



Reflexo poético da existência, a essência, minha infância, amor esférico em expansão, o coração da minha filha, a saudade da minha avó, meu tempo no mundo, o que tenho a dizer, minha vontade de ser, meu estar, os cílios de Beatriz, o sopro divino, a inspiração, a verdade tangível, o sumo da vida, a paixão recolhida, o desejo do pai, umbigo do universo, o motivo do verso, a explosão, átimo sutil, verso escondido da bíblia, coma musical, viagem astral, sonho, autógrafo do vento, o sentimento humano, a lambida da fera, exemplo divino, toque do sino, amor de menino, o mistério da fé, o tudo, nonada, bolha de sabão.

Quando sou sopro, inspiro. Quando ar, voo. Quando Deus, vento. E minha filha a me encantar em arrebatamento.




terça-feira, 24 de junho de 2014

Dica de Mochila

foto: Ana Carrapicho

Dia 30 de junho, segunda-feira, faz um ano, exatamente, que cheguei a Santiago de Compostela depois de minha peregrinação de mais de 2.500km a pé.

É preciso me ditar sobre isso. E é o que farei nos próximos dias, até o dia 01 de julho, dia do meu aniversério. Sério mesmo.

Curiosamente, pra quem não está habituado com as coisas relativas ao Caminho, recebi um convite do César Félix, editor da deliciosa Revista Sagarana para fazer um artigo sobre a minha peregrinação. E adivinhe que dia a revista fica pronta e sai para as bancas? Sim, dia 30 de junho...

Eu poderia postar alguma foto aqui sobre o Caminho, dizer algo sobre minha peregrinação, sobre a minha odisséia pessoal, mas está sendo redigido no tempo certo, no tempo do passo, letra a letra, até completar os dois mil e quinhentos tantos de palavras, de parágrafos, de capítulos ou do que quer que seja... Porque o Caminho é assim. Decidi, portanto, postar essa foto, tirada neste final de semana, com meus dois irmãos mais novos, que traz estampado o que encontrei no Caminho e que é difícil explicar em palavras: Amor Verdadeiro. Amor sem cobrança. Amor sem ciúmes. Amor sem maldade. Amor gratuito. Amor fraterno.

Porque esse é o amor de quem escolhe um irmão por afinidade. Eu tenho esses dois. E vou carregá-los pro resto da vida. Não importa quantos passos eu dê. Não importa a jornada. Não importa o terreno, o clima, o rumo, nada.

A melhor mochila que existe é o coração.

Aguardem pela revista Sagarana. Vai ser um bom petisco pra quem quer esperar o livro que vem por aí... Na revista, em primeira mão, seu título.


Eu pensando você




Me acalmando.
Me acalma.
Me acalmaria.
Me acalmario.
Me acalmar.
Me acalmo.
Clamo calmo acalanto alma.
Canto calma cala fala.
Silêncio que me escuta.

E o mar, muitas vezes.






terça-feira, 17 de junho de 2014

Setenta anos





Devo falar sobre escolhas.

Escolho falar do pai? Escolho falar do avô?

Falar sobre o pai da gente é sempre delicado.

Vovô Toi pra minha filha, amigo pra maioria. Pai, pra mim. Posso falar do Seu Nestor, que dá aula de música para os filhos dos caseiros da região de macacos. Posso falar do Nestor Sant’Anna, profissional de comunicação, chefe de cerimonial de mais de um governo, do secretário de ministro, do presidente do Palácio das Artes ou da Rádio Inconfidência, do gerente de relações institucionais da Fiat do Brasil ou do chefe de comunicação da Acesita, da MBR, do profissional que cuida da comunicação da Vallée há mais de 20 anos ou do conselheiro da Secretaria Estadual de Cultura. Posso falar do ex-presidente do Kairoz, entidade filantrópica de São Sebastião das Águas Claras. E posso falar do músico. Do pianista. Do acordeonista. Do que defende o músico mineiro. Do que ama a música acima de tudo, do que deu oportunidade para tanta tanta tanta gente.

Pra gente que não tinha nome e agora tem. Pra gente que tinha nome e estava esquecido. Pra gente de talento que não tem e nunca vai ter nome. Posso falar do profissional de palavra, que vende a própria casa pra pagar produção artística. Posso falar do exemplo. Do caçula de 15 filhos de Dona Fifide.

Posso falar de tanta coisa e posso falar de nada. Posso só me sentar e ouvi-lo tocando com uma foto da minha filha em cima do piano. Posso falar do que carrega água no balaio. Do bom de texto e do cabeça dura. Do osso duro de roer. Do maluco. Do resiliente e do resistente. Do sobrevivente. De quem eu puxei pra não desistir de caminhar mais de 2.500 km. - e de quem eu puxei, pra ter e manter essa ideia de jerico.

