segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Caminho in verso



À noite vem, coaxar de sapos. Um curiango pia no mato, na grota que é só breu e perguntas. O vento venta bailar das folhas das pontas, as estrelas estrelam o estrear dos pontos de luzes, ouço a corrente que arrasta impaciência no cimento do canil.

A lenha já é espera, paus secos, folhas mortas, pau ferro, candeia que arderá. Ascendo aos céus, acendo na terra a fogueira que começa, divagar, devagar a vontade de crepitar. Fogueio.

Meu pai é vem. Ele já vovô: – Filho, pega o acordeón pra mim. Pego, pai.

– Pai, faz a volta ao mundo? Peço. E me sento do outro lado do fogo, na linha de vê-lo à luz laranja e negra do existir poético noturno. Ele tec o couro que prende o fole. Fuuuu. E arrasta a palma da mão no teclado, cabeça baixa, como se carinhasse o instrumento olhando de por sobre.

Aos 11 anos, meu pai dava aulas de acordeón. Antes, tocava no piano de mentira, teclas desenhadas sobre a mesa, de quem não tinha dinheiro pra comprar um instrumento. Foi imaginando os sons das notas que completava toda música dentro de si. De dó. De sol. Aos sessenta e muitos é viajante que vai em busca da música própria de existir apesar de.

Somos só sombras com nesgas de brilho em forma de música.

Astor Piazzolla. Ennio Morricone. Frank Sinatra. Charles Aznavour. Gianni Morandi. La Cumparsita de Gerardo Matos Rodríguez. Garota de Ipanema, de Vinícius de Moraes. Umas do oriente, que não conheço o nome ou autor. Só sei o que evocam da minha fantasia de menino. De Neil Diamond passando por Ravel e terminando em Maysa, tem de um tudo. Tem clássica, tem de São João, tem de Carrossel. Tem a volta ao mundo em forma de músicas, lembranças, filmes, culturas, humores, amores. Tem de a a zê.

É que, de mochila, cruzei três países e mapeei um coração. A mochila do meu pai é seu acordeón de 120 baixos. A música, seu Caminho. Quem senta ao seu lado, na noite estrelada do sítio, viaja com ele, acordes pra ser levado aos quatro cantos do mundo...

E as fagulhas viajam estrelas, em partitura pro céu.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Time is Money?




O maior luxo do mundo: Time is money.

Paro. Penso. Afinal, tenho tempo de sobra pra isso. Ócio criativo? Tal qual filósofo? Yes, bebê. Mas será que a máxima procede? Time is money? O que é tempo pra você? E luxo? E qual é afinal o seu conceito de valor? Você já parou pra pensar nisso?

O meu parece divergir em algum ponto do prisma social. Tenho que responder de bate-pronto. Afinal, o meu espaço aqui é limitado pela falta de tempo de quem só corre o olho, não lê, vamos falar a verdade.

Então vamos lá:

Vendi minha TR4 pra ficar 3 meses caminhando, dormindo boa parte de favor e comendo basicamente uma refeição completa por dia. O que é luxo? A Pajero ou 3 meses de tempo? Eu faria os 2.500km que fiz a pé, em 88 dias, em 2 dias, se fosse de Pajero. Curiosamente, Pajero, pela origem da palavra, é ou “o mentiroso” ou “o punheteiro” – hispanicamente falando. Pras duas coisas, precisa-se de tempo.

Tempo, para mim, não está ligado ao Estar. Mas sim, ao Ser. Esse é o verdadeiro fenômeno. Não o Ser pelo Ser – das ding an sich – mas o Ser em estado de observação. Ok, isso deveria ser o Estar, mas se o Ser pode ser observável, é onde (ou quando) se encontra com o Estar. Com o fenômeno de Ser. Aí o Tempo verdadeiramente é. Onde (ou quando) Está. É o que me parece. Podemos desdobrar essa reflexão filosófica um pouco mais, mas aí demanda mais tempo...

Sabe, o meu conceito de valor, transcende o luxo. Acho que não tem nada de luxo a sua bolsa Louis Vuitton. Independentemente dela ser falsificada ou verdadeira. Acho brega. Acho que tanto a falsificada quando a verdadeira são falsas. Porque no que tangem o conceito de valor, não representam nada, senão dinheiro. Ou ter, ou a vontade de Ter. E Ter é diferente de Estar ou Ser. E Tempo pode ser discutido em relação ao Estar ou ao Ser. Não ao Ter. O Tempo é fugidio. Volátil, uma parecência-instantânea relativa à observação. Sua bolsa não. Quando você morrer, ela vai estar aí, com toda a sua breguice a falar da atemporalidade do luxo do lixo. Ou seria do lixo do luxo?

