sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As ondas fazem carinho na areia do tempo



Há quem espere sentado, há quem espere em pé.
Há quem desista de esperar.
Há quem medite a espera e quem espere meditando.

– És père.

Enunciado de há mar.





quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Storm


Resolvi tomar banho.

Mas não foi um banho assim compromisso, um banho assim o que eu vou fazer depois, um banho assim que roupa que eu vou usar quando eu sair daqui, um banho assim o que é que eu faço com relação a x, y ou z.

Foi um banho banho.

Daí, peguei a vela, coloquei na lanterna marroquina, acendi, ascendi, desliguei a luz, desliguei o ego, liguei o ipod no mantra de renascimento que ganhei de um amigo mestre e fui ter com a água a certeza do encontro.

Lá, no breu clarividente da mente silenciosa, que escorria perdão e pequeninas sujeirinhas do dia-a-dia, limpei-me.

De olhos fechados, pude ver o cheiro do sabonete, o molhado da água, o quente que me envolvia acalanto, embalando meu desejo de renovação. Tudo foi embora. Nada ficou. Nada ficou limpo, límpido, nítido, brilhante.

Alegria efusiva.

Estava acompanhado do bem que me quer bem. Decidi lavar seus cabelos. Seu corpo, seu jeito, seu sem jeito. Nos lavamos, lafomos e, ao final, chegamos-nus.

Pelado a lado, essências da natureza nudeza plena. Desnudados a dois, o Um.

Música, água, fragrâncias, texturas. Pela pele, pelos pêlos, o caminho do carinho. Cuidado. Cuidando. Cuinadando.

O mundo agora é água saborosa onde nado ondas de existir.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O dia em que morri




Morri hoje, pela manhã.

Sem que esperasse, sem que soubesse, 

sem dar notícia, 

sem palco, sem terno, sem lastro, 

sem medo, sem tudo, 

morri.

Fui hoje noite, de dia.

Amanheci, tomei café e fui morrer logo cedo.

Morri feliz.

Não tinha flor, não tinha odor e nem platéia.

Não tinha médico, não tinha cético, não havia crente.

Me fiz semente, morri somente.

Morri.

Me fiz maior, mor, 

ri de mim mesmo.

Foi num átimo, préstimo, servi pra algo: morri.

Morri eu, comigo, mesmamente,

morto completamente em vida. Morte.

Quando vi VIDA e MORTE juntas pela primeira vez eu li:

vidAMORte.

Ciclo tímico, tácito, 

me vi pétala em sua mão.

Minha filha flor e eu

arrancada vida em sua palma com um simples gesto de amor:

– Te amo, papai!

E eu, nada, escorri. 

Esvaí-me sentidos todos, múltiplos, numa morte linda e pura e louca e intensa e imensa.

Nudação.

E renasci pelado pai, sorriso só, 

na boca menina de minha filha

Beatriz.






quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gente em volta

 
 foto: abril de 2010
O momento da solidão. Quem disse que é preciso de gente à sua volta o tempo todo? – instiga em tom de desafio.

Em mundo pautado por Facebook, solidão tem outra dimensão, cara amiga. Eis o que penso. Cabe um exercício...

Me faz lembrar que há tempos, uma outra amiga, à época com seus 45 anos, filhos de 23 e 21 anos, teve o susto de ser surpreendida com um “pedido” de separação. O ano havia sido difícil e resultou num natal e reveillon inesperado: uma viagem sozinha para Londres.

– Vai ser bom pra eu colocar os pensamentos no lugar, colocar meus valores na balança, repensar minha vida, sabe? Foi ótimo eu ter decidido viajar. Dizia ela.

Claro, a conhecendo bem como eu conhecia, estava esperando que completasse o que ainda faltava dizer, mesmo que o discurso estivesse coerente... Na verdade, estava em pânico. Se esta era a fala que tinha treinado pra tranquilizar os amigos próximos, os muito próximos sabiam que ela estava aterrorizada com a ideia de ficar sozinha.

