terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Durex de Deus


Não foi à toa que Lulu das Ilhas me deu um cata-vento de presente.

No dia do lançamento do livro V ENTE, meu segundo livro publicado, ela trouxe esse cata-vento da Ilha de Florianópolis pra mim, regalo simbólico, mágico, místico, lindo.

Pois bem: no dia mesmo, quebrou uma pá.

A azul (sintomaticamente). Na volta, depois de ventar comigo no lançamento, com o apoio de quase trezentas pessoas que lá foram prestigiar o Novo Céu, a instituição apoiada pelo lançamento do livro e este autor aqui, que vos tecla.

A vida tem disso. Muitas pás se quebram assim, pelo excesso de energia. Até de amor. Acontece que coloquei o cata-vento do lado do computador, na mesa do meu escritório e ele nunca mais tinha ventado. Ou, melhor dizendo, nunca mais tinha catado vento algum. Com a pá quebrada, estava aqui pra que eu o visse todos os dias e 1– servisse de inspiração, por ter sido dado com tanto carinho por uma amiga muito especial, uma referência de ser humano muito ligada às Virtudes maiores que todos almejamos e 2– servisse de pulga, que atrás da orelha do real, me dissesse todo dia sobre a imperfeição das coisas. Até das mais lindas, das mais puras, dos sonhos, e dos mesmos Valores que, perfeitos, são inatingíveis por nós, cheios de defeitos... Um lembrete da falta. Do buraco existencial.

Interessante é que hoje, depois de quase um ano vendo esse totem do afeto partido, decidi intervir, finalmente. Com um movimento simples, abri a primeira gaveta da escrivaninha e ao alcance das mãos e dos olhos, um DUREX me fitava óbvio, jocoso, a espera da constatação da minha idiotice plena. Por mais que não quisesse colocar um DUREX na pá, pra não deixar marcado ali o "defeito" do meu Sonho em forma de objeto, eu esperei um ano pra constatar, surpreso, que, com o Vento, o DUREX some.

Atônito, percebi o quanto isso me serve de exemplo. Eu não queria colocar o DUREX pra não marcar ainda mais o Quebrado, Partido, Defeito que ali estava e me incomodava. Em compensação, com o Quebrado, Partido, Defeito, meu cata-vento não servia a sua função primeira: catar vento... Sendo o Vento, pra mim, metáfora óbvia de dEUs, faça você, agora, seu exercício filosófico pra estabelecer sentidos ao movimento pessoal que às vezes nos passa obliterado por nossa visão turva da realidade próxima.

Alguns pontos me causam estrelas:
Às vezes (?), assumir um Defeito é sinônimo de movimento.
A imobilidade é mesmo inimiga do possível.
Posso, sim, amar um DUREX.

Sigo. Agora ventando de novo.




Um comentário:

Ana disse...

Talvez por esta razão, dizem que pra existir equilíbrio tem que haver movimento!

Mais uma das coisas que a vida tem (e que a gente faz que acha uma surpresa danada, mas que estão aqui, bem embaixo do nosso nariz). Neste caso, talvez nem tanto sobre o Durex de Deus, sobre as pás quebradas, sobre os defeitos, o movimento, a imobilidade ou o possível, mas mais sobre amar e as estrelas.
Ajudo uma instituição há bastante tempo, e até hoje não tinha ouvido falar muito do Novo Céu. Li este texto (muito bom, aliás) mais cedo e agora a Lu (também ela Lu) que trabalha comigo veio me oferecer um convite para uma festa beneficente de uma instituição chamada... Novo Céu!
Comprei o convite, mas a festa já está acontecendo aqui no meu coração. E que a alegria desta festa de agora vente até a festa do convite no sábado!