quinta-feira, 1 de agosto de 2013

receita infalível

Tem hora que decide desistir, que essa coisa do amor é assim mesmo um pouco burra, um pouco egoísta, um pouco tensa, um pouco chata, que na verdade esse assuntado dar e receber termina sempre em balança, e quando a gente dá e acha que o outro acha que o que a gente acha tá bom e o outro acha que a gente acha que o que o outro acha dá pro gasto, aí vira uma achação chata, cheia de achismo, saudade, desencontro, desmedido sentimento, e aí, cê já viu, né: o outro encosta, ou acha que nem tem que fazer força que já ta bom, ou espera que você entenda que do jeito do outro é que tá bom e você pensa que se o outro não consegue entender que você morreu num abraço, viveu num laço, acordou num destino, remoçou num olhar, explodiu num carinho, se encontrou numa mordida, num aperto suado, numa nuca molhada, numa cobrança besta, numa noite só quando era pra estar junto, encaixado, com beijo roubado, já que tapinha não dói, e a marca das unhas que acabam ficando nas costas acabam saindo, a mordida nem tá roxa mais, e como o lençol foi lavar nem o perfume fica, e no fundo a gente se esquece de que primeiro tem que lembrar é da gente mesmo, afinal de contas o outro acha que a gente nem lembra do outro, mesmo que você desmarque tudo pra estar com o outro, e o outro se esquece de ser delicado, ou de avisar o que já sabia, e quando você liga avisa assim, como se não soubesse, e a vida vai indo, e vem gente, vai gente, e gente chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, como diz a música, e os verdadeiros encontros e despedidas se dão, e a gente acaba acostumando tanto com isso determinada hora que o sofrimento passa a ser cada vez menor, e essa menina que entrou agora no elevador será que ela é daqui, acho que vou comentar alguma coisa estúpida sobre o clima ou a vontade de almoçar ou comentar alguma coisa desse vestido dela pra ver se dá uma liga, e antes de comentar ela já desceu no sexto, e tá vendo, como as coisas são, como o mundo gira, e se a gente não cuida é assim, é num eu já tenho um compromisso, eu só vou ali encontrar fulano, hoje não to muito a fim e o fim acaba próximo e engraçado como um pensamento recorrente cola nos outros e uma coisa vai puxando até que você finalmente se lembra que o melhor mesmo é ficar em silêncio e, quem sabe deixar essa história de alguém novo na vida pra lá. Ou não.

Para, ajoelha, reza, respira, levanta e caminha.



2 comentários:

Mara Coelho disse...

Super Saramago!

Fabiana disse...

Ou não... ou não!
Adorei o ritmo! Parabéns!