sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nada é tudo.

*foto do arquivo público mineiro

Mesmo grogue, se virou na maca quando apontou na porta, vindo do corredor do hospital:
– Sabia que você estava aqui. Senti seu cheiro. Disse ela.

Os enfermeiros emparelharam a maca com a cama do quarto do hospital. 

"No três", disse um deles. E a colocaram por sobre a cama, ainda de camisola e touca cirúrgica. "Se precisar de nós, estamos no final do corredor. Ela ainda vai dormir um tempo. A anestesia é forte."

Saíram.

Só ele e ela.

E durante longas cinco horas, permaneceu ali, sentado ao seu lado.

O mundo era só. Silêncio.

Metro e meio e seus olhos, dali, caminharam carinho, lentamente, pelas trilhas do corpo quente que descansava.

Sem maquiagem, sem vestido decotado, sem óculos de marca. Sem produção no cabelo, sem batom. Sem salto, sem bolsa, sem carteira.

Sem tudo. Com nada.

Assim, ele a viu pela primeira vez. Haver.

E, inexplicavelmente, foi olhando os pêlos do braço dela, aqueles pêlos negros em contraste com aquela pele branquinha dos braços que repousavam inertes junto ao corpo coberto pelo lençol verde claro do hospital, que soube, teve a mais nítida e clara certeza de sua vida: é isso.

O Amor é isso.

Teve plena certeza que a amava. E que nada, nunca, nada poderia mudar isso.

Nem os anos, nem os planos, nem os danos. Nem mesmo os desenganos.

Quando amor, o Tempo sabe parar pra sempre e toda espera é nada.

Na vida, pra muita gente, nada é tudo.





Um comentário:

Ana disse...

Que lindos! Você, o texto e o amor!