Depois que veio à tona a confissão reservada, coube a mim a reflexão: Sabe, vou lhe dizer uma coisa, pra você refletir. A melhor companhia que você pode ter na vida é a sua. Quando descobrir isso, sua perspectiva sobre as relações passa a ter um sentido novo, eu disse.

Assim, partiu. E quando voltou, me contou que dentro da St. Paul’s Cathedral, na noite de natal, qual foi sua surpresa ao chorar de emoção tendo finalmente se reconhecido como companhia possível, prazerosa, divertida, saudável. E me agradeceu num abraço, lágrimas nos olhos.

Ficar só e se sentir só são coisas distintas. O Amor – em seu sentido mais amplo – tem seus mistérios. Quando se descobre que Richard Bach está certo ao postular “Longe é um lugar que não existe”, fica até mais fácil compreender a coexistência em nós de pais, filhos, irmãos, amigos, Deus...

...e para os mais escolados, cabe a compreensão filosófica do encontro com os nossos tantos eus... mas isso já é pauta pra outra postagem.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lis tras

Faz tempo.
Faz semente.
Faz vento.

Faço.

Entrelaço aço no meu jeito, pai, topai, que sei o que faço.

Venha.

Traga-me a senha.
Busque-me sentido.
Sinta-me zunido estranho em seu ouvido.
Ente.
Sou este.
Incomoda o fato.
Ato. Relato.
To, e movo.
Para sempre novo, novo de sentidos seus.

Renda-se. Rende-se conforme a trama do que alinhavamos,
vamos, amo, somos mais que a linha, nunca és só minha,
sominha de uma matemáticazinha sem sentido prático.

Loga ritmo.
E dança.

Eu, que sou cheio de nós, serpentome minhas escamas,
noite, dia, antes
asfalto duro, manta de minha neoexistência.

Lembre-se, filha, do Amor e do em lá se.

E que eu sou, indubitavelmente, recheio na palavra seus.




terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Durex de Deus


Não foi à toa que Lulu das Ilhas me deu um cata-vento de presente.

No dia do lançamento do livro V ENTE, meu segundo livro publicado, ela trouxe esse cata-vento da Ilha de Florianópolis pra mim, regalo simbólico, mágico, místico, lindo.

Pois bem: no dia mesmo, quebrou uma pá.

A azul (sintomaticamente). Na volta, depois de ventar comigo no lançamento, com o apoio de quase trezentas pessoas que lá foram prestigiar o Novo Céu, a instituição apoiada pelo lançamento do livro e este autor aqui, que vos tecla.

A vida tem disso. Muitas pás se quebram assim, pelo excesso de energia. Até de amor. Acontece que coloquei o cata-vento do lado do computador, na mesa do meu escritório e ele nunca mais tinha ventado. Ou, melhor dizendo, nunca mais tinha catado vento algum. Com a pá quebrada, estava aqui pra que eu o visse todos os dias e 1– servisse de inspiração, por ter sido dado com tanto carinho por uma amiga muito especial, uma referência de ser humano muito ligada às Virtudes maiores que todos almejamos e 2– servisse de pulga, que atrás da orelha do real, me dissesse todo dia sobre a imperfeição das coisas. Até das mais lindas, das mais puras, dos sonhos, e dos mesmos Valores que, perfeitos, são inatingíveis por nós, cheios de defeitos... Um lembrete da falta. Do buraco existencial.

Interessante é que hoje, depois de quase um ano vendo esse totem do afeto partido, decidi intervir, finalmente. Com um movimento simples, abri a primeira gaveta da escrivaninha e ao alcance das mãos e dos olhos, um DUREX me fitava óbvio, jocoso, a espera da constatação da minha idiotice plena. Por mais que não quisesse colocar um DUREX na pá, pra não deixar marcado ali o "defeito" do meu Sonho em forma de objeto, eu esperei um ano pra constatar, surpreso, que, com o Vento, o DUREX some.