Mas escolho não falar de nenhum desses. Vou falar de um que ninguém conhece. Só eu, minha mãe e minha irmã. Um que sábado de manhã colocava o long play Um Banda Um, de Gilberto Gil, a toda altura e convidava a gente pra dançar pelado na sala. Um que acordava a gente criança entrando no quarto escuro, sentando na cama e esfregando as nossas costas. Um que uma única vez montou uma pipa comigo em Brasília e que fez toda a diferença. Um que viajava tanto, que eu apontava pra qualquer avião que passava e dava tchau: – Ó o papai!!! Um que ouvia música clássica em fita K7 no carro, enquanto viajava dirigindo de luvas. Um que viajou comigo sozinho pra Ilhéus e que lá me levou no meu primeiro boteco, pra brindar com os amigos. Um que amava decorar a casa. Que colocava os quadros na parede. Que escolhia os objetos de decoração, porque Casa. Pois Lar. Um que minha mãe me ensinou a amar.

Meu pai completa 70 anos hoje, dia 17 de junho.


70 anos atemporais que valeram o adjetivo de SEMPRE. Dele e de muitas vidas. Inclusive da minha. Sou grato, Pai.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Para Fred, Neymar Jr, Thiago Silva e a quem mais servir.


Ontem foi um dia de extrema alegria e de muita tristeza.

Saí às ruas cedo. E meu entusiasmo foi pleno. Ver ondas de carros com a bandeira do meu país é algo que me comove, no sentido mais amplo. Crianças com a blusa da seleção, vocês me representam. Porque acho bonito, porque acho maior, porque tenho em meus conceitos alguns paradigmas relacionados à beleza da construção da identidade ligada à polis, ao senso de comunidade, à comunhão social. Assim, quando vejo as pessoas dispostas a torcer e se manifestar por um mesmo tema, seja ele ideal ou não, acho bonito. Acho bacana. Pra mim, é um significante da seguinte ordem: "se podemos torcer juntos, podemos mudar juntos".

Sei que, historicamente, é mais fácil nos manifestarmos conjuntamente para a festa do que para a mudança. Do que para a disposição social e política relacionada aos direitos e deveres do cidadão. No entanto, somos jovens. O país é jovem. E se emancipa aos poucos. Acredito mesmo nisso.

Acontece que precisamos de ídolos. Por este motivo, precisamos de ídolos. Guias. Quem nos mostre o caminho. Todo jovem precisa de um pai, de um papel de pai, do limite, da construção da definição do certo e do errado.

É por isso que o Fred me deixou extremamente infeliz ontem.

Porque ele está, no momento do jogo, dando o exemplo para milhares de crianças, jovens, adultos que precisam de um ídolo. Não de um crápula. Não de quem finja um pênalti. Não de quem minta pra tirar vantagem da situação. Não no particular, muito menos em rede nacional, em rede mundial.

Que vergonha, Fred.

Sei que foi um ato do jogo. Musashi, o maior samurai de todos os tempos, já usou de artifícios que "não estavam na regra do jogo" para se dar bem em suas batalhas (como chegar muito atrasado para um combate para desestruturar psicologicamente um adversário que estava acostumado com o cumprimento de horários - afinal, era a palavra de um e outro adversários de uma batalha). Mas eram batalhas de vida ou morte. Eram estratégias de guerra. Ainda, sim, questionáveis...

A regra é clara, Fred: as pombas foram soltadas antes do jogo por causa disso. Thiago, você como capitão, deve pedir desculpas por esse deslize. De algum modo. Fred, eu sei que você não é um crápula. Você é um cidadão de bem. Tenho algumas informações sobre amigos seus, de Teófilo Otoni, a cidade feia e quente onde você se criou, terra do meu pai. Você é um cara bacana. Acontece que você deve se lembrar que quem joga não é você. É nosso ídolo. É nosso pai. Acredite, de algum modo, em alguma dimensão, Neymar Jr. é pai da gente quando nos representa. Não precisamos de um pai que faça atitudes que não combinam com o ser humano que você é, Fred. Nem em estratégias de batalha. Afinal, é um jogo. Um jogo de paz, onde é possível dar exemplo pra milhões de brasileiros. Milhões que vão às urnas. Milhões que vão achar que na batalha do dia a dia é possível fazer direito. É possível ser honesto. É possível perder um gol, mas vencer uma copa.

Precisamos de exemplos, caro Fred. Precisamos de ídolos, caro Neymar Jr. Precisamos de pais, Thiago Silva. Mesmo que seja dentro de um campo de futebol. Afinal, é um símbolo fundamental para o jovem Brasil e para os jovens de qualquer idade do nosso amado Brasil...

