terça-feira, 17 de dezembro de 2013

2013



2013 foi bom?

O café queima minha boca, fst!. Deito a xícara no pratinho.

Olho o vazio e vejo Tempo. Esse ano foi bom?

Puxa.

Foi um ano como nenhum outro, como tinha que ser. Ano de fé, de superação, de prova, de dor e de amor profundos. Em 2013, voei de balão com São Jorge e o Arcanjo Serafim na Capadócia. Encontrei o Papa Francisco no Vaticano. De lá, andei o mundo. Refiz o Caminho de São Bernardo e São Francisco peregrino até Assis, encontrei-me com Santa Clara e São Francisco na Porziuncola e me ditei Caminhos.

Pedi perdão.

Andei até Chiusi Della Verna, onde as chagas de Francisco brotaram dor do mundo, compaixão pelo semelhante. Aceitei os desígnios do Mistério da Fé. Ouvi.
Pus-me a andar. Atravessei a Itália. Atravessei a França. Atravessei a Espanha. Atravessei a minha própria expectativa e cheguei a Santiago de Compostela.

Recebi tantas cruzes e preces, que não era mais eu quem caminhava. Era uma legião de amor, de prece. Cruzada de compaixão pela dor original. O romper da semente. A vontade da vida.

Fui sopro na ferida de muita gente. Fui, somente.

E mesmo chegando, descobri que não está lá. Me encontrei com Deus e com o Diabo, resenhamos juntos o tempo que correu de 1973 a 2013. Quarenta anos de espera.

Até chegar numa igrejinha de Recife, onde uma menininha de cabelos esvoaçantes encaracolados esperava para receber o Espírito Santo em meu nome, tocar sorriso o coração de velhos e iludidos, e num olhar ternura declarar ao mundo seu encanto doce:

– Papai!

Assim, completou-se a minha saga.

E eu, simples Samurai Peregrino, rompi casulo para sempre. O pai mais amoroso de todo o mundo.

É. 2013 foi como tinha que estar.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EU Acredito em Papai-Noel





Estou com saudades de um adesivo dos anos 80 que víamos nos carros dos saudosos do Musical Hair:

Eu acredito em duende!” – E uma ilustração muito feia de um duende modelo europeu, roupinha de Oktoberfest, suspensório, gorro verde. Só faltava o caneco de cerveja.

E você, acredita em quê?, ou, em quem?

Nos seus pais? Na fidelidade da sua esposa? Nos pensamentos puros do seu marido? Nas bruxas? Em dias melhores? Na paz mundial? Em Deus? Em você? E no Papai-Noel?

Meu professor de física, em 1992, citou um pensador – não me lembro o nome – que disse, ao ser perguntado se ele acreditava em Deus:

–“Se eu ‘acredito’ em Deus? Eu ‘sei’ Deus.”


Hoje, depois de caminhar 2.500km a pé, acredito, ou melhor, “sei” da dimensão do que ele me disse. Quando a fé vira certeza, é o grão de mostarda na palma da sua mão. Ele remove montanhas. O “Eis o mistério da fé” – o questionamento zen budista corriqueiro da igreja católica – indica o caminho para que possamos atravessar vendados o vale de dúvidas e incertezas que se encontra à frente de todo aquele que busca.

Posso dizer que vale buscar. Ouso dizer do outro lado, para onde atravessamos cegos, sem corrimão na certeza exclusiva do Nada.

O Nada é a barriga de Deus. Onde a gestação começa. No nada, brota. No nada, surge. No nada, cresce. Nonada, como bem disse Guimarães Rosa... É preciso que se saiba: escolha a semente certa. Porque Papai-Noel pode bem ser o velho, a sabedoria, o que traz presentes, novidades, prosperidade, boa nova. O vermelho sangue que representa vida, que não se sabe de onde vem, mas encanta as crianças, reparte o amor, molha a plantinha da esperança, faz florir em nossos corações. Eis o Papai Natal que sei.

Renascemos juntos a cada ano.

Existem vagas disponíveis no meu trenó.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Olhos puxados



Do lado do meu computador, uma girafa de pelúcia me olha atenta.

Não sei por quais mãos passou. Não sei se quem fez foi um chinês, vítima de abusos trabalhistas. Não sei se esse chinês tem uma filha que mora há 2.222km de distância de sua casa. Não sei se ainda há em seu pêlo céluas mortas da mão desse mesmo chinês saudoso. Não sei se esse chinês por um instante parou para olhar os olhos atentos da girafa que ajudou a fazer. Não sei se esse chinês sabe que do outro lado do mundo tem um pai brincando com a girafa e com uma filha pelo Face Time. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar da girafa. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar de uma filha. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar de um pai. Não sei se olhares são dimensionados, como são dimensionadas as distâncias entre o chinês, o pai, a filha, a girafa. Talvez, o olhar do chinês seja o mesmo olhar da girafa. Talvez, o olhar da filha seja o mesmo olhar do chinês.

Gira, faz de conta, girafa, pescoço que busca alcançar, quer ver além, acima, olha o horizonte distante e sabe: o mundo é redondo demais.