Atônito, percebi o quanto isso me serve de exemplo. Eu não queria colocar o DUREX pra não marcar ainda mais o Quebrado, Partido, Defeito que ali estava e me incomodava. Em compensação, com o Quebrado, Partido, Defeito, meu cata-vento não servia a sua função primeira: catar vento... Sendo o Vento, pra mim, metáfora óbvia de dEUs, faça você, agora, seu exercício filosófico pra estabelecer sentidos ao movimento pessoal que às vezes nos passa obliterado por nossa visão turva da realidade próxima.

Alguns pontos me causam estrelas:
Às vezes (?), assumir um Defeito é sinônimo de movimento.
A imobilidade é mesmo inimiga do possível.
Posso, sim, amar um DUREX.

Sigo. Agora ventando de novo.




sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nada é tudo.

*foto do arquivo público mineiro

Mesmo grogue, se virou na maca quando apontou na porta, vindo do corredor do hospital:
– Sabia que você estava aqui. Senti seu cheiro. Disse ela.

Os enfermeiros emparelharam a maca com a cama do quarto do hospital. 

"No três", disse um deles. E a colocaram por sobre a cama, ainda de camisola e touca cirúrgica. "Se precisar de nós, estamos no final do corredor. Ela ainda vai dormir um tempo. A anestesia é forte."

Saíram.

Só ele e ela.

E durante longas cinco horas, permaneceu ali, sentado ao seu lado.

O mundo era só. Silêncio.

Metro e meio e seus olhos, dali, caminharam carinho, lentamente, pelas trilhas do corpo quente que descansava.

Sem maquiagem, sem vestido decotado, sem óculos de marca. Sem produção no cabelo, sem batom. Sem salto, sem bolsa, sem carteira.

Sem tudo. Com nada.

Assim, ele a viu pela primeira vez. Haver.

E, inexplicavelmente, foi olhando os pêlos do braço dela, aqueles pêlos negros em contraste com aquela pele branquinha dos braços que repousavam inertes junto ao corpo coberto pelo lençol verde claro do hospital, que soube, teve a mais nítida e clara certeza de sua vida: é isso.

O Amor é isso.

Teve plena certeza que a amava. E que nada, nunca, nada poderia mudar isso.

Nem os anos, nem os planos, nem os danos. Nem mesmo os desenganos.

Quando amor, o Tempo sabe parar pra sempre e toda espera é nada.

Na vida, pra muita gente, nada é tudo.





terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pra mim, chega.


Ela ligou e ele atendeu. Estava pensando em comer um hambúrguer. Ia passar no supermercado gourmet e comprar alguns ingredientes. Alface, hambúrguer feito com carne especial, ovo caipira, pão com gergelim, queijo, presunto. Bacon não, decidimos pelo presunto pra ficar um pouco mais light... 

Uma cerveja especial pra agradar, surpresa de quem quer ser notada.

Uma segunda-feira com gosto de quinta. Mais ou menos esse o objetivo. 

Tudo pronto, tudo lindo, tudo arrumado na bancada da cozinha. 

Quando o sandwich estava pronto, pronto: ele pensou em postar a foto daquele lindo sanduba no Instagram. Daí, quando armou o celular pra clicar, um clique: pra quê mesmo eu estou fazendo isso? 

Com quem mesmo eu quero COMPARTILHAR?

Tenho uns 550 seguidores no Instagram. Tenho mais uns 150 pedidos pra me seguir no Instagram. 
Curioso que não convidei nenhuma das 700 pessoas relacionadas para estar em minha casa comendo aquele sanduba. Simplesmente especial, simplesmente nosso, simplesmente real. 

Engraçado: nunca comi o sandwich que vejo na foto do Big Mac. Ele é lindo, apetitoso, perfeito, magicamente saboroso. O que o atendente sempre me entrega tem o hambúrguer mais fino, menos brilhante, menos suculento, o alface não tem cara de fresquinho, o queijo é sempre meio embolado, meio menor que o sanduba, não abraça o hambúrguer como o queijo da foto, os gergelins parece que estão de greve e foram pra passeata ao invés de vir trabalhar, e por aí vai... 