É, pelo visto temos que ter tempo para pensar. Acho que, filosoficamente, podemos propor outros conceitos:

“O maior lixo do mundo: Time is money.”

Ou, se formos mais audazes...

“O maior luxo do mundo: Time is time.”



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Antídoto



Zapeando a mente, dá de cara com um filme antigo.

Um filme assim requentado, sessão da tarde, daqueles que tem cachorro e que faz a gente chorar. O nome do cachorro já dizia tudo.

Tinha o herói, afeito a provações, tinha a mocinha princesa, dona do cachorro, digo, do dragão alado, tinha a mãe da mocinha, a dona Rainha, tinha o Rei, tinha tudo. Tinha um palácio ecologicamente correto, com um jardim de tirar o fôlego, com chifre de veado, orquídeas raras, gazebo, piscina, digo, lago, tinha tudo.

Tinha uma história bonita a ser contada. Tinha uma história bonita a ser cantada.

Daí, música se fez, veio a bruxa, veio o tempo e o mato cresceu ao redor. O príncipe, mais parecido com sapo, não se fez de rogado. Voltou ao palácio e tentou de um tudo, menos o beijo.

E a bela adormecida não arredou o pé.

Mesmo linda, mesmo pintura, mesmo musa, mesmo sonho, não se fez real. Preferiu ficar dormindo a descer da torre. Nem quando a lágrima palavra tocou seu rosto, escorreu em seu peito e molhou seu coração.

Mais uma história de amor que brinda com a taça de Romeu e Julieta. Dessa vez, por escolha.

Talvez tenha faltado o beijo. O antídoto de todo sono de amor.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outubro Rosa



Salve gente.

O Outubro rosa tá com tudo. Todo mundo rosáceo pra justificar o tema. As mulheres precisam se conscientizar. E cá pra nós, não só sobre a importância do exame do câncer de mama. Tem muita coisa importante pra ser lembrada.

O Papa Nicolau, por exemplo. Importantíssimo.

O Papa Francisco, idem.

Aquela coisa dos soutiens, the same.

Não, eu não falo da importância de queimar, eu falo da importância de se usar. O chão tá frio, minha gente. E não adianta nada não morrer de câncer e morrer gripado. Afinal, a gripe também tá matando.

Vocês sabem, nem só de conscientização feminina vive o mundo. Os homens também tem que fazer a sua parte e se conscientizar. Ir lá fazer o exame do toque depois dos quarenta. Importante. PSA, só, parece que não resolve.

E tá todo mundo numa conscientização danada. O time do Toque da Raposa também resolveu se conscientizar: e o Outubro rosa começou com tudo, meninas!

Mas, chegando o dia 13, você sabe, 13 é galo. Mas nem por isso vamos crucificar alguém. Não vamos diminuir todo o esforço, toda a conquista, todos os bigodinhos pretinhos, todos os pontos ganhos do time do Toque da Raposa.

Levanta a cabeça, menina. Dá a volta por cima, ajeita a saia, dá um tapa no pó de arroz, passa um batom que o outubro é de vocês. O futebol mineiro precisa do seu apoio pra galgar este pico, o cume, enfim. O Galo não quer ser campeão da libertadores sozinho e nem disputar o campeonato mundial alone.

Mas não há de ser nada. Eu sou mais vocês. Como diria a sabedoria poética de Milton e Brant, “...Mas é preciso ter força, É preciso ter raça, É preciso ter gana sempre, Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, Mistura a dor e a alegria...”

Ouvi dizer que tem uma corrente forte, de ouro com strass, e uns pingentes chiquérrimos (um de lápis lázuli pra combinar com o uniforme, inclusive) dentro do Toque da Raposa que está numa campanha do babado pra mudar o mascote Raposinha azul para Pantera Cor de Rosa. Afinal, é outubro, né gente? ;)


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A força do bem



Neste sábado, a força do bem se multiplica.