Oscar, ontem você foi digno de ser chamado de pai. Por todos nós. Não preciso doar para o itaú meus batimentos cardíacos. Já dou meu dinheiro pra ele. Já doei meus batimentos pra quem merece: Fred, Thiago Silva, Neymar Jr, Oscar e todos os jogadores da seleção brasileira. Sejam nossos ídolos de fato. Os ídolos que estamos verdadeiramente precisando neste triste momento político e social.


terça-feira, 3 de junho de 2014

Bernardo e a Porta dos Fundos



Em São Paulo, publicitário mata zelador por causa de desentendimento na entrega das cartas e jornais. 

No Rio, fotógrafo morre do coração na frente do hospital especializado em cardiologia sem ser atendido. 

Em Brasília, jovens são multados em 5.400 reais por dividirem o carro para passear. A multa chegou 4 anos depois.

Em Belo Horizonte, recebo uma declaração de amor:

– Preciso te contar uma coisa. Tenho um filho que está com 7 anos. E ele se chama Bernardo por sua causa. Quando éramos colegas, decidi que se um dia tivesse um filho, teria seu nome. Porque achava você inteligente, divertido, bem humorado. Queria que meu filho fosse assim. Ano passado, contei essa história pra ele. Sabe?, ele é.

Quero conhecer Bernardo. Dizer a ele que não assista jornal todas as manhãs. Que continue inteligente, divertido, bem humorado. Que o mundo é bem melhor do que o que aparece nos noticiários. O mundo mesmo, de carne e osso, é cheio de declarações de amor. Mas o que vende é des-graça. O que vende é tristeza. Vivemos um momento em que me parece sintomático ter um quadro no jornal da CBN com o nome "Boa Notícia CBN". E, geralmente, apresenta alguma notícia internacional relacionada a uma descoberta na área da saúde. Será que não temos, aqui, boas notícias, será que boa notícia não vende? Aliás, será que precisa vender? Será que isso mesmo é que é jornalismo? Ou há um vício da cultura da des-graça?

Sabe, Bernardo, eu quero graça. Não só a da Porta dos Fundos, que me diz que estamos precisando rir mais. Quero a graça do abraço. A graça da diversão. A graça da inteligência. A graça da característica de qualquer criança, que, como eu, brincou na escola, sonhou junto, fez amigos, influenciou sonhos. Como você. Porque crianças são assim mesmo. Todas. Porque diversão não é necessariamente entretenimento. Não quero só me entreter, passar o tempo, não ver o tempo passar. Quero sim, ver o tempo passar, mas em ENTUSIASMO pleno. Em diversão, em humor, em alegria, em inteligência, em graça. Quando não há des-graça na televisão, há quase que só entretenimento. A Porta dos Fundos acerta muitas vezes porque critica com inteligência a des-graça, o entretenimento que tem esse sentido raso, o dito politicamente correto, porque também é voz que muitas vezes pede por alguma mudança.

Sabe, Bernardo, queira também a graça. Porque quando é de graça, não precisa vender. Aliás, encontrei a palavra end no meio do que vende. Quem sabe assim a gente não vê que isso tem que ter fim? 

Agraciado, agradeço a sua mãe que me fez essa declaração de amor fraterno. A mim e a todas as crianças, a todos que querem a graça de graça de sermos entusiasmados por natureza. 

Vamos sair juntos pela porta dos fundos do que aí está, Bernardo. E rir sem medida sentados ao sol, na grama do nosso entusiasmo.






segunda-feira, 2 de junho de 2014

A volta dos que não foram





Poeira em alto mar.

É que partimos sem perceber. E, de repente, nos perdemos. Parece que fica o gosto da saudade. De nós mesmos. Desencantados?, perdidos?, não sabemos onde estamos... Escancarados, de portas e janelas abertas para o mundo, que entra todo, parece que sem pedir licença. Duvidamos de nós mesmos. Sou eu mesmo na carteira de identidade?

O mundo gira, e com ele, a gente. O Tempo faz fila. E quando acordamos, estamos lá, onde quer que seja, levados por Ele. Na comédia romântica O Casamento Grego, o irmão da noiva diz a frase que nos faz calar: “não deixe que seu passado decida quem você é, mas deixe-o fazer parte da pessoa que você será”.

É que há sempre escolha. É que há um Haikai meu, do livro V ENTE: Haikai do Livre Arbítrio. “Quem planta, escolhe”.

Acho que é bem isso mesmo. Sempre é possível escolher entre subir ou não no trem que parte. Quantas vezes não sabemos seu destino final? Acontece que há muitas estações. Nelas, possibilidade de baldeação. Quem acha que “voltar” é sinônimo de perda de tempo, não sabe a importância de se viajar com a chave de casa no bolso. Sabe, quando parti para minha odisséia pessoal, minha mãe disse:

–Filho, você está levando o que precisa?

Eu disse:

–O principal está aqui, mãe. A chave de casa.

De tempos em tempos, todas as células do meu corpo mudam. Meu nome, não.