Sabe: o meu hambúrguer de ontem tinha cara de um sanduba da foto do Big Mac. Só que o meu era real. 

Tentamos, a todo instante, aprisionar o real. Como se o tempo ali pudesse parar. E desistir de seguir, inexoravelmente, seu destino final. O vazio que o tempo nos traz só fala de Deus, e da possibilidade de surgir algo novo. Talvez, até, um outro sandwich, com menos ou mais maionese. De qualquer forma, um que se possa comer. Não um sanduba que vejo em meu celular que meu amiguinho postou que é tão real quanto uma foto de um Big Mac...

Será que chega o dia em que vou lamber a foto do sanduba do meu amiguinho no Instagram? 

Chega. Ah, pra mim chega. 


Di cadê leitura?





Vou contar um caso.

O exemplar exemplar de Grande Sertão: Veredas, edição de aniversário, ficou em cima do meu Baú de Sonhos Realizáveis na sala da minha casa por quase dois anos.

Sim. Tenho um baú de sonhos realizáveis. E um molho de chaves, na mesma sala. Nele, não conte a ninguém, tem a chave desse baú. E a chave do Universo. E mais duas outras chaves. Uma abre meu cofre vazio.

Nessa sala, uma estante de livros, um oratório que fiz solzinho, flores. Nessala exala meu gosto pelo simplesmentemeu. E de quem quiser chegar, mas com respeito. Nessala, entre chaves mágicas, ora tô rio, oratório, leio. Mar. E me em canto com os livros. De filosofia a gastronominha. Nossos sabores e os sabores do mundo que não cabem nessala.

Um dia, depois de tanto passar do lado desse livro mistério, abri o Grande Sertão: Veredas pra nunca mais fechar. É um livro tão mágico, que ele só abre. Abre tanto, que quando a capa encosta na contra capa, forma um círculo de páginas infinitas. E causos infinitos. Nonada.

Poderia dar aqui algumas dicas de leituras. Acho que seria bom.

Musashi, de Eiji Yoshikawa, a história do maior samurai de todos os tempos.

Um dos 5 +. Épico. Bom, deixa eu dar uma olhadinha na estante da mente:

O Andarilho das Estrelas, de Jack London. Delícia.

O Caminho do Sábio, de Jean Biès. Luz no escuro.

A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder. Mudou minha vida.

A Sangue Frio, de Truman Capote. Impossível ler à noite.

Portões de Fogo, de Steven Pressfield. Outro épico.

Estórias Abensonhadas, de Mia Couto. Outro delícia. (aos desavisados: Mia vem de Emílio)

O Poder do Mito, de Joseph Campbell. Argila minha.

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Compte-Sponville. Quando eu reler novamente, eu faço meu comentário.

A Menina que Roubava Livros, de Markus Suzak. Enredo bacana. Tipo Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom.

Um Dia, de David Nicholls. Sessão da tarde.

O Gênio do Crime, João Carlos Marinho. Adorei quando menino. Me fez lembrar a Série A Inspetora, de Santos de Oliveira. Ê ingenuidade boa.

Alta Fidelidade, de Nick Hornby. O filme é lixo perto do livro.

O Retorno e Terno, de Rubem Alves. Ou outro do Rubem Alves. Conversa de café com broa inteligente.

Manoel de Barros Poesia Completa. Ah, para.

O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Puatz. #semcomentarios.

Ah, e por aí vai. Ou por aí fui. Um bom começo, acredito.

Pergunta: quantos livros você já leu esse ano? Sabe?

Leitura é o remédio certo pra quem não tem cura. E tenho dito. Ou melhor, lido.





P.S.: sobre o Grande Sertão, vai a dica: só deve ler quem gosta de música...