Você vai, come uma feijoada deliciosa do Nutreal, toma cerva gelada à vontade, caipis sensacionais, vê gente bacana - eu ia dizer bonita, mas só posso garantir 5 que conheço - , encontra gente do bem, curte uns shows na medida do sabadão e ainda sai com a certeza que ajudou uma criançada que precisa. Bom, né?

Se todo sábado, tudo que a gente gastasse ainda se revertesse em boa ação a vida seria ainda melhor.
Vale conhecer o trabalho gentil, cuidadoso e amoroso da turma da Força do Bem. O nome já diz tudo. Procura lá no Facebook e vamos encontrar a galera lá na Feijuca.

Faz bem pro coração. Pro seu e pro de muitas crianças. ;)



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Dedentropradentro

Na tela, o cursor pisca esperando a escolha da primeira letra, da primeira palavra, da primeira frase. Do tema, do assunto, do tom. Da construção semântica que dê sentido à próxima meia hora da vida. Nada que será lido por muitos, nada que fará sentido à existência outra que não minha, um lamento, um coro, um grito, um chute no balde, uma pista.
As palavras silenciam a beleza do nada.
Escrevo o que acredito, dou nó na minha expectativa, repenso um, outro, relembro delas. As faço renascer e mato-as em sequência. Lembranças. Guardadas em caixas no sótão da mente, onde tábuas rangem a cada passo. Meu medo é que não aguentem o peso. E que o estalar da madeira termine nas tábuas partidas, e eu venha a cair na luz do vazio que lambe as gretas da passarela onde ando.
Onde ando. Nhec.
Onde ando. Nhec.
...
Odiando, nheeeeeeeec. Crack. O-ou!


AH
AH
AH

AH



AH





ah








ah













ah




















ah

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Faustão é o Antonio Tabet de amanhã?

– O Porta dos Fundos é o Casseta e Planeta antes de virar Zorra Total. - Profetizei feicibuquiando.

Daí me perguntaram: – E o TV Pirata?

– Era ducaralho, respondi de bate-pronto.

Antonio Tabet tem razão numa coisa: hoje a TV não tem liberdade para um TV Pirata. E justificou comentando sobre um quadro em que a Regina Casé ateava fogo em um bebê. 

Pausa:
Na Época do TV Pirata, ela era A Regina Casé, feia e engraçada, não a Regina Casé feiajeitada do "Esquenta"(Observe a apresentação dela no hotlink do programa que postei ao lado: "a identificação com a periferia (!!!) é a sua marca registrada" - vê-se pelo visual...) 

Continuo:
Talvez porque à época do TV Pirata atear fogo em índio não parecia ser nem politicamente correto, muito menos possível...

Em entrevista ao Roda Viva, dois dos criadores do Porta dos Fundos, Tabet e Ian comentam do sucesso do Porta, dizem que estão bem, obrigado, e que ainda assim não dispensam de sentar e conversar com a Globo, ou com quem quer que seja, apesar de achar difícil o formato emplacar dessa forma dentro de uma estrutura engessada como a da Globo, de outra TV aberta ou de um canal a cabo, enfim.

Penso um pouco. Acho que eles têm razão. Mas acho que eles possivelmente não vão aguentar muito tempo nessa. Vamos ver quanto vale a liberdade...

Não que eu não deseje, muito antes pelo contrário. Podemos desde avaliar o rumo idiota do Politicamente Correto - afinal, só falta chamar a filha do Gil de "Afro-descendente Gil", já que tem gênio querendo vetar Monteiro Lobato e cantar "Não atire o pau no gato" - a pesquisar o sem número de artistas, programas, formatos que cresceram à margem da babá da mass media no Brasil e que se rendeu a ela porque os Titãs é que tem razão: "homem primata, capitalismo selvagem".

Numa boa, quero que o Tabet tenha razão em mais coisas. Quero que a página vire de vez e que o eixo Rio São Paulo deixe-me continuar resistindo e morando em BH, e ainda assim continuar pagando pensão pra minha filha em Recife. Quero que finalmente "não estar na Globo" não seja "sinônimo de fracasso". Porque 9 entre 10 amigos meus não usam Lux de Luxo, mas sim, dizem: – porra, você tinha que estar na Globo.

Me pergunto: Por quê? Por que temos que "fazer sucesso"? Por que temos que ficar milionários? Por que meu trabalho não pode ser bem reconhecido em um cidade de aproximadamente 3 milhões de habitantes e eu ficar satisfeito com isso? Tudo bem, se cada habitante de Belo Horizonte me desse um real pelo meu trabalho, o futuro da minha filha ficaria mais confortável, mas o quê fazer? Como sobreviver à perversão do mercado, da massa ingênua que continua achando divertidíssimo Anitta e Naldo? Será que tudo que todo mundo quer é ficar bêbado em casamento pra dançar dando vexame? Tenha santa paciência, tenho certeza que o ser humano é melhor que isso. (ou não?)

Outro dia, o Cobra Coral fez apresentação na Praça da Liberdade e acredito que no mínimo umas 800 pessoas entre jovens, velhos, crianças curtiram seu som nada mass media, que tem uma qualidade musical ducaralho e que duvideodó que vai se apresentar no Faustão. Duvideodó. 

Quero estar errado. Quero que o Faustão chame o Cobra Coral e que eles vendam metade do Padre Fábio de Melo. Metade já está bom. E mais metade do que vende a Paula Fernandes. E olha que eu já gravei tanto com o Padre Fábio, quanto com a Paula Fernandes. Pra ganhar um troco.

Sei lá, essa discussão é muito comprida e meus dedos estão longe de fazer cosquinha na expectativa de Deus, quanto mais ver o dedo dele apontado pra mim. Quisera eu me sentir como se estivesse pelado no teto da Capela Sistina, profissionalmente falando. Uso o Porta dos Fundos como referência para que observemos. Vamos ficar atentos.

Faustão já teve o Perdidos na Noite. Ele deve preferir os milhões que ganha hoje. Agora é a vez do Porta dos Fundos, em um momento em que o Youtube começa arranhar a tela plana da TV Aberta.

"O cabo entrando pede licença, não adianta antena em pé / saiu pela culatra a imagem, só pega agora com grana e fé" foi só uma estrofe de uma música que fiz com Vander Lee: à época, a TV a cabo começava a transformação em curso e os pastores iniciavam a polpuda poupança que agora tem reflexos na câmara dos deputados e no senado federal. Claro, ninguém nos ouviu. Não passou no Faustão. Hoje, o verso seria outro. Talvez de apelo aos "Youtubíus" de plantão, pra que dêem força de fato pra uma futura democracia imagética. Uma que ainda não conhecemos. Mas que depende dos que agora tentam virar a mesa pra que aconteça. Talvez o Tabet saiba o que tem em mãos, talvez não.

O que posso esperar mesmo, é que o Tabet não compre um blazer roxo.






Tempero pro fim de ano



As festas de fim de ano estão na área. Se derrubar é penalty. Já está tudo o olho da cara. Das viagens, das passagens aéreas às estadias, tudo um horror. Os brasileiros descobriram o valor que damos às festas de fim de ano e o turismo abusa. Abusa muito. O valor triplica no final de ano e há jacu que pague.
O Brasil vai mal, obrigado. Aliás, não é obrigado, é só se a gente deixar. Mas a gente deixa. É mais caro ir visitar minha filha em Recife do que ir pra Miami. É mais caro ir pra Manaus do que pra Lisboa. Mais caro ir pro nordeste do que pro Caribe. E assim o Brasil quer que o Turismo gere riqueza. Fui 7 vezes a Europa e não conheço Pipa.
Fato é que damos muito valor para o reveillon, por exemplo, e não há essa comoção toda mundial pela passagem do ano. Já passei reveillon em Paris, na Torre Eiffel. Nem de longe emociona como Copacabana.

Pra mim, uma verdade inquestionável: as companhias fazem a alegria (não as aéreas). Independentemente de estar em Mateus Leme, Goiânia, Barcelona, Amsterdam.
Um dos melhores reveillons que tive: sozinho na praia, em Caraíva. Outro: sozinho na praia em Trancoso. Ver o dia nascer, o ano nascer, a esperança raiar. É a companhia melhor que se pode ter, a sua. Mesmo quando se está acompanhado do amor, do amor escolhido, se você não está bem, nada resolve. Tudo é chato, tudo é sem sentido, o amoroso perde o A e vira moroso...
Por isso, para encontrar o outro, vale primeiro se encontrar. Seja só, seja na festa de fim de ano da viagem ridiculamente cara ou no encontro entre amigos absurdamente simples e especial.

Quando você se descobre tempero e aprende a dosar, as refeições da vida passam a ter outro sabor. Bom apetite.